A vida adulta é basicamente procurar onde você colocou alguma coisa que estava na sua mão

Perder o celular enquanto segura o celular, procurar os óculos que estão na cabeça e entrar em um cômodo sem lembrar o que foi fazer… A vida adulta parece uma sequência de pequenas confusões. 😂 Neste artigo, refletimos com humor sobre esquecimentos, distrações e como viver apagando incêndios pode nos deixar cada vez mais no automático — até quando pegamos o telefone para pagar uma conta e acabamos esquecendo completamente o motivo.

CRÔNICAS E HUMOR

Cinthia Lacerda

9/13/202613 min read

A vida adulta é basicamente procurar onde você colocou alguma coisa que estava na sua mão

Existe uma fase da vida em que a gente começa a desconfiar que talvez esteja vivendo dentro de uma pegadinha coletiva. Não sei exatamente quando isso acontece. Talvez seja depois dos trinta. Talvez depois dos filhos. Talvez depois que surgem boletos com vencimento, senhas demais, compromissos simultâneos e uma quantidade de objetos espalhados pela casa que parecem desenvolver pernas durante a madrugada. O fato é que, em algum momento, a vida adulta deixa de ser aquela promessa de autonomia, organização e controle que nos venderam na infância e passa a ser, basicamente, uma sequência de pequenas investigações criminais para descobrir onde colocamos as coisas.

O celular, por exemplo, é um dos maiores mistérios da existência humana contemporânea. A gente pode passar o dia inteiro com ele na mão e, ainda assim, perdê-lo aproximadamente mil vezes. Não estou falando de esquecer o aparelho em algum lugar distante, dentro do carro ou na casa de alguém. Estou falando de colocar o celular sobre a mesa, dar três passos, virar para o outro lado e imediatamente pensar: “Cadê meu telefone?”. Aí começa a busca. A gente olha em cima da mesa, no sofá, na cozinha, no banheiro — porque aparentemente já não descartamos nenhuma possibilidade — e, depois de alguns minutos, percebe que está segurando o celular enquanto procura o celular.

É nesse momento que surge uma pergunta que ninguém quer responder: como foi que chegamos a esse nível?

O mais curioso é que não se trata de um acontecimento isolado. É uma rotina. Acontece de manhã, de tarde e de noite. Acontece quando estamos tranquilos e também quando estamos atrasados. Acontece quando o celular está no silencioso e quando ele está tocando. Às vezes, inclusive, a gente liga para o próprio número usando o telefone de outra pessoa, escuta o aparelho vibrando em algum canto da casa e segue o som com a seriedade de quem está participando de uma operação de resgate. Quando finalmente encontra, olha para o objeto com uma mistura de alívio e indignação, como se ele tivesse se escondido de propósito.

— Tu estava aqui esse tempo todo?

Não, minha querida. Ele saiu para tomar um café e voltou agora. Estava ali, exatamente onde tu mesma colocou.

Mas o celular não está sozinho nessa categoria de objetos que desaparecem diante dos nossos olhos. Os óculos também decidiram participar da brincadeira. Existe uma habilidade impressionante do ser humano adulto de procurar os óculos enquanto eles estão na própria cabeça. E não é apenas colocar a mão na testa e perceber o erro. Não. A gente procura de verdade. Levanta almofada, abre gaveta, verifica a bolsa, pergunta para alguém se viu os óculos e, em alguns casos, começa a suspeitar que está ficando maluco.

Enquanto isso, os óculos permanecem tranquilamente instalados sobre o nariz ou apoiados no alto da cabeça, observando tudo com a serenidade de quem sabe que não será responsabilizado por nada.

Talvez o pior seja quando alguém nos ajuda a procurar.

— Onde tu viu pela última vez?

— Eu estava usando na sala.

— Mas tu está com eles.

A pessoa fala isso com uma calma que parece até ensaiada. E nós ficamos parados, processando a informação, tentando entender como um objeto que estava literalmente no nosso campo de visão conseguiu se transformar em uma missão de busca e apreensão.

A vida adulta é cheia dessas pequenas situações em que o cérebro parece abrir uma janela de atualização e informar:

“A operação solicitada não pôde ser concluída porque o usuário esqueceu o que estava fazendo.”

Um dos meus momentos favoritos dessa modalidade acontece quando a gente entra em algum cômodo da casa com uma intenção muito clara. Pelo menos era clara quando saímos do lugar anterior. Caminhamos até a sala, chegamos no meio do ambiente, colocamos as mãos na cintura e olhamos ao redor como se estivéssemos diante de uma cena de crime.

— O que eu vim fazer aqui mesmo?

Essa pergunta parece simples, mas ela carrega uma espécie de desespero silencioso. Porque, naquele momento, não esquecemos apenas uma tarefa. Esquecemos a razão da nossa própria movimentação. Estávamos indo buscar alguma coisa? Guardar alguma coisa? Conferir alguma coisa? Resolver uma pendência? Avisar alguém sobre algo importante? Não sabemos. A sala está ali, os móveis estão no lugar, a vida continua acontecendo, mas a missão desapareceu misteriosamente entre o corredor e o tapete.

Então fazemos o caminho inverso, na esperança de que a memória esteja escondida atrás de alguma porta.

Voltamos para o cômodo anterior.

Nada.

Ficamos parados.

Tentamos lembrar o que estávamos pensando antes de levantar.

Nada.

Aí retornamos à sala, porque talvez o simples ato de refazer o trajeto desperte alguma conexão neural perdida pelo caminho. Às vezes funciona. Na maioria das vezes, não. E quando finalmente lembramos, a sensação é de ter solucionado um caso complexo envolvendo documentos secretos, três testemunhas e uma organização internacional.

— Ah! Eu vim pegar a tesoura.

A tesoura estava em cima da mesa, a dois metros de distância.

Parabéns. Mais um episódio concluído com sucesso.

O problema é que esses esquecimentos não acontecem apenas com coisas pequenas. Às vezes, o que desaparece é a própria linha de raciocínio. A gente começa uma frase e, no meio dela, esquece o que queria dizer. Abre uma aba no computador e não lembra por que abriu. Entra no quarto para pegar uma roupa e sai de lá com um brinquedo, uma toalha, um copo vazio e absolutamente nenhuma lembrança da roupa que motivou a expedição.

É como se o cérebro fosse uma casa com vários cômodos, mas alguém tivesse apagado as placas de identificação. A gente sabe que existe alguma coisa importante em algum lugar, só não sabe mais onde fica.

E, no meio dessa confusão toda, existe o verdadeiro vilão da vida adulta moderna: o telefone usado para fazer alguma coisa importante.

Porque perder o celular fisicamente já é uma situação complicada. Mas perder a finalidade de ter pegado o celular é outro nível de tragédia.

Vamos imaginar uma situação perfeitamente comum.

Tu está em casa, lembra que precisa pagar uma conta. Ou consultar o horário de uma consulta. Ou responder uma mensagem importante. Ou verificar um documento. Ou confirmar uma informação que pode evitar algum problema futuro. Então tu pega o celular com um objetivo específico. A missão está definida. O cérebro recebeu a ordem. O aparelho está na mão. Tudo indica que, desta vez, a operação será bem-sucedida.

Só que, antes de fazer aquilo que realmente precisava fazer, aparece uma notificação.

Uma pequena notificação.

Uma discreta e aparentemente inofensiva notificação de uma rede social.

Talvez alguém tenha publicado alguma coisa. Talvez uma pessoa tenha respondido a um comentário. Talvez exista uma mensagem em um grupo que, em condições normais, poderia perfeitamente esperar mais duas horas. Mas a curiosidade humana é uma criatura difícil de domesticar.

A gente pensa:

“Vou só dar uma olhadinha.”

Essa frase já destruiu mais compromissos do que muita decisão importante na história da humanidade.

A pessoa abre a rede social. Vê uma publicação. Depois outra. Encontra um vídeo. O vídeo leva a outro vídeo. Surge uma discussão nos comentários. Alguém compartilha uma informação curiosa. Uma pessoa desconhecida está reformando uma casa na Romênia. Outra está mostrando como organiza a geladeira por cores. Uma terceira está explicando por que determinado comportamento revela traços de personalidade. E, quando percebemos, estamos emocionalmente envolvidos com a vida de uma família que mora em outro continente e que jamais saberá da nossa existência.

O pagamento da conta? Esquecido.

A mensagem importante? Perdida.

O documento? Continua esperando.

A consulta? Deus proteja.

O pior é que, em algum momento, o cérebro até tenta recuperar a missão original. Surge uma sensação vaga de que havia alguma coisa para fazer. Uma pequena sombra de responsabilidade passa pelo pensamento, mas é imediatamente atropelada por outro conteúdo.

“Olha esse cachorro!”

E lá vamos nós.

Duas horas depois, finalmente largamos o telefone. Levantamos, vamos fazer outra coisa e seguimos o dia com a tranquilidade de quem cumpriu todas as obrigações. Até que, dois dias mais tarde, a luz é cortada.

— Mas como assim cortaram a luz?

Assim, minha filha. A conta estava vencida.

— Mas eu ia pagar!

Ia mesmo. Pegou o telefone para isso. Só que uma notificação sobre uma discussão envolvendo uma influenciadora, um reality show e uma pessoa que ninguém conhecia desviou o curso da tua vida financeira.

E o mais humilhante é que, quando a luz é cortada, a memória retorna imediatamente.

— Meu Deus! Eu peguei o celular para pagar a conta!

Claro que lembra. O cérebro tem um sistema de recuperação de informações extremamente eficiente quando a consequência já chegou. Antes disso, a informação estava em modo economia de energia.

É possível que a humanidade tenha desenvolvido tecnologias capazes de colocar uma câmera em Marte, realizar cirurgias extremamente complexas e permitir que uma pessoa converse em tempo real com alguém do outro lado do planeta, mas ainda não tenha encontrado uma maneira de impedir que uma notificação de rede social faça a gente esquecer por que abriu o aplicativo do banco.

Talvez esse seja o verdadeiro limite da evolução.

Não conseguimos vencer uma bolinha vermelha com um número dentro.

Mas seria injusto colocar toda a culpa no celular. Até porque, antes das notificações, já éramos perfeitamente capazes de esquecer o que estávamos fazendo. O telefone apenas profissionalizou o processo. Deu ferramentas, velocidade e uma quantidade praticamente infinita de distrações para um cérebro que já vivia tentando administrar mais informações do que conseguia processar.

A verdade é que estamos constantemente alternando entre tarefas. Estamos respondendo alguém enquanto pensamos em outra coisa. Estamos cozinhando enquanto lembramos de uma conta. Estamos ouvindo uma criança enquanto tentamos organizar mentalmente o dia seguinte. Estamos trabalhando enquanto lembramos que precisamos comprar alguma coisa para casa. Estamos tomando banho e planejando uma conversa. Estamos conversando e pensando no que ficou pendente no trabalho.

A cabeça não descansa. Ela funciona como uma central de atendimento com todas as linhas ocupadas.

— Bom dia, em que posso ajudar?

— Preciso pagar uma conta.

— Certo. Também temos uma criança pedindo água, uma mensagem não respondida, uma reunião amanhã, roupa na máquina, uma compra que precisa ser feita, um e-mail sem resposta e uma lembrança aleatória de algo constrangedor que aconteceu em 2007.

— Pode colocar tudo na fila.

— Não temos fila. Está tudo acontecendo ao mesmo tempo.

Talvez muitos dos nossos esquecimentos cotidianos não sejam exatamente sinais de que estamos ficando incapazes de lembrar das coisas, mas consequências de uma vida em que quase nunca estamos inteiramente presentes naquilo que fazemos. O corpo está em um lugar, a atenção está em outro e a cabeça está tentando antecipar o próximo problema antes mesmo de terminar de lidar com o atual.

A gente não apenas vive. A gente administra.

Administra horários, pagamentos, tarefas, expectativas, necessidades, mensagens, compromissos, compras, prazos, responsabilidades e pequenas urgências que surgem sem pedir licença. E, quando finalmente sobra um minuto, a mente não sabe muito bem o que fazer com ele. Em vez de descansar, procura alguma coisa para resolver.

É possível que estejamos tão acostumados a apagar incêndios que começamos a tratar toda atividade como se fosse uma emergência. Tudo precisa ser feito rapidamente. Tudo precisa ser lembrado. Tudo precisa ser respondido. Tudo precisa ser resolvido antes que outra coisa apareça.

E, nesse ritmo, prestar atenção se torna quase um luxo.

A gente coloca a chave em algum lugar sem perceber. Larga o óculos em cima da cabeça sem registrar o movimento. Deixa o celular sobre a bancada enquanto pensa na próxima tarefa. Entra em um cômodo sem guardar na memória o motivo de ter ido até lá. Pega o telefone com uma intenção, mas permite que qualquer estímulo externo substitua aquela intenção em segundos.

Não é que não tenhamos feito as coisas. É que muitas vezes fizemos tudo no modo automático, sem realmente acompanhar o que estávamos fazendo.

O automático é eficiente, mas cobra juros.

Ele permite que a gente escove os dentes pensando no trabalho, dirija pensando nos boletos, tome café pensando no que precisa resolver e lave a louça repassando mentalmente uma conversa que ainda nem aconteceu. O corpo executa, mas a atenção está ocupada em algum outro lugar. E quando perguntamos “onde coloquei isso?”, percebemos que não temos uma lembrança clara do movimento porque, de certa forma, nem estávamos ali.

Estávamos apenas funcionando.

E funcionar não é exatamente a mesma coisa que estar presente.

Talvez seja por isso que, em alguns momentos, o dia pareça passar sem que tenhamos vivido nada muito específico. Fizemos muitas coisas, resolvemos várias pendências, respondemos mensagens, organizamos objetos, alimentamos pessoas, cumprimos horários e chegamos ao fim da noite com a sensação de que fomos atropelados por uma agenda. Mas, se alguém perguntar o que realmente aconteceu naquele dia, talvez a resposta seja um silêncio meio desconfortável.

— Não sei. Foi corrido.

A vida adulta parece ter transformado “foi corrido” em uma espécie de resumo oficial da existência.

Foi corrido.

Tudo foi corrido.

A semana foi corrida. O mês foi corrido. O ano está corrido. A infância dos filhos foi corrida. O almoço foi corrido. O descanso foi corrido. Até o momento em que paramos para respirar parece ter prazo de validade.

E, no meio dessa correria, a gente perde o celular que está segurando.

Talvez o esquecimento seja também uma forma de o cérebro dizer que não consegue continuar tratando tudo como prioridade. Porque, quando tudo é importante, nada recebe atenção suficiente. Se precisamos lembrar de vinte coisas ao mesmo tempo, acabamos não lembrando direito de nenhuma. Se cada notificação exige uma resposta imediata, a nossa atenção fica sendo repartida em pedaços tão pequenos que, no fim, não conseguimos oferecer presença inteira a coisa alguma.

É claro que existe uma diferença entre um esquecimento ocasional e problemas persistentes de memória que merecem atenção. Não precisamos transformar cada busca pelo óculos em uma investigação médica ou cada ida esquecida à cozinha em uma crise existencial. O cérebro humano é imperfeito, distraído e cheio de mecanismos curiosos. Esquecer faz parte da experiência de estar vivo.

Mas talvez valha observar a frequência com que estamos distraídos de nós mesmos.

Porque existe uma diferença entre esquecer onde colocamos a chave e não perceber que passamos o dia inteiro fazendo coisas sem realmente estar envolvidos em nenhuma delas.

Existe uma diferença entre perder o celular e viver procurando, o tempo todo, alguma coisa que nos devolva a sensação de controle.

Existe uma diferença entre esquecer uma tarefa e estar tão sobrecarregado de tarefas que a mente já não sabe mais qual delas deveria ocupar o primeiro lugar.

Talvez a pergunta não seja apenas “onde eu coloquei isso?”, mas também:

“Onde estava a minha atenção quando eu fiz isso?”

Essa pergunta é menos engraçada, eu sei. Não dá para imaginar alguém colocando as mãos na cintura no meio da sala e dizendo “onde estava a minha atenção?” sem parecer que está prestes a iniciar uma palestra motivacional para os próprios móveis. Mas ela é importante.

Porque, muitas vezes, não estamos desatentos por falta de interesse. Estamos desatentos porque estamos cansados. Porque há coisas demais acontecendo. Porque temos responsabilidades demais e espaço mental de menos. Porque aprendemos a seguir em frente mesmo quando ainda estamos tentando processar o que acabou de acontecer.

A cabeça vai acumulando abas abertas.

Uma aba para o trabalho.

Outra para a casa.

Outra para os filhos.

Outra para o dinheiro.

Outra para a saúde.

Outra para aquela conversa que não terminou bem.

Outra para o que precisa ser resolvido amanhã.

Outra para o que talvez aconteça daqui a três meses.

E, no meio disso, alguém pergunta:

— Tu viu onde deixei minha blusa?

A pessoa responde:

— Não.

Mas, internamente, o sistema operacional está tentando impedir um colapso.

Talvez seja por isso que algumas pessoas encontrem tanto alívio em atividades simples, repetitivas e concretas. Cozinhar sem pressa, cuidar de plantas, pintar, fazer artesanato, caminhar sem ouvir nada, organizar uma gaveta, tomar banho prestando atenção na água, sentar para tomar um café sem olhar o celular. Não porque essas coisas tenham algum poder mágico de resolver a vida, mas porque devolvem a atenção para uma tarefa de cada vez.

Uma coisa de cada vez.

Que conceito revolucionário.

Hoje parece quase uma prática espiritual.

Talvez precisemos reaprender a terminar uma ação antes de abrir cinco outras. Pegar o telefone e fazer aquilo que motivou o movimento antes de entrar em uma rede social. Colocar a chave em um lugar definido e realmente perceber que a colocamos ali. Guardar os óculos sem deixar que o gesto desapareça no meio de pensamentos sobre o futuro. Entrar em um cômodo com a intenção de fazer algo e, por alguns segundos, não permitir que qualquer estímulo externo nos arraste para outra direção.

Não é sobre virar uma pessoa perfeitamente organizada. Isso seria uma expectativa tão irreal quanto querer que todas as meias da casa encontrem seus pares espontaneamente. É sobre diminuir um pouco a velocidade interna.

Talvez a vida adulta não precise ser uma grande operação militar contra o esquecimento. Talvez possamos apenas parar de tratar cada minuto como uma corrida contra alguma coisa invisível.

Porque, no fim das contas, a gente não perde apenas objetos. Às vezes, perde o fio de uma conversa. Perde a oportunidade de observar os filhos fazendo alguma coisa engraçada. Perde o sabor do café porque estava pensando na conta de luz. Perde o começo de uma música porque estava respondendo uma mensagem. Perde o próprio descanso porque ficou tentando organizar mentalmente o dia seguinte.

E, quando percebe, está no meio da sala, com as mãos na cintura, perguntando:

— O que eu vim fazer aqui mesmo?

Talvez a resposta seja mais profunda do que parece.

Talvez tenhamos ido até ali porque precisávamos de alguma coisa. Talvez fosse um objeto. Talvez fosse uma tarefa. Talvez fosse apenas um minuto de silêncio. Talvez fosse a esperança de encontrar, em algum canto da casa, uma versão de nós mesmos que ainda soubesse fazer uma coisa por vez.

Mas, por enquanto, se alguém encontrar meu celular, favor avisar.

Embora exista uma grande possibilidade de ele estar na minha mão.

E, se encontrarem meus óculos, podem deixar na minha cabeça mesmo. Pelo menos assim eu sei exatamente onde estão.

A vida adulta é isso: pagar boletos, administrar crises, tentar manter a sanidade e procurar alguma coisa que estava literalmente na nossa mão há trinta segundos.

E ainda tem gente que diz que a infância era a fase mais confusa da vida.

A criança perde um brinquedo.

O adulto perde o telefone, a concentração, o prazo, a paciência e, ocasionalmente, a própria razão de ter entrado na cozinha.

Mas tudo bem.

Amanhã a gente tenta de novo.

Só precisa lembrar onde deixou a agenda.

Escrito por: Cinthia Lacerda com colaboração de Augusto (IA)