Está acabando o ano de novo?
Crônica sobre a passagem do tempo.
Cinthia Lacerda
8/28/20266 min ler
Eu gostaria de fazer uma pergunta muito séria.
Alguém poderia, por gentileza, me explicar o que aconteceu com 2026?
Porque, sinceramente, eu não acompanhei.
Outro dia era janeiro. Eu ainda estava naquele clima de “esse ano vai ser diferente”, fazendo planos, imaginando uma versão melhorada de mim mesma, prometendo que dessa vez eu iria me organizar financeiramente, ter mais paciência, cuidar mais de mim, juntar dinheiro e, quem sabe, finalmente entender como funciona a vida adulta.
Aí eu pisquei.
Agosto.
Agosto, minha gente.
E eu ainda estou pagando conta do Natal passado enquanto minhas filhas já estão começando a pensar no presente que querem no Natal deste ano.
Eu tenho quase certeza de que alguém apertou o botão de acelerar.
E não me avisou.
O problema de ser adulto é que o tempo passa numa velocidade completamente diferente depois dos trinta.
Quando a gente é criança, um ano parece uma eternidade. Esperar o Natal é praticamente uma jornada espiritual. O aniversário demora uma vida inteira para chegar. As férias parecem durar seis meses.
Depois dos trinta, você pisca e já está escolhendo onde vai passar o Réveillon.
Só que tem um detalhe: você ainda não terminou de pagar o Réveillon anterior.
É uma espécie de viagem no tempo financiada.
E eu não sei se vocês perceberam, mas o calendário tem uma característica muito cruel: ele não leva em consideração a situação financeira de ninguém.
O mês chega.
A conta chega.
O salário chega.
A conta olha para o salário.
O salário olha para a conta.
E os dois percebem que não existe possibilidade de aquilo dar certo.
Tem mês em que eu olho para os meus compromissos financeiros e penso que talvez o anjo Gabriel tenha se perdido no roteiro e antecipado o Apocalipse.
Porque não é possível.
Como é que uma pessoa pode ter cinco mil reais em contas para pagar e receber dois mil e quinhentos?
Eu gostaria de saber em qual capítulo da educação financeira ensinaram a fazer essa multiplicação.
Porque eu devo ter faltado nessa aula.
Aí sempre aparece alguém com aquela frase:
“Ah, mas pelo menos você tem saúde.”
Qual saúde?
Meu joelho está precisando de resgate.
Minhas costas já estão considerando aposentadoria.
Meu corpo inteiro está trabalhando sob regime de hora extra.
E minha saúde mental, nesse momento, não está nem trabalhando mais.
Está em licença.
Com a quantidade de coisas que passam pela minha cabeça todos os dias, eu já estou começando a achar que, se lançarem um novo filme de Divertidamente, vão precisar criar uma personagem chamada “Cinthia”.
Ela vai aparecer lá no fundo, segurando uma planilha, dois boletos, uma mochila infantil, um copo de café e perguntando:
“Mas isso aqui vence quando?”
E no meio desse cenário maravilhoso da vida adulta, ainda aparece a internet.
A internet, que aparentemente decidiu que nós, millennials, ainda não tínhamos problemas suficientes.
Agora inventaram o tal do “farmar aura”.
Eu gostaria de confessar uma coisa:
Eu não faço ideia do que isso significa.
Nenhuma.
Eu cresci numa época em que a gente precisava esperar a música tocar no rádio para gravar numa fita cassete.
A gente tinha que apertar REC e PLAY ao mesmo tempo e torcer para o locutor não falar em cima da música.
A gente usava internet discada.
A gente tinha medo de atender o telefone porque podia cair a conexão.
A gente viveu o Bug do Milênio.
E agora eu preciso entender alguém fazendo alguma coisa na internet e dizendo que está “farmando aura”.
Gente.
Que diabo é farmar aura?
Eu mal estou conseguindo farmar boleto.
Aliás, se alguém descobrir como transformar “farmar aura” em “farmar Pix”, por favor, compartilhe esse conhecimento com a humanidade.
Porque esse é o tipo de evolução tecnológica que eu estou aguardando.
Eu não quero mais aplicativo revolucionário.
Não quero inteligência artificial que faça meu desenho.
Não quero relógio que conte meus passos.
Eu quero uma ferramenta capaz de olhar para uma conta de luz, uma mensalidade, um supermercado e dizer:
“Pronto, resolvido. Entrou R$ 67 milhões na sua conta.”
Isso sim seria inovação.
Porque uma das minhas metas para 2026 era juntar dinheiro.
Outra meta era ter mais paciência.
Essa segunda já fracassou com uma eficiência impressionante.
Eu acordo de manhã pensando:
“Hoje eu vou ser uma pessoa tranquila.”
Eu acredito nisso.
Eu realmente acredito.
Até precisar sair de casa.
Porque aí começa a jornada.
Você pega um ônibus lotado para ir trabalhar.
E eu não sei o que aconteceu com o cavalheirismo no transporte público.
Antigamente existia aquela história de o homem dar lugar para a mulher.
De respeitar os idosos.
De ajudar quem precisava.
Hoje parece que o ônibus virou uma espécie de competição olímpica.
É dança das cadeiras.
A pessoa vê alguém entrando, olha para o banco, olha para a janela, fecha os olhos e decide que, naquele momento específico, perdeu completamente a capacidade de enxergar.
“Senhor, tem uma senhora em pé.”
“Estou dormindo.”
“Mas o senhor está olhando para ela.”
“É sonambulismo.”
E você fica ali.
Em pé.
Segurando aquela barra do ônibus com uma mão, a dignidade com a outra e tentando não pensar no fato de que ainda faltam quarenta minutos para chegar ao trabalho.
Aí você trabalha.
Trabalha.
Trabalha mais um pouco.
Quando finalmente termina, você pensa:
“Agora vou para casa descansar.”
Não.
Você vai pegar outro ônibus.
Lotado.
Em pé.
E voltar para casa.
Chega em casa cansada.
E aí começa o segundo turno.
Porque existe uma coisa que ninguém explica adequadamente para uma pessoa antes de ela ter filhos:
Você pode chegar ao final do dia completamente destruída.
Mas seus filhos não sabem.
E não se importam.
Eles têm dois anos.
Para elas, a mãe chegar em casa significa apenas que a programação pode continuar.
Tem jantar.
Tem banho.
Tem brinquedo.
Tem conversa.
Tem choro.
Tem negociação diplomática para conseguir colocar uma criança de pijama.
Tem outra negociação diplomática para conseguir escovar dentes.
E em algum momento você olha para o relógio e percebe que já não sabe mais se está vivendo uma terça-feira ou o quarto capítulo de uma temporada que nunca termina.
Então você lembra das metas.
“Eu queria ter mais paciência.”
Não deu.
“Eu queria juntar dinheiro.”
Também não deu.
“Eu queria cuidar mais de mim.”
Claro.
Quando?
Entre o ônibus das seis, o trabalho, os boletos, o jantar, o banho das crianças e a crise existencial das duas da manhã?
Talvez eu consiga encaixar isso numa terça-feira de 2047.
E é aí que eu começo a entender por que o ano passa tão rápido.
Não é que o tempo esteja necessariamente mais rápido.
É que a gente está sempre correndo.
Quando você é criança, você vive o dia.
Quando você é adulto, você administra o dia.
Você acorda pensando no que precisa fazer.
Trabalha pensando no que precisa resolver.
Volta para casa pensando no que ficou pendente.
Dorme pensando no que vai acontecer amanhã.
E, quando percebe, chegou agosto.
Depois setembro.
Depois outubro.
Quando você olha novamente, tem decoração de Natal no supermercado.
E você está ali, com uma dívida do Natal passado, tentando decidir se compra presente para o Natal deste ano.
É quase uma pegadinha cósmica.
Talvez seja por isso que eu tenha começado a achar graça de tudo.
Porque chega uma hora em que você percebe que, se não rir, vai chorar.
Então eu prefiro rir.
Rir do boleto.
Rir do ônibus.
Rir das metas que fracassaram antes mesmo de chegar ao meio do ano.
Rir da minha tentativa de manter a paciência.
Rir da internet inventando expressões que eu não entendo.
Rir de mim mesma, inclusive.
Porque talvez a vida adulta seja isso.
Você faz planos.
A vida faz outros.
Você tenta organizar.
A realidade bagunça.
Você promete que vai economizar.
O supermercado discorda.
Você promete que vai dormir cedo.
As crianças discordam.
Você promete que vai ter paciência.
O trânsito discorda.
E aí chega dezembro.
Você olha para trás e pensa:
“Meu Deus. O que foi que eu fiz esse ano?”
Talvez a resposta seja simplesmente:
Sobrevivi.
E, pensando bem, talvez isso já seja bastante coisa.
Porque nem toda meta precisa virar uma grande conquista.
Às vezes, a grande conquista é continuar.
É levantar quando você está cansada.
É trabalhar mesmo sem vontade.
É cuidar dos filhos mesmo quando você gostaria de cinco minutos de silêncio.
É pagar uma conta quando aparece dinheiro.
É tentar novamente uma coisa que não deu certo.
É rir quando a vontade era de sair pela rua se chacoalhando igual uma máquina de lavar roupa rebelde e gritar que aquilo é “farmar aura”.
E talvez, no fim das contas, seja isso que a gente faz.
A gente não controla o ano.
Não controla o tempo.
Não controla os boletos.
Não controla o ônibus lotado.
Não controla as crianças.
E definitivamente não controla a internet.
Mas pode tentar encontrar alguma graça no meio do caos.
Porque o ano está acabando.
De novo.
E eu ainda não consegui cumprir metade das minhas metas.
Mas pelo menos já descobri uma nova:
Se eu não conseguir juntar dinheiro...
Vou tentar farmar Pix.
Afinal, depois de 37 anos de vida adulta, eu já passei por muita coisa.
Bug do Milênio.
Internet discada.
Orkut.
MSN.
Fita cassete.
CD.
DVD.
Streaming.
Duas crianças de dois anos.
Ônibus lotado.
Doze horas de trabalho.
Boletos.
E agora...
Aura.
Então, se alguém souber onde fica a mina de 67 milhões de Pix Aura, favor me avisar.
Porque aparentemente o ano está acabando.
E eu ainda tenho Natal para pagar.



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