A gratidão por tudo aquilo que acontece enquanto a gente vive

E se a gratidão não fosse sobre agradecer apenas quando tudo está bem? Neste texto, a gente olha para a gratidão de um jeito diferente: como um exercício de perceber a vida que já está acontecendo enquanto seguimos ocupados demais tentando controlar tudo. O coração que bate sem pedir autorização, os pulmões que respiram, o corpo que trabalha silenciosamente, a natureza, nossos ancestrais, o tempo, nossos filhos e até aquela parte de nós que continua insistindo mesmo quando a gente pensa em desistir. Porque agradecer não significa ignorar a dor, fingir que tudo é perfeito ou aceitar aquilo que nos machuca. Talvez seja simplesmente parar por alguns instantes e reconhecer a quantidade de vida que existe ao nosso redor, dentro de nós e através de nós. No final, uma oração de gratidão para ler devagar — ou simplesmente sentir.

ALÉM DO ÓBVIO

Cinthia Lacerda

10/2/20269 min ler

A Gratidão por Tudo Aquilo que Acontece Enquanto a Gente Vive

Quando foi a última vez que você agradeceu por alguma coisa que estava funcionando tão perfeitamente que você sequer percebeu que ela estava acontecendo?

Pensa no seu coração.

Você acordou hoje e não precisou lembrar: “Bom dia, coração. Pode começar.”

Ele simplesmente começou.

Tum.

Tum.

Tum.

Você não precisou acompanhar cada batimento, determinar a velocidade, lembrar de acelerar quando levantou da cama ou diminuir quando voltou a se deitar.

Enquanto você lia esta frase, ele continuou trabalhando.

E os seus pulmões?

Você não precisou acordar e pensar: “Preciso respirar.”

O ar simplesmente entrou.

Depois saiu.

E entrou novamente.

Enquanto você pensa, trabalha, conversa, reclama, ri, planeja o futuro, lembra do passado e, eventualmente, perde alguns minutos olhando alguma bobagem na internet, existe uma quantidade absurda de coisas acontecendo dentro de você sem que você precise comandar absolutamente nenhuma delas.

Talvez a gente tenha se acostumado tanto com o extraordinário que passou a chamar de normal.

E talvez seja justamente aí que a gratidão comece.

A gratidão não precisa esperar que tudo esteja bem

Existe uma ideia de gratidão que, às vezes, me incomoda.

Aquela que parece dizer que precisamos olhar para a vida e encontrar apenas coisas boas. Como se agradecer significasse colocar um sorriso no rosto, ignorar aquilo que machuca e repetir que tudo acontece por uma razão.

Eu não penso assim.

Acho que gratidão de verdade pode coexistir com a tristeza.

Com a dúvida.

Com a raiva.

Com a saudade.

Com a frustração.

Com aquilo que ainda não conseguimos compreender.

Porque talvez agradecer não seja dizer que tudo está maravilhoso.

Talvez seja simplesmente conseguir reconhecer que, mesmo no meio da bagunça, a vida continua oferecendo alguma coisa para ser percebida.

E isso muda completamente a conversa.

Eu posso estar cansada e ainda agradecer pelo meu corpo.

Posso estar decepcionada e ainda agradecer por aquilo que aprendi.

Posso estar distante de alguém que amo e ainda agradecer pelo que essa pessoa significa na minha história.

Posso não entender o caminho que estou percorrendo e, ainda assim, agradecer pela possibilidade de continuar caminhando.

Gratidão não precisa ser negação.

Pode ser presença.

Existe uma vida acontecendo dentro de nós

A gente passa tanto tempo tentando controlar a própria vida que talvez esqueça de perceber quantas coisas importantes já estão sendo cuidadas sem a nossa interferência.

O coração bate.

Os pulmões respiram.

O sangue circula.

As células trabalham.

O sistema nervoso transmite informações.

O corpo regula uma quantidade impressionante de processos enquanto nós estamos ocupados decidindo o que vamos jantar.

E eu acho isso quase engraçado.

Imagine se tivéssemos que controlar conscientemente tudo.

“Espera aí, preciso lembrar de respirar.”

“Um segundo, estou ocupada, não posso esquecer de fazer meu coração bater.”

“Peraí, preciso mandar o sangue para o pé esquerdo agora.”

Acho que, nesse caso, realmente não sobraria tempo para cuidar da vida dos outros.

E talvez esse seja um dos grandes presentes da existência: não precisamos controlar tudo para que a vida continue acontecendo.

Existe uma inteligência no nosso corpo que trabalha silenciosamente.

Nós dormimos, e ela continua.

Nós choramos, e ela continua.

Nós viajamos, trabalhamos, nos apaixonamos, nos irritamos, fazemos planos e mudamos de ideia.

E ela continua.

Não pede aplauso.

Não exige reconhecimento.

Não precisa que a gente diga “obrigada”.

Mas hoje eu quero dizer.

Obrigada.

Agradecer também é olhar para trás

Quando pensamos na nossa própria existência, é curioso perceber que não começamos exatamente onde nascemos.

Antes de nós, existiram pessoas.

Histórias.

Escolhas.

Erros.

Acertos.

Perdas.

Amores.

Medos.

Sonhos.

Gente cujo nome talvez saibamos e gente cuja existência jamais conseguiremos conhecer.

Somos resultado de uma história muito maior do que a nossa própria memória.

E isso não significa romantizar o passado.

Nem tudo que recebemos precisa ser repetido.

Talvez uma das formas mais bonitas de honrar aqueles que vieram antes seja justamente transformar aquilo que chegou até nós.

Receber uma história não significa estar condenado a repeti-la.

Podemos agradecer pela vida que recebemos e, ao mesmo tempo, escolher fazer diferente.

Podemos reconhecer nossas raízes sem ficar presos a elas.

Podemos olhar para os nossos ancestrais e pensar:

“Eu não sei quem vocês foram.

Talvez eu nunca saiba.

Mas alguma coisa de vocês chegou até mim.

E eu vou fazer o melhor que puder com aquilo que recebi.”

Existe uma espécie de continuidade nisso.

Uma vida passando pela outra.

O tempo também merece um agradecimento

O tempo é uma coisa engraçada.

Quando queremos que ele passe, parece lento.

Quando queremos que ele fique, corre.

Quando percebemos, aquela criança cresceu.

Aquela casa mudou.

Aquele trabalho acabou.

Aquela fotografia já pertence a outra versão da nossa vida.

E talvez por isso tenhamos tanta dificuldade em agradecer ao tempo.

A gente gostaria de negociar com ele.

Mais cinco minutos.

Mais um ano.

Mais uma chance.

Mais uma infância.

Mais uma conversa.

Mas o tempo não negocia.

Ele simplesmente passa.

E talvez agradecer pelo tempo não seja gostar da passagem dele.

É reconhecer o que ele nos permite fazer enquanto passa.

Aprender.

Mudar.

Amadurecer.

Recomeçar.

Perceber.

Amar.

E, principalmente, descobrir que algumas versões nossas precisam morrer para que outras possam nascer.

A natureza continua trabalhando enquanto a gente corre

Existe algo profundamente bonito na natureza porque ela não parece ter a mesma ansiedade que nós.

A árvore não fica desesperada porque ainda não deu fruto.

A flor não parece preocupada em competir com a outra flor.

A formiga simplesmente trabalha.

A abelha procura o que precisa.

O pássaro voa.

A água corre.

O sol nasce.

A chuva cai.

E nós estamos aqui, muitas vezes, tentando fazer cinco anos de vida acontecerem em seis meses.

Talvez observar a natureza seja também uma forma de lembrar que existir não é apenas produzir.

Há coisas que precisam de tempo.

Há coisas que precisam de silêncio.

Há coisas que simplesmente precisam continuar acontecendo.

E nós fazemos parte disso.

Dependemos da natureza para respirar, comer, beber, viver.

Mesmo assim, tantas vezes agimos como se estivéssemos separados dela.

Talvez agradecer à natureza também seja reconhecer essa responsabilidade.

Eu recebo.

Eu dependo.

Eu faço parte.

E, portanto, também preciso cuidar.

E existem pessoas que nos ensinam a amar

Entre todas as coisas pelas quais podemos agradecer, algumas são especialmente complexas.

As pessoas.

Porque amar alguém não significa que nunca haverá conflito.

Família não significa ausência de desencontros.

Maternidade não significa saber tudo.

Filhos não chegam ao mundo com um manual de instruções — e, para falar a verdade, nós também não.

Eles chegam e transformam a gente.

Cada criança que passa pela nossa vida deixa alguma coisa.

Um ensinamento.

Uma pergunta.

Uma transformação.

Uma versão nossa que existia antes e outra que nasceu depois.

Por isso, eu agradeço pelos meus filhos.

Não porque tudo seja sempre simples.

Não porque todas as distâncias desapareçam.

Não porque todos os silêncios sejam fáceis.

Mas porque eles me ensinaram e continuam me ensinando coisas sobre amor, responsabilidade, paciência e sobre a pessoa que eu quero me tornar.

Às vezes, amar também é aprender a agradecer aquilo que uma relação despertou em nós, mesmo quando a realidade não corresponde exatamente ao que gostaríamos que fosse.

Talvez também devêssemos agradecer a nós mesmas

Essa talvez seja uma das partes mais difíceis.

Agradecer a si mesma.

Porque fomos ensinadas a agradecer aos outros, reconhecer os outros, elogiar os outros.

Mas quando olhamos para nós?

Muitas vezes encontramos primeiro aquilo que está errado.

O corpo que gostaríamos que fosse diferente.

A decisão que gostaríamos de ter tomado de outra maneira.

A oportunidade que perdemos.

A palavra que não deveríamos ter dito.

O caminho que demoramos para encontrar.

A versão de nós que ainda não conseguimos ser.

Mas existe uma outra possibilidade.

Olhar para si mesma e dizer:

“Obrigada por ter chegado até aqui.”

Não significa acreditar que você fez tudo certo.

Significa reconhecer que, com as ferramentas que tinha naquele momento, você continuou tentando.

Você caiu.

Aprendeu.

Errou.

Mudou de ideia.

Recomeçou.

Talvez tenha voltado algumas casas.

Talvez tenha seguido por caminhos que hoje escolheria diferente.

Mas está aqui.

E isso merece ser reconhecido.

Existe dentro de cada pessoa uma parte que continua.

Uma centelha que insiste.

Uma voz que, mesmo baixinha, às vezes diz:

“Vamos mais uma vez.”

Eu gosto de chamar essa parte de meu ser divino.

Minha centelha de luz.

Você pode dar a ela o nome que quiser.

O nome não importa tanto.

O que importa é reconhecer que existe dentro de nós uma força que muitas vezes nos conduz mesmo quando ainda não conseguimos compreender para onde estamos indo.

Gratidão também pode ser uma pausa

Talvez a gratidão não precise virar mais uma obrigação.

Não precisa de aplicativo.

Não precisa de caderno bonito.

Não precisa de uma lista com dez coisas positivas antes de dormir.

Pode ser simplesmente uma pausa.

Um momento em que você percebe:

“Eu estou aqui.”

E, por alguns segundos, presta atenção.

No ar entrando.

No coração batendo.

Na luz atravessando a janela.

No som de alguém que você ama.

Na água caindo.

Em uma árvore.

Em uma flor.

Em um animal passando.

Na própria respiração.

E talvez, nesse pequeno intervalo, alguma coisa dentro de nós desacelere.

Não porque todos os problemas desapareceram.

Mas porque, por alguns instantes, deixamos de olhar apenas para aquilo que falta e conseguimos perceber aquilo que já existe.

Uma oração para quando você quiser simplesmente agradecer

Foi pensando nisso que nasceu esta oração.

Não como uma fórmula.

Não como uma promessa de que agradecer fará todos os problemas desaparecerem.

E muito menos como uma obrigação de sentir gratidão o tempo inteiro.

É apenas uma pausa.

Um momento para reconhecer a vida em suas diferentes dimensões: aquilo que veio antes de nós, aquilo que existe ao nosso redor, aquilo que acontece dentro de nós e aquilo que ainda estamos nos tornando.

Uma oração para ler devagar.

Talvez em silêncio.

Talvez com os olhos fechados.

Talvez em um jardim, ouvindo a água correr.

Ou simplesmente sentada na cama, depois de um dia daqueles.

Porque, no fim das contas, talvez a gratidão seja isso:

parar por um instante e perceber que existe muito mais acontecendo do que aquilo que conseguimos enxergar.

Oração da Gratidão

Hoje eu só quero agradecer.

Agradecer pela vida que acontece dentro de mim, mesmo quando estou distraída demais para perceber.

Agradecer ao Criador, que é tudo e está em tudo, pela minha vida, mesmo quando, por algum motivo, pareço estar distante Dele.

Agradecer aos meus pais, por terem me dado a oportunidade de estar aqui, de experimentar a vida, de aprender, de amar e de me tornar quem sou, mesmo quando, por algum motivo, nossos caminhos se desencontram e a gente se desentende.

Agradecer aos meus ancestrais, por tudo aquilo que chegou até mim através deles. Pelas histórias que conheço e, principalmente, por aquelas que nunca conhecerei. Agradecer pela possibilidade de transformar, em mim, aquilo que um dia foi vivido antes de mim, mesmo quando eu sequer sei os seus nomes.

Agradecer ao tempo, por tudo aquilo que ele me ensina, mesmo quando tenho dificuldade de aceitar a sua passagem.

Agradecer à natureza, por seu trabalho incansável em me alimentar, me sustentar e me manter viva, mesmo quando, tantas vezes, minhas próprias ações conspiram contra a sua preservação.

Agradecer pela dádiva que são meus filhos, que a cada dia me ensinam a ser uma pessoa melhor, a amar de maneiras que eu ainda estou aprendendo a compreender, mesmo quando o silêncio e a distância se fazem presentes entre nós.

Agradecer a toda energia que me cerca, que me atravessa e que me permite viver, sentir, aprender e existir, mesmo quando a revolta me invade e não me deixa enxergar a beleza que continua acontecendo ao meu redor.

Agradecer a cada partícula que existe próxima de mim, e também àquelas que existem dentro de mim, porque, juntas, elas fazem parte daquilo que somos, mesmo quando estão em desequilíbrio.

Agradecer ao meu corpo, que trabalha por mim sem que eu precise comandá-lo.

Ao meu coração, que bate sem que eu precise pedir.

Aos meus pulmões, que respiram sem que eu precise lembrar.

Ao meu sangue, que circula sem que eu tenha que direcionar.

Às minhas células, que se regeneram sem que eu perceba.

A cada órgão, cada sistema, cada pequena parte de mim que, silenciosamente, faz a sua parte para que eu possa simplesmente estar aqui.

Enquanto eu penso, sonho, trabalho, rio, choro e vivo, existe dentro de mim uma inteligência que continua trabalhando.

Eu não controlo.

Eu não preciso entender.

Eu apenas recebo.

E agradeço.

E, principalmente, agradeço a mim mesma.

Ao meu ser divino.

À minha centelha de luz.

Àquela parte de mim que me ama incondicionalmente, que me conhece profundamente e que, mesmo quando eu não percebo, continua me conduzindo na direção certa.

Agradeço a essa parte de mim que insiste.

Que espera.

Que aprende.

Que cai e levanta.

Que me lembra quem eu sou quando eu mesma me esqueço.

Que continua me empurrando para frente, mesmo quando eu não aceito o caminho que ela escolheu me mostrar.

Porque talvez nem sempre eu precise entender o caminho.

Talvez eu só precise confiar um pouco mais.

Hoje eu não quero pedir.

Não quero cobrar respostas.

Não quero tentar controlar o que ainda não compreendo.

Hoje eu só quero reconhecer a quantidade de vida que existe ao meu redor, dentro de mim e através de mim.

E dizer:

Muito obrigada.

Obrigada, vida.

Obrigada pela oportunidade de estar aqui.

Obrigada por tudo aquilo que me trouxe até este momento.

E obrigada por tudo aquilo que ainda está por vir.

Muito obrigada.

Escrito e criado por Cinthia Lacerda