A inveja que eu senti me mostrou tudo aquilo que eu ainda quero ser.

Sentir inveja nem sempre significa desejar o mal de alguém. Às vezes, esse sentimento revela nossos próprios desejos, frustrações e sonhos que deixamos de lado. Neste artigo, compartilho uma experiência pessoal que me fez refletir sobre comparação, dinheiro, oportunidades, fé e prosperidade. Inspirada por uma ideia de Beth Russo, descobri uma nova maneira de olhar para a conquista de alguém que amo: agradecer, abençoar sua vida e reconhecer aquilo que também desejo construir na minha. Afinal, e se a inveja não precisar nos diminuir, mas puder nos ajudar a enxergar caminhos que ainda não exploramos? Uma reflexão sincera sobre sentimentos que nem sempre temos coragem de admitir e sobre como transformar o desconforto em impulso para crescer.

REFLEXÕES

Cinthia Lacerda

10/9/202615 min ler

A inveja que eu senti me mostrou tudo aquilo que eu ainda quero ser.

Esses dias eu almocei com uma amiga cujo filho recebeu uma proposta de trabalho que, olha, vou te dizer uma coisa: até eu fiquei tentando entender se tinha ouvido direito os valores. Ele tem 25 anos, é Analista de Dados Sênior, tem graduação e pós graduação pela UFRGS, e recebeu uma proposta para trabalhar em outro local ganhando R$ 15 mil por mês, mais R$ 45 mil de PPR no final do ano e R$ 2 mil mensais de vale-refeição. Na proposta, o pacote anual aparece como R$ 244 mil, considerando a remuneração informada. Um baita salário, uma baita oportunidade e, aparentemente, um reconhecimento muito justo por tudo aquilo que ele construiu até aqui.

E sabe qual foi a primeira coisa que eu senti quando ouvi essa história? Inveja.

Sim, inveja mesmo. Daquelas que dão um nó no estômago e fazem a gente ficar pensando na própria vida, nas escolhas que fez, nas oportunidades que perdeu e em tudo aquilo que poderia ter sido diferente. E antes que alguém comece a me julgar, deixa eu explicar uma coisa: eu não senti inveja porque acho que ele não merece ganhar tudo isso. Muito pelo contrário! Eu amo esse guri, ele é uma das pessoas mais queridas deste mundo, gentil, simpático, amoroso, e eu desejo de coração que ele conquiste tudo aquilo que quiser. Inclusive, falei que ele não merece menos do que isso, porque sei o quanto se esforçou para chegar onde chegou.

Mas eu senti inveja. E o mais interessante é que, em vez de tentar fingir que não senti nada, eu parei para entender o motivo.

Quando o sucesso do outro vira um espelho

A primeira coisa que eu pensei foi: por que isso está me incomodando tanto?

Afinal, o dinheiro é dele, o esforço foi dele e a oportunidade é dele. Não tem absolutamente nada de errado nessa história. Ele estudou, se dedicou, construiu uma carreira e está colhendo os frutos de tudo isso. Então, por que eu estava com aquele nó no estômago?

Foi quando percebi que a minha inveja não era exatamente sobre ele. Era sobre mim.

O sucesso dele me colocou diante de uma pergunta que talvez eu estivesse evitando há algum tempo: por que eu ainda não cheguei onde gostaria de estar?

E essa pergunta doeu. Doeu porque eu sei que quero ganhar mais, quero ter mais liberdade financeira, quero poder fazer minhas coisas sem precisar calcular cada centavo e quero olhar para a minha vida profissional com a sensação de que estou construindo alguma coisa importante. Eu trabalho, tenho experiência, sou Analista de Dados, estudo, aprendo coisas novas, mas ainda estou muito longe da realidade financeira que desejo para mim.

Quando ouvi que uma pessoa de 25 anos estava prestes a receber mais do que o triplo do meu salário, não consegui evitar a comparação. E não vou ficar aqui escrevendo um discurso bonito sobre como cada um tem seu tempo, como o importante é ser feliz e como dinheiro não traz felicidade. Tudo isso pode até ter seu fundo de verdade, mas não responde àquilo que eu estava sentindo naquele momento.

Eu quero ganhar mais dinheiro, sim. Quero crescer profissionalmente, quero ter oportunidades melhores e quero poder proporcionar uma vida cada vez melhor para mim e para a minha família. E reconhecer isso não me torna uma pessoa materialista, invejosa no pior sentido da palavra ou menos evoluída espiritualmente. Significa apenas que tenho desejos, ambições e necessidades que ainda não consegui atender.

O problema não foi sentir inveja. O problema seria fingir que ela não existia e perder a oportunidade de descobrir o que estava por trás daquele sentimento.

Mas será que eu fracassei?

Aqui a conversa começa a ficar um pouco mais complicada, porque, quando olhei para a trajetória daquele rapaz, comecei a olhar também para a minha.

Ele estudou em um dos colégios particulares mais difíceis de Porto Alegre, passou na UFRGS, formou-se em Engenharia de Produção em cinco anos e depois ainda fez pós-graduação em Ciência de Dados. Só começou a trabalhar aos 22 anos, porque queria, e o dinheiro que recebia era para usar com ele mesmo. Antes disso, pôde se dedicar aos estudos e construir sua formação sem precisar conciliar tudo com a obrigação de colocar comida na mesa.

A minha história foi bem diferente.

Eu precisei trabalhar cedo para poder comer, porque literalmente passei fome. Casei cedo para sair de casa e me afastar de uma mãe tóxica. Depois, fiquei em um relacionamento no qual não era feliz porque não tinha para onde ir nem dinheiro para me sustentar sozinha. Durante muito tempo, precisei aceitar aquilo que aparecia, porque a minha prioridade não era escolher a melhor oportunidade profissional, fazer um curso ou investir em mim. Era conseguir sobreviver.

A primeira vez que comprei um calçado para mim, eu já tinha 18 anos. Trabalhei durante seis meses, juntei um dinheirinho e finalmente consegui comprar. Enquanto algumas pessoas podiam usar o dinheiro do próprio trabalho para sair, comprar coisas ou realizar seus desejos, eu precisava fazer contas para conseguir ter o básico.

São realidades muito diferentes. E eu não quero usar a minha história como desculpa para tudo aquilo que ainda não conquistei, mas também não posso ser injusta comigo mesma e fingir que comecei a corrida no mesmo lugar que outras pessoas.

Não comecei.

Enquanto algumas pessoas estavam construindo o currículo, eu estava tentando construir uma vida na qual não precisasse depender de ninguém para sobreviver. Enquanto algumas podiam planejar os próximos cinco anos, eu precisava descobrir como resolver os problemas daquela semana. Isso não significa que eu não pudesse ter feito escolhas melhores em algum momento, mas significa que minhas escolhas foram feitas dentro de condições muito diferentes.

E eu tenho orgulho da minha trajetória. Tenho orgulho de ter chegado até aqui, de ter aprendido, de ter desenvolvido habilidades e de continuar buscando maneiras de melhorar minha vida.

Mas, ao mesmo tempo, existe uma parte de mim que se sente fracassada.

Porque eu também olho para trás e penso que poderia ter feito mais. Poderia ter estudado determinadas coisas antes, buscado outras oportunidades, me movimentado mais profissionalmente. Às vezes, sinto que fui preguiçosa, que me acomodei em algumas situações e que deixei o medo ou o cansaço me impedirem de dar passos que poderiam ter mudado a minha realidade.

E eu não quero esconder isso de mim mesma.

Só que existe uma diferença entre reconhecer que poderia ter feito algumas coisas de outra maneira e transformar toda a minha história em uma sentença de fracasso. Uma coisa é admitir que tenho responsabilidades pelas escolhas que faço. Outra é ignorar tudo aquilo que precisei enfrentar para chegar até aqui.

Posso reconhecer meus erros sem apagar minhas conquistas. Posso querer mais sem desprezar o que já construí. E posso admitir que estou insatisfeita com algumas áreas da minha vida sem concluir que a minha vida inteira foi um fracasso.

Talvez esse seja um dos maiores desafios de olhar para nós mesmos com honestidade: aprender a reconhecer aquilo que precisa mudar sem transformar essa descoberta em mais um motivo para nos machucar.

A gente precisa aprender a admitir o que sente

Uma das coisas que mais me chamam a atenção nas relações humanas é a dificuldade que temos de admitir alguns sentimentos.

Todo mundo quer ser uma pessoa boa, generosa, evoluída, feliz com a felicidade dos outros e completamente livre de sentimentos negativos. A gente aprende que inveja é feio, que ciúme é feio, que raiva é feio, que sentir ressentimento é feio. Então, quando esses sentimentos aparecem, em vez de tentar entender o que está acontecendo dentro de nós, muitas vezes fazemos de tudo para escondê-los.

E esconder um sentimento não significa que ele deixou de existir.

Às vezes, a pessoa diz que está feliz pelo sucesso de alguém, mas passa os próximos dias procurando defeitos na conquista. Diz que não tem inveja, mas começa a desmerecer o trabalho do outro, questionar seus méritos ou encontrar motivos para acreditar que aquela pessoa não merece o que conquistou.

É muito mais confortável dizer que o outro teve sorte, que recebeu ajuda, que conhece as pessoas certas ou que está ganhando demais para aquilo que faz do que admitir: eu queria estar no lugar dele.

Porque admitir isso exige olhar para dentro. Exige reconhecer nossas frustrações, nossos desejos, nossas inseguranças e até as escolhas que fizemos ao longo da vida.

E esse processo nem sempre é agradável.

Eu poderia ter ouvido a proposta de trabalho daquele rapaz e passado o resto do dia procurando motivos para diminuir a conquista dele. Poderia ter pensado que ele teve privilégios, que a vida foi mais fácil ou que não é justo alguém tão jovem ganhar tudo isso enquanto eu ainda estou tentando melhorar minha situação financeira.

E algumas dessas diferenças de oportunidade realmente existem. Não seria honesto ignorá-las. Mas usar essas diferenças para desmerecer a conquista dele não mudaria absolutamente nada na minha vida.

O salário dele continuaria sendo o mesmo. A oportunidade dele continuaria existindo. E eu continuaria com as minhas próprias insatisfações, só que agora acompanhadas de ressentimento.

Quando percebi que estava com inveja, tive a oportunidade de fazer outra coisa: investigar aquele sentimento.

Em vez de perguntar o que havia de errado com ele por estar conquistando tanto, comecei a perguntar o que aquela conquista estava revelando sobre mim.

E a resposta foi bastante clara: eu quero crescer. Quero ganhar mais. Quero sair da zona de conforto em algumas áreas da minha vida. Quero parar de adiar determinados projetos e começar a agir de maneira mais consistente em direção à realidade que desejo construir.

Olha só que interessante! O mesmo acontecimento poderia ter se transformado em ressentimento, mas acabou se tornando um incentivo.

Não porque a inveja seja necessariamente boa, mas porque a maneira como lidamos com ela pode nos ensinar alguma coisa.

E se a inveja estiver mostrando aquilo que desejamos?

Existe uma fala da Beth Russo de que gosto muito. A ideia é que, quando vemos algo em outra pessoa e sentimos inveja, devemos agradecer e abençoar essa pessoa, porque sentir inveja é Deus nos mostrando aquilo que podemos ser.

Eu gosto dessa maneira de olhar para o sentimento porque ela muda a pergunta que fazemos diante do sucesso alheio.

Em vez de pensar: por que ela tem isso e eu não tenho?, podemos começar a pensar: o que essa conquista despertou em mim? O que eu vi nessa pessoa que também desejo para a minha vida? O que posso aprender com isso? Que possibilidades essa situação me fez enxergar?

Para mim, existe uma diferença enorme entre olhar para a conquista de alguém como uma prova de que somos inferiores e olhar para ela como uma possibilidade que ainda não exploramos.

Quando vejo alguém conquistando uma coisa que desejo, posso escolher interpretar aquilo como uma confirmação de que fiquei para trás. Posso transformar a experiência em mais uma evidência de que não sou boa o suficiente, de que perdi tempo demais ou de que nunca vou conseguir.

Mas também posso olhar para aquela conquista e reconhecer que aquilo existe no mundo. Que há pessoas construindo carreiras, recebendo salários maiores, realizando projetos e alcançando objetivos que eu também gostaria de alcançar.

E, em vez de usar isso para me diminuir, posso usar para ampliar aquilo que considero possível para mim.

Quando soube que aquele rapaz receberia R$ 15 mil por mês, mais os outros benefícios da proposta, percebi que uma parte de mim ainda estava tratando um salário assim como algo muito distante da minha realidade. Como se existisse uma espécie de fronteira invisível entre as pessoas que conseguem chegar a esse nível profissional e financeiro e aquelas que precisam se contentar com muito menos.

Mas por que eu deveria considerar essa fronteira intransponível?

Esse guri chegou a esse resultado por meio de uma trajetória de estudos, formação e desenvolvimento profissional. A história dele não é igual à minha, e eu não preciso fingir que as oportunidades foram as mesmas. Mas o fato de ele ter conseguido chegar a esse patamar me mostra que esse nível de remuneração existe, que há empresas dispostas a pagar esse valor por determinadas competências e que eu posso estudar o mercado, entender o que é exigido e trabalhar para ampliar minhas próprias possibilidades.

Não significa que eu vá receber o mesmo salário amanhã. Também não significa que basta pensar positivo, agradecer ao universo e esperar que o dinheiro apareça na minha conta.

Significa que posso mudar a maneira como enxergo o meu futuro.

E é aqui que entra a minha conexão com Deus.

Eu acredito que a vida pode nos apresentar sinais, oportunidades e situações que nos fazem enxergar coisas que antes não conseguíamos perceber. Talvez aquilo que nos incomoda em outra pessoa esteja apontando para um desejo que deixamos adormecido, para uma capacidade que ainda não desenvolvemos ou para uma possibilidade que nem sequer considerávamos real.

Então, quando eu digo que quero agradecer e abençoar o filho da minha amiga, é exatamente isso que quero fazer. Quero que ele prospere, que seja feliz, que cresça profissionalmente e que receba todo o reconhecimento que merece. Não preciso desejar menos para ele para desejar mais para mim.

Pelo contrário. Posso ficar feliz pela conquista dele e usar essa experiência para me aproximar daquilo que desejo construir na minha própria vida.

Para mim, essa é uma forma de me conectar com a energia da abundância: deixar de olhar para a prosperidade alheia como se ela fosse uma ameaça à minha e começar a enxergar que existem caminhos que talvez eu ainda não conheça, habilidades que posso desenvolver e oportunidades pelas quais posso trabalhar.

Eu não preciso que ele ganhe menos para me sentir melhor. Preciso descobrir o que posso fazer para construir uma vida na qual eu também me sinta realizada.

A inveja não vai fazer o trabalho por mim

Agora, vamos combinar uma coisa? Não adianta transformar qualquer sentimento em uma mensagem espiritual bonita e depois continuar fazendo exatamente as mesmas coisas.

Se eu digo que Deus está me mostrando uma possibilidade, preciso estar disposta a olhar para essa possibilidade com responsabilidade. Se acredito que posso me conectar com uma energia de abundância, preciso também investigar os comportamentos, as decisões e os conhecimentos que podem me ajudar a construir uma realidade financeira melhor.

Não adianta olhar para alguém que ganha R$ 15 mil e passar o resto da semana repetindo que também mereço ganhar isso, se não estiver disposta a entender o que preciso desenvolver para aumentar minhas chances de chegar lá.

E isso não significa que todas as pessoas que ganham mais necessariamente trabalham mais, estudam mais ou merecem mais do que as outras. O mercado de trabalho não é uma medida perfeita do valor de ninguém. Existem diferenças de oportunidade, contatos, condições econômicas, setores, empresas e uma infinidade de fatores que influenciam a remuneração.

Mas, no meu caso, eu sei que existem coisas que posso fazer para melhorar minhas perspectivas profissionais. Posso continuar estudando, aprofundar meus conhecimentos em análise de dados, desenvolver habilidades que o mercado valoriza, buscar oportunidades melhores e parar de esperar que as coisas mudem sozinhas.

E talvez a minha inveja tenha sido justamente o empurrão que eu precisava para voltar a olhar com mais seriedade para os meus próprios objetivos.

Porque uma coisa é dizer que quero ganhar mais dinheiro. Outra é assumir que esse desejo precisa ocupar um lugar real nas minhas decisões.

Quanto tempo faz que digo que quero crescer profissionalmente? Quantas vezes já pensei em aprender uma ferramenta nova, buscar uma vaga melhor ou desenvolver um projeto e acabei deixando para depois? Quantas vezes o cansaço, as responsabilidades e a rotina me fizeram adiar coisas importantes para mim?

Eu não tenho todas as respostas, mas sei que não quero passar os próximos anos repetindo as mesmas reclamações sem investigar o que está ao meu alcance mudar.

E talvez seja essa a parte mais valiosa de reconhecer um sentimento negativo: ele pode nos mostrar uma insatisfação que precisa ser enfrentada.

A raiva pode revelar um limite que não estamos conseguindo estabelecer. O ciúme pode apontar para uma insegurança que precisa ser compreendida. A tristeza pode mostrar que alguma coisa importante está faltando. E a inveja pode revelar um desejo que estamos tentando ignorar.

Isso não significa que todo sentimento seja uma verdade absoluta ou que devamos agir de acordo com aquilo que sentimos. Sentimentos são informações sobre a nossa experiência, não ordens que precisamos obedecer.

Sentir inveja não me obriga a competir com ninguém. Sentir raiva não me dá o direito de machucar alguém. Sentir ciúme não significa que a outra pessoa fez alguma coisa errada.

Mas todos esses sentimentos podem ser convites para uma conversa honesta conosco mesmos.

Eu posso ter orgulho da minha história e querer uma história diferente daqui para a frente

Acho que o que mais me incomodou nessa situação foi perceber que, apesar de tudo aquilo que já enfrentei, ainda existe uma parte de mim que se cobra por não ter chegado mais longe.

Eu olho para a minha trajetória e reconheço que sobrevivi a situações muito difíceis. Sei que precisei lidar com problemas que consumiram tempo, energia e oportunidades. Mas também sei que não quero usar o passado como uma explicação definitiva para tudo aquilo que ainda não conquistei.

Posso reconhecer que comecei de um lugar diferente e, ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade pelo lugar para onde quero ir.

Não preciso escolher entre ter compaixão pela mulher que fui e cobrar atitude da mulher que sou hoje.

Aquela menina que precisou trabalhar para comprar o próprio calçado aos 18 anos merece meu respeito. A mulher que precisou fazer escolhas difíceis para conseguir sobreviver também merece. E a mulher que hoje quer ganhar mais, crescer profissionalmente e construir uma vida financeira diferente merece a oportunidade de tentar.

Não quero olhar para tudo aquilo que vivi e concluir que foi em vão. Mas também não quero olhar para o meu passado e usá-lo como motivo para desistir de construir um futuro melhor.

Tenho direito de querer mais. Tenho direito de olhar para a minha vida e reconhecer que algumas coisas não estão como gostaria. Tenho direito de sentir frustração quando percebo a distância entre a realidade que tenho e aquela que desejo.

E tenho o direito de mudar de ideia, de começar de novo, de aprender coisas que ainda não sei e de buscar oportunidades que antes pareciam distantes.

O sucesso de outra pessoa não precisa ser um julgamento sobre a minha vida.

Aquele rapaz não é responsável pelo fato de eu ganhar menos. Ele não me tirou nenhuma oportunidade, não fez nada de errado e não precisa diminuir as próprias conquistas para que eu me sinta melhor. A história dele é dele, assim como a minha história é minha.

Posso admirar a trajetória dele, reconhecer o esforço que fez e desejar que prospere ainda mais. E posso usar essa mesma experiência para olhar com honestidade para as minhas próprias escolhas.

Não preciso transformar a conquista dele em uma competição. Preciso transformar aquilo que senti em uma oportunidade de crescimento.

Da próxima vez que sentir inveja, talvez eu faça uma coisa diferente

Eu não escrevo tudo isso porque descobri uma fórmula mágica para lidar com a inveja. Estou escrevendo porque, desta vez, consegui perceber o que estava acontecendo dentro de mim enquanto o sentimento ainda estava ali.

Não precisei fingir que sou uma pessoa completamente desprendida das comparações. Não precisei dizer que dinheiro não importa ou que estou plenamente satisfeita com a minha vida profissional. Também não precisei desmerecer a conquista de alguém que amo para justificar a minha frustração.

Eu senti inveja. Fiquei triste. Senti aquele nó no estômago. Por alguns instantes, me senti fracassada.

Depois, comecei a entender o motivo.

E essa compreensão me permitiu enxergar uma coisa que talvez estivesse escondida atrás de todas aquelas sensações: eu ainda quero muita coisa para a minha vida.

Quero crescer, quero prosperar, quero ganhar mais dinheiro e quero sentir que estou construindo algo que me deixa orgulhosa. Quero olhar para o futuro com entusiasmo e saber que estou fazendo a minha parte para chegar onde desejo.

Então, em vez de alimentar a inveja, escolho agradecer pela oportunidade de reconhecer aquilo que ela revelou.

Agradeço a Deus por me permitir enxergar os meus próprios desejos com mais clareza. Abençoo a vida do filho dessa amiga e desejo que ele continue prosperando, porque o sucesso dele não diminui o meu valor e não precisa limitar as minhas possibilidades.

E, principalmente, quero usar esse sentimento como um lembrete de que ainda posso fazer muita coisa pela minha própria vida.

Talvez seja isso que a inveja tenha vindo me ensinar desta vez: não preciso sentir vergonha por desejar uma realidade diferente. Preciso ter coragem para admitir esse desejo e disposição para trabalhar na direção dele.

E, se eu acredito que Deus pode nos mostrar possibilidades por meio das experiências que vivemos, por que não olhar para essa situação também como um convite?

Quando vejo alguém conquistando algo que desejo, posso agradecer, abençoar essa pessoa e me perguntar o que posso aprender com a trajetória dela. Posso reconhecer que existem caminhos que ainda não percorri e oportunidades que ainda não busquei.

Posso parar de tratar a prosperidade dos outros como uma evidência da minha falta de sucesso e começar a enxergá-la como uma possibilidade que também quero explorar.

Não sei quanto tempo vou levar para chegar à realidade financeira que desejo. Não sei quais oportunidades vão aparecer, quais dificuldades vou encontrar ou quantas mudanças ainda precisarei fazer no caminho.

Mas sei que não quero continuar parada, lamentando aquilo que poderia ter sido, enquanto deixo de construir aquilo que ainda pode ser.

E, se hoje a conquista de alguém que amo me mostrou o quanto desejo crescer, talvez eu deva agradecer por ter conseguido enxergar isso com tanta clareza.

Porque sentir inveja não precisa me tornar uma pessoa pior. Pode me ajudar a conhecer uma parte de mim que precisava de atenção.

E, a partir desse reconhecimento, a escolha sobre o que fazer com esse sentimento passa a ser minha.

Agora me conta: tu já sentiu inveja de alguém e, depois de olhar com honestidade para esse sentimento, descobriu que ele estava te mostrando alguma coisa sobre a tua própria vida?

Escrito por Cinthia Lacerda