A magia dos cheiros: por que alguns aromas parecem nos transportar para outro lugar?

Por que alguns cheiros parecem nos transportar imediatamente para outro lugar? Um aroma pode trazer de volta uma pessoa, uma casa, uma época ou uma sensação que estava esquecida. Neste artigo, conto um pouco da minha relação com cheiros, música e o meu ateliê, onde incensos e sons ajudam a criar um espaço de paz e inspiração. Também mergulho na relação entre olfato, memória e emoções, passando pela aromaterapia, pelo simbolismo dos incensos e pela curiosidade em torno das músicas em 432 Hz. Entre ciência, experiências pessoais e interpretações espirituais, uma reflexão sobre como os sentidos ajudam a transformar ambientes comuns em lugares que realmente significam alguma coisa para nós. Porque talvez a magia esteja justamente nas pequenas coisas que fazem a gente se sentir em casa.

CASA DA BRUXA

Cinthia Lacerda

9/20/202613 min ler

A magia dos cheiros: por que alguns aromas parecem nos transportar para outro lugar?

Eu tenho uma relação meio particular com cheiros. Talvez “particular” seja uma maneira educada de dizer que eu sou praticamente uma central de teletransporte olfativo. Um determinado aroma aparece do nada e, antes mesmo que eu consiga pensar “que cheiro é esse?”, alguma parte da minha cabeça já está em outro lugar. Pode ser uma casa, uma época, uma pessoa, uma sensação, uma viagem, uma tarde qualquer que eu nem lembrava mais que existia. É como se o cérebro tivesse guardado determinadas lembranças em pequenas caixas invisíveis e alguém tivesse acabado de abrir uma delas.

Com música acontece algo parecido comigo. Uma melodia consegue fazer uma coisa muito estranha: muda a atmosfera de um ambiente sem mover absolutamente nenhum objeto. Eu posso estar trabalhando, cansada, pensando em mil coisas, e de repente uma determinada música começa a tocar e parece que o espaço ao meu redor muda de temperatura. Talvez seja justamente por isso que eu sempre tive essa necessidade de que a minha casa tivesse algum aroma agradável. Não necessariamente um cheiro forte ou aquela coisa de entrar no ambiente e sentir que alguém derramou meio vidro de perfume no sofá. É mais uma sensação de ambiente cuidado, acolhedor, vivo.

Só existe um pequeno detalhe nessa história: eu não moro sozinha.

E isso significa que nem sempre posso escolher os aromas que eu gostaria de sentir pela casa inteira. Existem pessoas, preferências, sensibilidades e simplesmente aquela negociação doméstica clássica que acontece quando mais de uma pessoa divide o mesmo teto: “eu gosto”, “eu não gosto”, “isso me dá dor de cabeça”, “isso está muito forte”, “pode apagar isso?”. E, sinceramente, faz parte. Uma casa compartilhada também é um exercício diário de convivência.

Foi assim que eu acabei criando um espaço que é um pouco mais meu: o meu ateliê.

Ali eu posso acender um incenso, colocar uma música indiana que me traz uma sensação imediata de paz e deixar o ambiente com aquele cheiro que eu gosto. Não estou tentando transformar o lugar em um templo, nem fazer uma cerimônia secreta toda vez que entro. Às vezes eu só quero sentar, respirar e sentir que, durante alguns minutos, aquele espaço está conversando comigo do jeito que eu gosto.

E talvez seja aí que esteja uma parte interessante daquilo que chamamos de “magia” das pequenas coisas.

Porque algumas coisas parecem mágicas justamente porque acontecem dentro da gente.

O cheiro não fica apenas no nariz

Existe uma razão bastante interessante para os cheiros terem esse poder quase absurdo de puxar lembranças.

O sistema olfativo possui conexões particularmente próximas com regiões cerebrais envolvidas em memória e emoção, incluindo estruturas como o hipocampo e a amígdala. Pesquisas sobre memória olfativa mostram que aromas podem funcionar como pistas para recuperar lembranças autobiográficas, muitas vezes de maneira bastante vívida e emocional.

Isso ajuda a explicar uma experiência que provavelmente muita gente já teve.

Você sente cheiro de bolo assando e, de repente, lembra da cozinha da sua avó.

Sente determinado perfume e pensa imediatamente em alguém.

Passa por uma rua e percebe um cheiro de chuva, madeira, comida ou terra molhada e, sem entender direito por quê, alguma lembrança aparece.

O curioso é que nem sempre conseguimos explicar racionalmente a lembrança antes de senti-la. Às vezes primeiro vem a sensação e só depois a identificação.

É quase como se o cérebro dissesse:

“Eu conheço isso.”

E nós respondêssemos:

“Conhece de onde?”

“Calma. Já estou procurando.”

A pesquisa sobre memória evocada por odores descreve justamente essa característica: os cheiros podem funcionar como pistas particularmente poderosas para memórias autobiográficas, inclusive aquelas associadas a experiências emocionalmente marcantes.

Talvez por isso algumas lembranças pareçam literalmente escondidas dentro de um cheiro.

Não é necessariamente que o perfume tenha “memória” por conta própria. É que nós construímos associações ao longo da vida. Um aroma aparece repetidamente durante determinada experiência e o cérebro aprende aquela combinação. Depois, anos mais tarde, o mesmo estímulo pode ajudar a reabrir aquele arquivo.

E olha que coisa curiosa: podemos esquecer conscientemente de uma situação durante anos e, ainda assim, um cheiro ser suficiente para fazer aquela lembrança bater na porta.

A casa também tem cheiro de quem mora nela

Eu acho fascinante pensar que uma casa possui uma espécie de identidade sensorial.

Não estou falando apenas daquele “cheiro de casa” que percebemos quando voltamos depois de alguns dias fora. Falo de todas as pequenas escolhas que acabam construindo a atmosfera daquele lugar: o sabonete do banheiro, o perfume usado na roupa de cama, o cheiro do café, uma vela, um difusor, o amaciante, a comida sendo preparada, o próprio cheiro dos móveis e dos objetos.

Duas casas podem ter exatamente o mesmo tamanho e a mesma disposição e, ainda assim, provocar sensações completamente diferentes.

Uma pode parecer fria.

Outra pode parecer acolhedora.

Uma pode ter cheiro de limpeza.

Outra pode ter cheiro de comida.

Outra pode ter cheiro de madeira, livro velho, café e alguma coisa que ninguém consegue identificar direito.

E existe algo muito pessoal nisso.

Quando eu penso em uma casa ideal, não penso apenas em decoração. Penso em sensação. Penso em como eu quero me sentir quando entro pela porta.

Talvez essa seja uma das coisas que mais esquecemos quando falamos de decoração: a casa não precisa apenas ser bonita para os outros. Ela precisa fazer sentido para quem vive nela.

E isso inclui o nariz.

Pode parecer bobagem, mas não é tão bobagem assim. Estudos sobre olfação mostram uma relação importante entre odores, emoção e humor. A literatura científica descreve inclusive como odores agradáveis podem influenciar estados emocionais e evocar memórias autobiográficas positivas.

Então, quando alguém diz “eu gosto que minha casa tenha cheiro de lavanda”, talvez esteja falando de muito mais do que lavanda.

Pode estar falando de tranquilidade.

De limpeza.

De uma lembrança.

De uma sensação de cuidado.

Ou simplesmente de “eu gosto desse cheiro e pronto”.

E essa última opção também é perfeitamente válida.

Nem tudo precisa virar tese de doutorado.

O meu pequeno território sensorial

Foi por isso que o meu ateliê acabou ganhando uma importância que talvez nem estivesse planejada inicialmente.

Ele é um lugar onde consigo escolher algumas coisas que não consigo necessariamente escolher na casa inteira.

Posso acender meu incenso.

Posso colocar uma música indiana.

Posso deixar o ambiente com aquele cheiro que, para mim, significa tranquilidade.

E existe uma coisa muito interessante nisso: eu não preciso necessariamente estar fazendo alguma atividade “produtiva”.

Às vezes posso estar trabalhando em alguma coisa. Às vezes organizando materiais. Às vezes criando. Às vezes simplesmente parada.

Isso também é uso de espaço.

A gente vive numa época em que parece que tudo precisa justificar sua existência através da produtividade. Se estamos sentados, deveríamos estar descansando “de verdade”. Se estamos descansando, deveríamos estar fazendo alguma coisa que melhore nossa saúde. Se estamos ouvindo música, talvez deveríamos estar estudando. Se estamos acendendo um incenso, alguém provavelmente vai aparecer para explicar os benefícios, os riscos, a frequência ideal e talvez até fazer uma planilha.

Eu não quero uma planilha do meu incenso.

Às vezes eu só quero sentir o cheiro.

E talvez exista uma pequena liberdade nisso.

Criar um espaço sensorial não precisa significar transformar a casa em um cenário místico. Pode ser tão simples quanto escolher uma música que você gosta, uma luz mais baixa, uma vela perfumada, uma planta, uma xícara de chá ou um aroma que faça você respirar um pouco mais devagar.

São pequenas coisas.

Mas pequenas coisas repetidas também constroem experiências.

E o incenso? É magia ou apenas cheiro?

Aqui começa uma parte que eu acho particularmente interessante porque envolve uma fronteira que atravessa boa parte da nossa vida: onde termina a explicação científica e começa a interpretação pessoal?

O incenso aparece em tradições religiosas, culturais e espirituais de diferentes lugares há muito tempo. É associado a práticas de oração, contemplação, purificação simbólica, meditação, cerimônias e simplesmente à criação de uma determinada atmosfera.

Eu gosto dessa dimensão simbólica.

Mas também acho importante não transformar todo simbolismo em comprovação científica.

Acender um incenso pode me fazer sentir mais tranquila porque eu associei aquele cheiro a momentos de paz. Pode ser porque o ambiente mudou. Pode ser porque a música mudou. Pode ser porque finalmente parei por alguns minutos. Pode ser por uma combinação de tudo isso.

E pode existir ainda uma interpretação espiritual para quem acredita nela.

Essas possibilidades não precisam necessariamente brigar.

O problema começa quando uma experiência subjetiva é apresentada como se fosse uma lei comprovada da natureza.

Eu posso dizer:

“Esse aroma me traz paz.”

Isso é uma experiência minha.

Outra pessoa pode sentir exatamente o contrário.

E tudo bem.

Aromaterapia é a mesma coisa?

Durante muito tempo, eu mesma teria colocado tudo isso dentro de uma mesma gaveta: incenso, óleos essenciais, plantas, aromas, práticas ancestrais e provavelmente alguma coisa que eu chamaria de “técnica xamânica” sem pensar duas vezes.

Só que, pesquisando melhor para escrever este artigo, descobri que a história é um pouco mais interessante — e menos simples.

A aromaterapia não é propriamente uma técnica xamânica. Ela é descrita pelo National Center for Complementary and Integrative Health, nos Estados Unidos, como uma abordagem complementar que utiliza óleos essenciais derivados de plantas, geralmente por inalação ou aplicação diluída na pele.

E aqui vale uma pausa importante.

O fato de algo ser chamado de “terapia” ou ser utilizado dentro de práticas complementares não significa automaticamente que exista evidência científica forte para todos os benefícios que costumamos ouvir por aí.

A pesquisa sobre aromaterapia é variada. Há estudos sugerindo possíveis efeitos em determinadas situações, como sono e ansiedade, mas também há limitações metodológicas e necessidade de pesquisas maiores e mais rigorosas. O próprio NCCIH destaca que ainda há questões em aberto sobre a eficácia de diferentes usos.

Isso não torna a experiência de quem gosta de aromas falsa.

Só coloca cada coisa no seu devido lugar.

Se eu uso um aroma porque gosto, porque me ajuda a criar um ambiente agradável ou porque ele está associado a uma memória boa, não preciso transformá-lo em tratamento médico para justificar meu gosto.

E, quando existe uma finalidade de saúde, aí entra outra responsabilidade: conhecer evidências, contraindicações e formas seguras de utilização.

Afinal, “natural” não significa automaticamente “inofensivo”.

O curioso caso dos 432 Hz

E já que estamos falando de coisas que parecem morar naquele território entre experiência pessoal, cultura e ciência, chegamos a outra coisa que sempre desperta curiosidade: a música em 432 Hz.

Eu confesso que acho esse assunto fascinante justamente porque existe uma enorme quantidade de afirmações circulando na internet sobre essa frequência. Algumas pessoas associam o 432 Hz a relaxamento, harmonia, equilíbrio, “frequência natural” e até efeitos energéticos mais amplos.

Mas aqui eu colocaria um asterisco gigante.

A afinação musical de referência mais comum atualmente é 440 Hz para a nota Lá acima do Dó central. Existem estudos comparando músicas afinadas em 432 Hz e 440 Hz, e um pequeno estudo duplo-cego publicado em 2019 encontrou algumas diferenças fisiológicas, incluindo uma redução maior da frequência cardíaca no grupo que ouviu a versão em 432 Hz. Os próprios autores, porém, indicaram a necessidade de estudos maiores e mais rigorosos.

Ou seja: existe pesquisa sobre o assunto, mas isso está longe de comprovar todas aquelas afirmações enormes que aparecem nas redes sociais.

E isso, para mim, deixa a história até mais interessante.

Porque eu não preciso acreditar que 432 Hz seja uma espécie de senha secreta do universo para gostar de ouvir determinada música nessa afinação.

Se eu ouço e relaxo, essa experiência existe.

A causa pode envolver a música, a afinação, o ritmo, o contexto, minhas associações pessoais, minha expectativa ou uma combinação de tudo isso.

E talvez a resposta mais honesta seja simplesmente:

“Ainda não sabemos exatamente.”

Eu gosto dessa resposta.

Ela deixa espaço para a curiosidade.

Música também muda o ambiente

Talvez seja por isso que música e cheiro funcionem tão bem juntos para mim.

Um aroma sozinho já pode mudar a percepção de um ambiente. Uma música sozinha também pode alterar completamente a atmosfera. Junte os dois e você cria uma experiência sensorial muito mais complexa.

E não precisa ser música “espiritual”.

Pode ser rock.

Pode ser samba.

Pode ser MPB.

Pode ser música indiana.

Pode ser aquela música completamente duvidosa que você sabe que ninguém mais na casa entende por que você gosta.

A música não precisa ter uma frequência especial, uma letra profunda ou um significado universal.

Às vezes ela simplesmente encontrou um lugar dentro da gente.

E isso já basta.

No meu caso, determinadas músicas indianas me trazem uma sensação de serenidade que eu não consigo explicar completamente. Talvez seja a sonoridade. Talvez seja a associação que construí ao longo dos anos. Talvez seja simplesmente o meu gosto.

Eu não preciso transformar isso em uma afirmação universal.

É meu.

E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas de ter um espaço próprio: poder descobrir quais elementos fazem sentido para você sem precisar convencer ninguém de que eles funcionam para todo mundo.

Pequenas magias não precisam de explicação completa

Existe uma tentação muito grande de querer explicar tudo.

Se algo nos faz bem, queremos saber exatamente por quê.

Se um cheiro nos emociona, queremos descobrir qual região do cérebro está envolvida.

Se uma música nos acalma, queremos saber qual frequência produziu o efeito.

Se uma vela cria determinada atmosfera, queremos saber se é a luz, o aroma, a memória ou simplesmente o fato de termos parado por cinco minutos.

Eu adoro ciência justamente porque ela tenta responder essas perguntas.

Mas também gosto de lembrar que compreender um fenômeno não necessariamente destrói o encantamento.

Saber que existe uma relação entre olfação, memória e estruturas cerebrais envolvidas em emoção não faz o cheiro de uma casa antiga ficar menos bonito. Pelo contrário. Talvez torne tudo ainda mais impressionante.

Descobrir que o cérebro possui caminhos particularmente ligados entre cheiro, emoção e memória não transforma uma lembrança em algo banal.

Transforma a lembrança em algo ainda mais extraordinário.

Porque significa que aquela sensação que parecia inexplicável tem uma história dentro de nós.

Talvez a nossa casa precise conversar com os nossos sentidos

A gente costuma pensar na casa principalmente através dos olhos.

Qual é a cor da parede?

Qual é o sofá?

Qual é a iluminação?

Qual é o estilo da decoração?

Mas uma casa também é escutada.

É tocada.

É cheirada.

É saboreada.

É sentida.

Talvez por isso alguns lugares sejam tão difíceis de esquecer. Não guardamos apenas uma imagem deles. Guardamos uma experiência sensorial inteira.

Eu lembro de lugares pelo cheiro.

Lembro de momentos por músicas.

Lembro de determinadas épocas por sabores.

E algumas vezes uma combinação dessas coisas consegue produzir uma sensação quase absurda de retorno.

É como se, durante alguns segundos, a gente não estivesse apenas lembrando.

Estivesse visitando.

Talvez seja por isso que eu gosto tanto de criar pequenos rituais no meu ateliê.

Acender um incenso.

Escolher uma música.

Arrumar alguma coisa.

Criar.

Sentar.

Respirar.

Não porque acredito que exista uma fórmula secreta capaz de transformar um ambiente em um portal para outra dimensão — embora, convenhamos, eu acharia bem divertido se existisse.

Mas porque descobri que determinados estímulos ajudam a construir a atmosfera que eu quero viver naquele momento.

E isso já é bastante coisa.

A magia talvez esteja justamente na associação

Talvez o cheiro não tenha poder mágico.

Talvez a música não tenha uma frequência universal capaz de reorganizar nossa existência.

Talvez o incenso não esteja literalmente limpando alguma energia invisível.

Talvez.

Mas também existe uma outra pergunta que eu acho mais interessante:

E se não precisarmos saber com absoluta certeza para reconhecer que alguma coisa nos faz sentir bem?

A ciência pode investigar mecanismos.

A psicologia pode estudar associações.

A neurociência pode observar circuitos.

A cultura pode explicar símbolos.

A espiritualidade pode oferecer outras interpretações.

E nós continuamos vivendo no meio disso tudo.

Eu posso saber que um cheiro ativa mecanismos relacionados à memória e, ainda assim, chamá-lo carinhosamente de “cheiro que me transporta”.

Posso saber que não existe comprovação suficiente para afirmar que 432 Hz possui todas as propriedades extraordinárias que algumas pessoas atribuem a ele e, ainda assim, gostar de ouvir determinada música nessa afinação.

Posso saber que aromaterapia é uma prática complementar com evidências que variam conforme o uso e, ainda assim, apreciar um aroma de lavanda porque ele me lembra tranquilidade.

Uma coisa não precisa destruir a outra.

Talvez maturidade seja também aprender a sustentar duas coisas ao mesmo tempo: a curiosidade pelo que sabemos e o respeito pelo que ainda não sabemos.

E talvez seja por isso que eu chame o meu ateliê de Casa da Bruxa

Não porque eu ache que exista uma bruxa escondida em mim esperando a lua cheia para preparar uma poção misteriosa.

Bom...

Talvez exista um pouquinho.

Mas a ideia de “bruxa” que eu gosto é muito mais simples.

É a mulher que observa.

Que experimenta.

Que mistura coisas.

Que presta atenção no que sente.

Que cria seus próprios pequenos rituais.

Que acende uma vela porque gosta da luz.

Que coloca uma música porque aquela música muda alguma coisa dentro dela.

Que sente um cheiro e imediatamente lembra de uma história.

Que gosta de plantas, objetos, cores, aromas, texturas e pequenos detalhes que não necessariamente têm uma utilidade prática.

A “bruxa” pode ser simplesmente aquela parte da gente que ainda consegue olhar para uma coisa cotidiana e pensar:

“Que interessante isso.”

E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de manter a vida minimamente encantada.

Porque o mundo já tem explicações demais.

E eu não estou dizendo isso contra a ciência. Muito pelo contrário.

Eu acho maravilhoso saber que um cheiro pode estar tão intimamente relacionado às nossas memórias. Acho fascinante descobrir como o cérebro transforma experiências em associações. Acho importante separar o que já foi demonstrado daquilo que ainda é hipótese, crença ou interpretação.

Mas, depois de entender tudo isso, ainda sobra uma coisa que nenhum artigo científico consegue tirar de mim:

o prazer de entrar no meu ateliê, acender um incenso, colocar uma música que eu gosto e pensar:

“Agora sim.”

Talvez a magia das pequenas coisas seja justamente essa.

Não precisar que o mundo inteiro reconheça a importância daquele momento.

Basta que ele tenha significado para você.

Porque, no fim das contas, talvez a nossa vida seja construída muito mais por essas pequenas sensações do que pelas grandes acontecimentos que imaginamos serem importantes.

Uma música.

Um cheiro.

Uma luz.

Uma lembrança.

Uma xícara.

Uma janela aberta.

Uma tarde tranquila.

Um cantinho que finalmente parece nosso.

E, quando percebemos, aquele pequeno ritual que parecia não significar nada virou parte da nossa história.

Talvez seja isso que fazemos quando criamos um espaço com a nossa cara: não estamos apenas decorando uma casa.

Estamos criando um lugar onde algumas versões de nós mesmas conseguem respirar.

E, para mim, isso já é uma forma bastante bonita de magia.