Ansiedade não é personalidade: quando a preocupação deixa de ser normal e passa a comandar a nossa vida
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VIDA REAL
Cinthia Lacerda
10/8/202611 min ler


Ansiedade não é personalidade: quando a preocupação deixa de ser normal e passa a comandar a nossa vida
“Eu sou assim mesmo.”
Talvez essa seja uma das frases mais perigosas quando estamos falando de ansiedade. Não porque seja sempre falsa, mas porque, às vezes, ela é a maneira que encontramos de explicar um sofrimento que já dura tanto tempo que parece fazer parte da nossa personalidade. A pessoa diz que é preocupada, acelerada, perfeccionista, controladora, nervosa, exigente, que pensa demais, que precisa antecipar tudo, que não consegue simplesmente “deixar para depois”. E todo mundo ao redor confirma: “Ah, mas tu sempre foi assim”. Só que existe uma diferença enorme entre ter uma personalidade mais preocupada e viver com um transtorno de ansiedade.
Eu sei disso porque demorei muito para entender.
Eu sempre fui uma pessoa que pensava muito. Sempre me cobrei demais, sempre quis fazer as coisas direito, sempre tive aquela sensação de que precisava resolver o que estivesse ao meu alcance antes que virasse um problema maior. Eu pensava nas possibilidades, antecipava cenários, imaginava o que poderia dar errado e tentava encontrar uma solução antes mesmo de o problema existir. Durante muito tempo, eu achei que isso fosse apenas uma característica minha. Talvez até uma qualidade. Afinal, ser responsável, organizada, pensar no futuro e tentar prevenir problemas não parecem exatamente defeitos.
O problema é quando a nossa cabeça não sabe mais desligar o modo emergência.
Hoje eu faço tratamento psiquiátrico há cerca de dois anos. Comecei depois que minhas filhas nasceram, quando percebi que aquilo que eu sempre tinha chamado simplesmente de “ansiedade” tinha ficado grande demais para eu administrar sozinha. Passei a fazer acompanhamento médico e a utilizar medicação prescrita para mim. E uma coisa curiosa aconteceu nesse processo: quando o tratamento está funcionando bem, eu continuo sendo eu. Continuo pensando muito, continuo sendo criativa, continuo fazendo planos, continuo tendo mil ideias ao mesmo tempo. A diferença é que eu consigo pensar sem sentir que preciso resolver o futuro inteiro antes de dormir.
E foi justamente por perceber essa diferença que eu entendi melhor o que estava acontecendo comigo.
Quando a ansiedade deixa de ser apenas ansiedade
Todo mundo sente ansiedade.
Antes de uma entrevista de emprego, uma prova, uma cirurgia, uma viagem importante, uma conversa difícil ou uma situação que não sabemos como vai terminar, é completamente normal sentir aquele aperto no peito, a cabeça acelerada e a vontade de antecipar o que vai acontecer. A ansiedade faz parte do funcionamento humano. Ela pode inclusive ser útil, porque nos prepara para situações que exigem atenção.
O problema começa quando a ansiedade deixa de ser uma reação proporcional a uma situação específica e passa a ocupar espaço demais na vida.
A Organização Mundial da Saúde diferencia os transtornos de ansiedade da ansiedade cotidiana justamente pela intensidade, duração, dificuldade de controle e impacto que os sintomas provocam na vida da pessoa. Em 2023, cerca de 470 milhões de pessoas no mundo viviam com algum transtorno de ansiedade, tornando esse grupo de transtornos um dos problemas de saúde mental mais comuns do planeta. A própria OMS ressalta que existem tratamentos eficazes, mas que o estigma e a falta de reconhecimento de que se trata de uma condição tratável ainda são barreiras importantes para que as pessoas procurem ajuda.
No transtorno de ansiedade generalizado, ou TAG, a preocupação não fica restrita a um único assunto. Ela pode envolver dinheiro, trabalho, família, saúde, filhos, responsabilidades, relacionamentos, futuro, segurança, desempenho e praticamente qualquer outra área da vida. Segundo o National Institute of Mental Health, o diagnóstico envolve preocupação excessiva e dificuldade para controlá-la na maioria dos dias por pelo menos seis meses, acompanhada de sintomas como inquietação, irritabilidade, dificuldade de concentração, fadiga, tensão muscular e problemas de sono.
E aqui está uma diferença que considero fundamental: não é simplesmente pensar muito. É não conseguir parar de pensar mesmo quando você gostaria.
Eu posso passar horas imaginando possibilidades porque sou criativa. Isso faz parte de quem eu sou. Mas, quando estou ansiosa, a criatividade pode virar uma máquina de fabricar ameaças.
“E se isso acontecer?”
“E se der errado?”
“E se eu não fizer agora?”
“E se eu esquecer alguma coisa?”
“E se acontecer alguma coisa com alguém que eu amo?”
“E se eu tomar a decisão errada?”
“E se eu não estiver preparada?”
E aí eu tento resolver hoje um problema que talvez nunca aconteça amanhã.
Eu vivo no futuro
Se eu tivesse que explicar como o transtorno de ansiedade funciona dentro da minha cabeça, provavelmente diria isso: eu vivo no futuro tentando me proteger de coisas que ainda não aconteceram.
Eu não estou necessariamente preocupada com aquilo que está acontecendo neste exato momento. Estou preocupada com o que pode acontecer daqui a uma hora, amanhã, semana que vem, daqui a seis meses. E, para a minha cabeça, imaginar todos os cenários possíveis parece uma forma de segurança.
Só que não é.
É exaustivo.
Eu posso estar sentada tranquilamente tomando café e, ao mesmo tempo, mentalmente administrando dez futuros diferentes. Posso estar vivendo um momento bom e minha cabeça já estar procurando o próximo problema. Posso terminar uma tarefa e imediatamente pensar na próxima. Posso resolver uma situação e sentir alívio por alguns minutos antes de encontrar outra coisa para me preocupar.
É como se meu cérebro tivesse dificuldade de acreditar que, neste momento, está tudo bem.
E isso pode aparecer de formas que nem sempre as pessoas associam à ansiedade. Irritabilidade, tensão, dificuldade de concentração, insônia, cansaço, inquietação, pensamentos repetitivos, necessidade excessiva de controle, sensação de estar sempre “ligada”, dificuldade para relaxar e até sintomas físicos podem fazer parte desse quadro.
Por isso eu fico um pouco incomodada quando alguém fala “nossa, como tu é ansiosa” como se estivesse dizendo “nossa, como tu gosta de chocolate”.
Não é necessariamente uma característica engraçadinha da personalidade.
Às vezes é uma pessoa sofrendo.
“Mas eu sempre fui assim”
Esse foi um dos meus grandes enganos.
Eu sempre fui exigente comigo. Sempre quis dar conta das coisas. Sempre tive uma cabeça cheia de ideias e preocupações. E justamente por isso demorei a questionar se havia alguma coisa além da minha personalidade acontecendo ali.
Só que uma pessoa pode ser responsável sem viver angustiada.
Pode ser perfeccionista sem sentir que tudo precisa ser resolvido imediatamente.
Pode gostar de planejamento sem precisar controlar absolutamente todas as possibilidades.
Pode pensar no futuro sem morar nele.
Pode ser intensa sem estar permanentemente em estado de alerta.
A pergunta que talvez seja mais importante não é “eu sou uma pessoa ansiosa?”. A pergunta é: o quanto essa ansiedade está interferindo na minha vida?
Se ela está prejudicando seu sono, seus relacionamentos, seu trabalho, sua capacidade de descansar, sua concentração ou sua qualidade de vida, talvez seja hora de conversar com um profissional.
E isso não significa que você necessariamente tenha TAG. Só significa que seu sofrimento merece ser investigado.
Quem pode fazer essa avaliação é um profissional de saúde, como médico, psiquiatra ou psicólogo, dependendo da situação. O diagnóstico não é feito porque alguém se identificou com uma lista na internet. É preciso olhar para a história da pessoa, a duração dos sintomas, a intensidade, o impacto na vida e também descartar outras possíveis causas.
Eu também demorei para procurar ajuda
Talvez você esteja lendo isso pensando: “Tá, mas eu consigo levar minha vida.”
Eu também conseguia.
E esse é outro motivo pelo qual muita gente não procura ajuda.
A pessoa trabalha. Paga as contas. Cuida dos filhos. Estuda. Faz compras. Resolve problemas. Ri com os amigos. Publica fotos bonitas nas redes sociais. Vai a festas. Entrega o que precisa entregar.
Por fora, parece estar tudo funcionando.
Só que ninguém vê o custo interno.
Durante muito tempo, eu achei que procurar um psiquiatra seria admitir que eu não estava dando conta da minha própria vida. Existe muito preconceito em torno da psiquiatria e dos medicamentos psiquiátricos, e algumas pessoas ainda associam tratamento a fraqueza, falta de controle ou até “loucura”.
Eu penso exatamente o contrário.
Para mim, buscar tratamento foi uma forma de parar de exigir que eu resolvesse sozinha uma coisa que precisava de cuidado.
A OMS aponta justamente o estigma e a falta de reconhecimento dos transtornos de ansiedade como condições tratáveis entre as barreiras que fazem com que muitas pessoas não recebam ajuda.
E existe uma ironia nisso tudo: ninguém teria vergonha de procurar um cardiologista se estivesse com um problema no coração, mas ainda existe gente que sente vergonha de procurar ajuda quando o sofrimento está acontecendo no cérebro.
O cérebro também é parte do corpo.
O que aconteceu comigo nos últimos dias
Recentemente, eu tive uma experiência que me fez lembrar exatamente por que o acompanhamento médico é importante.
Eu estava utilizando uma medicação prescrita pela minha psiquiatra, mas percebi que, naquele período, eu estava muito mais ansiosa do que costumava ficar durante o tratamento. Minha cabeça estava acelerada, eu estava mais irritada, preocupada e com aquela sensação de que precisava resolver tudo imediatamente.
Eu conhecia a minha própria linha de base porque já estava em tratamento havia cerca de dois anos. Então percebi que havia alguma coisa diferente.
Eu cheguei à consulta e praticamente falei sem respirar.
Fui contando uma coisa atrás da outra, emendando um assunto no outro, tentando explicar tudo que estava acontecendo. Eu mesma percebi o quanto estava acelerada. Conversei com a médica sobre o medicamento que estava utilizando e sobre o fato de já ter tido uma boa resposta anteriormente a uma apresentação de outro fabricante. Ela avaliou a situação e decidiu fazer a mudança que considerou adequada para o meu caso, além de renovar minhas prescrições e conversarmos sobre o restante do tratamento.
E existe uma coisa importante que eu quero deixar muito clara aqui: isso é um relato da minha experiência, não uma recomendação para ninguém trocar medicamento ou fabricante por conta própria.
Medicamentos psiquiátricos precisam ser prescritos, ajustados e acompanhados por profissionais. Nem toda mudança de ansiedade significa que um remédio “parou de funcionar”, e nem toda diferença percebida entre apresentações significa que exista um problema com determinado fabricante. Existem várias possibilidades que precisam ser avaliadas individualmente.
No meu caso, depois da consulta e da conduta definida pela minha médica, eu me senti novamente mais tranquila.
E isso me fez lembrar de uma coisa que eu considero preciosa: quando meu tratamento está funcionando, eu não deixo de ser eu. Eu consigo ser eu sem precisar sofrer tanto.
Tratamento não apaga quem você é
Essa talvez seja uma das coisas que eu mais gostaria que alguém tivesse me contado antes.
Eu não fiquei menos criativa depois que comecei a tratar minha ansiedade.
Não fiquei menos inteligente.
Não fiquei menos sonhadora.
Não parei de fazer planos.
Não virei uma pessoa apática.
Eu simplesmente deixei de passar tanto tempo tentando sobreviver a futuros imaginários.
Tratamento não deveria ser sobre transformar você em outra pessoa. O objetivo é reduzir o sofrimento e recuperar a capacidade de viver, trabalhar, se relacionar, descansar e tomar decisões com mais liberdade.
O tratamento para transtornos de ansiedade pode envolver psicoterapia, medicamentos ou uma combinação dos dois, dependendo da pessoa e da avaliação clínica. A terapia cognitivo-comportamental, por exemplo, é uma das abordagens com mais evidências para o tratamento do transtorno de ansiedade generalizado. Medicamentos antidepressivos de determinadas classes também são utilizados no tratamento de transtornos de ansiedade, e a escolha depende da situação clínica de cada paciente.
E existe outra coisa importante: tratamento não é instantâneo e nem necessariamente linear.
Pode levar tempo para encontrar a abordagem adequada. Pode haver ajustes. Pode haver períodos melhores e períodos piores. Pode acontecer de uma estratégia que funcionava antes precisar ser revista depois de algum tempo.
Isso não significa que o tratamento fracassou.
Significa que saúde mental, assim como qualquer outra área da saúde, precisa de acompanhamento.
E a comida entra onde nessa história?
No meu caso, existe ainda uma parte da ansiedade que eu reconheço no meu relacionamento com a comida.
Eu percebo que muitas vezes uso a comida como uma forma de aliviar emoções. E isso não significa que todo o meu peso possa ser explicado pela ansiedade, porque o corpo humano é muito mais complexo do que uma única causa. Peso corporal, alimentação, sono, medicamentos, genética, metabolismo, ambiente, rotina, comportamento e diversos outros fatores podem participar dessa história.
Mas eu reconheço em mim um padrão de buscar comida quando estou angustiada, frustrada, cansada ou emocionalmente sobrecarregada.
E acho importante falar sobre isso porque existe uma tendência enorme de transformar comportamento alimentar em julgamento moral.
“É só fechar a boca.”
“É só ter força de vontade.”
“É só parar de comer.”
Só que, quando existe sofrimento emocional envolvido, talvez a pergunta mais útil não seja apenas “por que essa pessoa está comendo?”, mas também “o que ela está tentando aliviar?”.
Isso não significa que ansiedade seja desculpa para tudo.
Significa que entender o mecanismo pode ser parte da solução.
E é justamente por isso que cuidar da saúde mental pode fazer parte de cuidar também de outras áreas da nossa vida.
Não precisa esperar chegar ao limite
Eu queria muito ter procurado ajuda antes.
Não porque eu ache que todo mundo que sente ansiedade precise tomar remédio. Não é isso.
Aliás, tratamento não significa automaticamente medicação. Psicoterapia pode ser uma parte fundamental do cuidado, e hábitos como atividade física, sono adequado, redução de cafeína e técnicas de manejo do estresse também podem ajudar como parte de um plano de tratamento. Mas essas medidas não devem ser usadas para minimizar um quadro que está causando sofrimento significativo.
O que eu gostaria de ter entendido antes é que eu não precisava esperar minha ansiedade ficar insuportável para pedir ajuda.
A gente não precisa quebrar uma perna para procurar um médico.
Não precisa desmaiar de exaustão para admitir que alguma coisa está errada.
Não precisa ter uma crise gigantesca para começar a cuidar da saúde mental.
Se você percebe que vive constantemente preocupada, que não consegue controlar os pensamentos, que está sempre esperando alguma coisa ruim acontecer, que não consegue relaxar, que sua ansiedade está interferindo no sono, no trabalho, nos relacionamentos ou na sua capacidade de aproveitar a vida, converse com um profissional.
Não para receber um diagnóstico que confirme aquilo que você viu em um vídeo de trinta segundos.
Para entender o que está acontecendo com você.
Ansiedade não é vergonha
Talvez seja essa a mensagem que eu mais queria deixar.
Você não é fraca porque precisa de tratamento.
Você não é menos capaz porque faz terapia.
Você não é menos inteligente porque toma medicação.
Você não é “louca” porque procurou um psiquiatra.
E você não precisa provar para ninguém que consegue sofrer em silêncio.
Eu passei anos achando que precisava dar conta de tudo porque era justamente assim que eu demonstrava que era forte. Hoje penso um pouco diferente.
Talvez força também seja reconhecer quando alguma coisa está pesada demais.
Talvez maturidade seja perceber que nem todo problema precisa ser resolvido sozinho.
Talvez coragem seja marcar uma consulta.
E talvez cuidar da nossa cabeça seja uma das formas mais concretas de cuidar das pessoas que amamos, porque quando conseguimos diminuir o nosso próprio sofrimento, também conseguimos estar mais presentes para elas.
A ansiedade pode fazer a gente acreditar que precisa controlar o futuro para ficar segura.
O tratamento pode nos ensinar outra coisa: eu não preciso controlar tudo o que pode acontecer para conseguir viver o que está acontecendo agora.
Eu ainda sou uma pessoa que pensa muito.
Ainda faço planos.
Ainda tenho medo.
Ainda me preocupo.
Ainda tenho dias em que minha cabeça parece uma central de atendimento funcionando com todas as linhas ocupadas.
Mas hoje eu reconheço melhor os sinais.
E, principalmente, eu sei que não preciso enfrentar isso sozinha.
Se você se identificou com alguma coisa deste texto, não use o artigo para se diagnosticar. Use-o, talvez, como um empurrãozinho para conversar com alguém qualificado.
Porque ansiedade não é frescura.
Não é falta de gratidão.
Não é simplesmente “ser nervosa”.
E não precisa ser uma sentença para o resto da sua vida.
É uma condição de saúde que pode ser tratada. E pedir ajuda também é uma forma de coragem.
Escrito por: Cinthia Lacerda
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Porque viver do nosso jeito, também é uma forma de coragem.
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