Cabelo maluco na maternidade: quando a gente faz o possível para os filhos participarem
oje foi o primeiro dia do cabelo maluco das minhas filhas na escola. Acordei às 5h30, com pouco tempo e ainda menos disposição, mas fiz o que consegui para que Duda e Lulu também participassem da brincadeira junto com os coleguinhas. E talvez seja justamente isso que a maternidade ensina: nem sempre conseguimos fazer o perfeito, mas podemos fazer o possível. Entre coques tortos, fios espetados e muita correria, ficou uma reflexão sobre presença, pertencimento e aquelas pequenas coisas que parecem bobas, mas acabam virando memórias de infância. Porque, no fim, talvez nossos filhos não precisem de uma mãe que consiga fazer tudo. Eles precisam de uma mãe que esteja ali, tentando. ❤️
MATERNIDADE
Cinthia Lacerda
10/6/20266 min ler


Eu não tinha tempo, mas fiz o cabelo maluco mesmo assim
Tem algumas coisas na maternidade que a gente nunca imagina que um dia vão fazer parte da nossa rotina. Trocar fralda no escuro, aprender a interpretar diferentes tipos de choro, sair de casa com uma bolsa que parece preparada para uma expedição ao Everest, descobrir que uma criança consegue sujar uma roupa limpa em aproximadamente 14 segundos… e, aparentemente, acordar às 5h30 da manhã para fazer cabelo maluco.
Hoje foi o primeiro dia das minhas filhas na famosa brincadeira do cabelo maluco.
E eu confesso: quando vi que teria essa atividade, minha primeira reação não foi “ai, que divertido, vou preparar um penteado maravilhoso!”. Foi mais próxima de: “Meu Deus. Que horas eu vou fazer isso?”
Porque existe uma pequena diferença entre a mãe imaginária que a gente é na nossa cabeça e a mãe real que existe às 5h30 da manhã.
Na minha cabeça, talvez eu fosse acordar tranquilamente, tomar meu café, separar os materiais, colocar uma musiquinha gostosa, fazer dois penteados dignos de Pinterest, tirar algumas fotos lindas e mandar as meninas para a escola parecendo duas pequenas modelos de uma campanha de produtos infantis.
Na vida real?
5h30 da manhã.
Eu.
Com sono.
Duas crianças.
Pouco tempo.
E dois cabelos para resolver.
KKKKKKKK.
Mas fiz.
Não fiz o cabelo mais elaborado do mundo. Não criei uma obra de engenharia capilar. Não precisei de 37 grampos, três latas de spray, cola quente e uma equipe de produção.
Eu fiz o que eu conseguia fazer naquele momento.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das coisas mais bonitas da maternidade.
Porque, durante muito tempo, eu acho que a gente acaba acreditando que precisa fazer tudo direito para estar fazendo tudo certo.
A festa precisa ser bonita.
A fantasia precisa ser perfeita.
O bolo precisa ser especial.
A lembrancinha precisa ser criativa.
A foto precisa ficar linda.
A mãe precisa estar arrumada.
As crianças precisam estar impecáveis.
E, quando aparece uma atividade como o “cabelo maluco”, parece que imediatamente surge uma competição invisível dentro da nossa cabeça.
Aí tu abre a internet e encontra uma criança com um castelo inteiro construído no cabelo.
Outra está com um aquário.
Outra tem unicórnios.
Outra tem um arco-íris de três andares.
E tu olha para aquilo às 5h30 da manhã pensando:
“Tá. Então hoje minhas filhas vão de coque.”
KKKKKKKK.
Mas aí eu olho para as fotos da Duda e da Lulu e penso que, no final das contas, talvez não fosse sobre o penteado.
Era sobre elas também participarem.
Era sobre chegarem na escola e encontrarem os coleguinhas com cabelos diferentes.
Era sobre fazer parte daquela brincadeira.
Era sobre elas olharem para as outras crianças e perceberem: “Eu também estou nessa.”
E isso, para mim, vale muito mais do que qualquer penteado perfeito.
A Duda foi com um cabelo que eu sinceramente nem sei explicar direito. Tem uns negocinhos para cima, umas pontas para os lados, um negócio que parece estar desafiando as leis da física… mas ela estava ali, toda pequena, com aquela carinha de quem provavelmente estava pensando em absolutamente nada enquanto a mãe lutava contra o relógio.
E a Lulu ganhou uma produção um pouco mais elaborada, porque aparentemente enquanto eu estava fazendo o cabelo dela meu cérebro resolveu colaborar por alguns minutos.
Ela ficou com aqueles coquinhos que parecem duas anteninhas.
E eu achei a coisa mais fofa do mundo.
Não porque seja perfeito.
Mas porque é delas.
E daqui a alguns anos, talvez eu nem lembre exatamente como era aquele penteado.
Talvez elas também não lembrem.
Mas eu provavelmente vou olhar para essas fotos e lembrar de uma mãe cansada, acordando cedo, tentando fazer alguma coisa bonitinha para as filhas antes de começar mais um dia.
E talvez isso seja uma das maiores diferenças entre a maternidade que a gente imagina e a maternidade que realmente vive.
A maternidade real é feita de pequenas coisas.
Muito pequenas mesmo.
Às vezes é cortar uma fruta do jeito que a criança gosta.
É lembrar qual copo ela prefere.
É colocar a música que ela pediu pela décima vez.
É guardar aquele desenho torto.
É procurar um brinquedo que desapareceu misteriosamente.
É ajeitar a coberta durante a madrugada.
É limpar uma boca suja.
É pentear dois cabelos enquanto olha para o relógio.
É acordar cansada e mesmo assim pensar: “Tá, vamos fazer.”
E eu acho que existe uma romantização enorme da maternidade, mas existe também uma desvalorização dessas pequenas coisas.
Porque elas parecem pequenas para quem olha de fora.
Mas quem é mãe sabe.
A gente passa o dia inteiro fazendo pequenas coisas que, somadas, constroem a infância dos nossos filhos.
E eu não quero que minhas filhas tenham uma infância perfeita.
Até porque isso nem existe.
Quero que elas tenham uma infância cheia de experiências.
Quero que elas possam chegar em casa contando que tiveram “o dia do cabelo maluco”.
Quero que participem das brincadeiras da escola.
Quero que tenham fotos ridículas.
Quero que tenham penteados engraçados.
Quero que tenham fantasias que daqui a dez anos provavelmente vão nos fazer rir.
Quero que possam dizer: “Minha mãe fazia essas coisas comigo.”
Mesmo quando ela estava cansada.
Mesmo quando acordava cedo.
Mesmo quando não tinha tempo.
Mesmo quando não ficava perfeito.
Porque, talvez, seja isso que fique.
Não a perfeição.
A presença.
E olha que curioso: eu acho que essa é uma das coisas que a maternidade mais tem me ensinado.
A gente passa tanto tempo pensando no que precisa entregar para os filhos que às vezes esquece que eles também estão simplesmente vivendo a infância.
A Duda não estava analisando se o cabelo dela estava digno de um prêmio internacional de penteado infantil.
A Lulu também não estava pensando se o coque estava simétrico.
Elas provavelmente só estavam felizes em participar da brincadeira.
E talvez nós, adultos, pudéssemos aprender um pouquinho com isso.
Porque às vezes a gente deixa de participar das coisas porque acha que não vai conseguir fazer direito.
Não fazemos a festa porque não podemos fazer a festa dos sonhos.
Não começamos o projeto porque não temos todos os recursos.
Não tiramos a foto porque estamos descabeladas.
Não fazemos a viagem porque não conseguimos fazer a viagem perfeita.
Não começamos a academia porque não temos uma hora disponível.
Não escrevemos porque não temos o tempo ideal.
E, enquanto esperamos pelo momento perfeito, a vida vai acontecendo.
A maternidade me ensina isso diariamente.
Faça o possível.
Não o perfeito.
O possível.
Hoje, às 5h30, o possível era aquilo.
E foi.
Duda foi de cabelo maluco.
Lulu foi de cabelo maluco.
As duas participaram.
E eu consegui registrar.
Pronto.
Missão cumprida.
Talvez amanhã eu veja uma foto de outra criança com um penteado que parece ter custado R$ 800 e sido elaborado por uma equipe especializada em efeitos especiais.
E eu vou pensar:
“Bah, podia ter feito melhor.”
Mas depois vou olhar para essas duas pequenas cabeças e lembrar:
Eu fiz.
Com o tempo que eu tinha.
Com a energia que eu tinha.
Com os recursos que eu tinha.
E, principalmente, com o amor que eu tinha.
Que, convenhamos, não era pouco.
Era só o resto de uma mãe que já estava funcionando desde as 5h30 da manhã. 😂
A maternidade não é sobre conseguir fazer tudo.
É sobre aprender o que realmente importa.
E hoje, para mim, importava que elas não ficassem de fora.
Que elas também pudessem brincar.
Que também pudessem chegar na escola e olhar para os coleguinhas pensando: “Olha o meu cabelo!”
E que, quem sabe, um dia elas olhem para essas fotos e percebam uma coisa que talvez só consigam entender quando forem adultas:
A mãe delas nem sempre tinha tempo.
Nem sempre tinha energia.
Nem sempre sabia fazer.
Mas ela tentava.
E talvez o amor esteja justamente aí.
Na tentativa.
No elástico colocado às pressas.
No coque torto.
Naqueles fios espetados para todos os lados.
No café que ficou para depois.
Na mãe com sono dizendo:
“Vem cá, filha. Vamos fazer teu cabelo.”
Porque algumas das melhores lembranças da infância não nascem de grandes acontecimentos.
Às vezes elas nascem às 5h30 da manhã, no meio da correria, com dois coquinhos tortos e uma mãe tentando fazer o seu melhor.
E, sinceramente?
Eu acho que ficou lindo.
Do jeitinho que precisava ficar. ❤️
Escrito por: Cinthia Lacerda


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