Entre hortênsias, montanhas e comida boa: os lugares do Rio Grande do Sul que eu amo visitar

O Rio Grande do Sul tem uma maneira muito própria de fazer a gente se apaixonar por uma paisagem: montanhas, hortênsias, cidades pequenas, casarões antigos, cafés coloniais e aquela comida que parece carregar uma história inteira junto. Neste artigo, conto um pouco do meu carinho por lugares como Nova Petrópolis, Canela, Antônio Prado e Dois Irmãos, além das sensações que encontro nas estradas e nas paisagens da Serra Gaúcha. Mais do que um roteiro turístico, esta é uma viagem afetiva por um pedaço do lugar onde nasci e que continua me encantando. Porque, às vezes, a gente não precisa ir tão longe para sentir que realmente viajou.

VIAGENS E MUNDO

Cinthia Lacerda

9/21/202612 min ler

Entre hortênsias, montanhas e comida boa: os lugares do Rio Grande do Sul que eu amo visitar

Eu sou gaúcha. E talvez isso explique uma coisa que acontece comigo sempre que alguém fala em viajar: eu consigo ficar encantada com lugares completamente diferentes do Rio Grande do Sul, mas existe uma espécie de chamado muito específico quando a estrada começa a subir a serra, o ar fica mais frio e aparecem aquelas paisagens que eu conheço quase como quem reconhece alguém.

Tem lugar que a gente visita.

E tem lugar que parece que a gente reencontra.

Para mim, o Rio Grande do Sul tem muito disso.

Não estou falando apenas dos destinos que aparecem em cartões-postais ou nas propagandas de turismo. Claro que Gramado e Canela são lindíssimas, e seria muita hipocrisia da minha parte fingir que não entendo por que tanta gente se apaixona por elas. Mas o que me encanta na Serra Gaúcha vai muito além das atrações famosas. É a combinação inteira: as montanhas, as árvores, as hortênsias, os casarões, as estradas, os cafés, o cheiro de comida saindo da cozinha, os detalhes da arquitetura, o frio, as pessoas, os sotaques, as histórias de imigração e aquela sensação deliciosa de que, em alguns lugares, o tempo resolveu andar um pouquinho mais devagar.

É por isso que eu gosto tanto de cidades como Nova Petrópolis, Canela, Antônio Prado e Dois Irmãos. Cada uma tem uma personalidade diferente, e talvez seja justamente isso que eu procuro quando viajo: não apenas um lugar bonito para fotografar, mas um lugar que me faça sentir alguma coisa.

E tem uma coisa que talvez seja muito particular de quem nasceu aqui: a gente não precisa necessariamente atravessar um oceano para sentir que está viajando.

Às vezes basta pegar a estrada.

A Serra Gaúcha tem uma coisa que não cabe numa fotografia

A primeira injustiça que fazemos com a Serra Gaúcha é tentar resumir tudo em fotografia.

Uma foto consegue mostrar uma montanha. Não consegue mostrar o cheiro do ar.

Consegue mostrar uma rua florida. Não consegue reproduzir a sensação de caminhar por ela num dia frio.

Consegue registrar uma mesa cheia de comida. Não consegue reproduzir aquele primeiro pedaço de cuca ainda morna acompanhado de café.

E, definitivamente, não consegue mostrar o prazer de estar dentro de um carro, olhando a paisagem mudar pela janela enquanto a estrada vai serpenteando entre morros, árvores e pequenas propriedades.

Talvez por isso eu goste tanto de viajar por essas cidades sem necessariamente ter uma programação militarizada.

Eu quero chegar.

Quero olhar.

Quero parar onde achei bonito.

Quero entrar naquele café que parece simpático.

Quero descobrir uma lojinha.

Quero comer alguma coisa que eu não estava planejando comer.

Quero tirar uma foto de uma casa antiga porque achei a janela bonita.

Quero dizer “bah, olha isso”.

E continuar.

Porque viajar também é isso: permitir que o caminho participe da viagem.

Nova Petrópolis e aquela sensação de estar em outro lugar sem sair do Rio Grande do Sul

Nova Petrópolis é uma dessas cidades que, para mim, têm uma personalidade muito própria.

A cidade preserva fortemente referências da imigração alemã, presentes na arquitetura, na gastronomia, nas danças, nas músicas, nos costumes e em eventos culturais. O próprio turismo oficial do Estado destaca a cidade como uma das joias da Rota Romântica e chama atenção para seus jardins, especialmente a Praça das Flores.

Mas sabe o que eu acho interessante?

É que tudo isso poderia ser contado de maneira extremamente turística e perder justamente a graça.

Porque Nova Petrópolis não é interessante somente porque tem influência alemã.

Ela é interessante porque essa influência aparece no cotidiano.

A arquitetura conversa com a história.

A comida conversa com a história.

As flores conversam com a paisagem.

Os jardins conversam com a identidade da cidade.

E aí você começa a perceber que uma cidade pode contar sua própria história sem precisar colocar um letreiro gigante dizendo “aqui existe história”.

A Praça das Flores, por exemplo, não é apenas um lugar bonito para tirar fotografia. Ela faz parte de uma cidade conhecida pela tradição de cultivar flores e pelo cuidado com seus jardins. A própria Secretaria de Turismo do Estado destaca Nova Petrópolis como “Jardim da Serra Gaúcha”.

E talvez seja justamente por isso que eu goste de caminhar por lugares assim.

Porque existe uma delicadeza na paisagem.

Você olha para um canteiro de flores e pensa que alguém teve trabalho para aquilo estar ali.

Você olha para uma casa enxaimel e pensa em quantas pessoas já passaram por aquela porta.

Você entra em um café e percebe que aquilo não é apenas comida. Existe uma tradição inteira chegando junto.

E aí vem a parte em que eu provavelmente entrego minha identidade gaúcha sem qualquer possibilidade de disfarce:

a comida.

Porque não existe conversa sobre Serra Gaúcha que sobreviva muito tempo sem chegar à mesa.

Nova Petrópolis tem uma tradição gastronômica fortemente ligada à cultura germânica, com pratos como salsichões, chucrute, joelho de porco e torta de maçã, além dos cafés coloniais.

E eu sinceramente acho que o café colonial merece um estudo científico próprio.

Não sei exatamente qual é a equação matemática utilizada para determinar que uma mesa para quatro pessoas precisa conter comida suficiente para alimentar uma pequena cidade, mas aparentemente alguém descobriu a fórmula.

Tu entra pensando:

“Vou só tomar um café.”

Quarenta minutos depois existe pão, cuca, queijo, geleia, bolo, torta, embutido, biscoito, café, suco e mais alguma coisa que apareceu na mesa sem ninguém entender exatamente de onde veio.

E a gente come.

Porque somos pessoas de princípios.

Canela: o lugar onde o frio parece fazer parte da decoração

Canela é outra história.

Talvez porque seja uma das cidades que mais facilmente associamos àquela imagem clássica da Serra Gaúcha: árvores, montanhas, arquitetura acolhedora, frio, parques, chocolate, fondue, cafés e aquela atmosfera que parece ter sido cuidadosamente montada para a gente pensar:

“Pronto. Agora eu quero morar aqui.”

A cidade está inserida na Região das Hortênsias, ao lado de Gramado, Nova Petrópolis, Picada Café e São Francisco de Paula. A região é oficialmente reconhecida pelo turismo estadual como um dos principais destinos turísticos do Rio Grande do Sul.

Mas o que mais me chama atenção em Canela é a relação entre cidade e natureza.

Você pode estar andando por uma área urbana e, de repente, a paisagem começa a abrir espaço para mata, morro, vale e água.

O Parque do Caracol é talvez o exemplo mais conhecido. A paisagem reúne mata, trilhas e a famosa cascata, que se tornou um dos grandes símbolos naturais da região.

E tem algo muito bonito nisso: Canela consegue ser turística sem deixar de ser uma cidade de natureza.

Talvez seja por isso que eu goste tanto de voltar.

Porque há sempre aquela possibilidade de passar parte do dia olhando vitrines, tomando café e comendo alguma coisa maravilhosa e, pouco depois, estar diante de uma paisagem que faz a gente lembrar que o mundo é muito maior do que a nossa lista de tarefas.

E então existem as hortênsias.

Ah, as hortênsias.

Eu tenho uma fraqueza por elas.

Talvez porque elas consigam transformar uma estrada, uma casa, uma praça ou uma encosta em alguma coisa quase cinematográfica.

Aquelas manchas de azul, lilás, rosa e branco espalhadas pela paisagem parecem fazer parte da identidade visual da serra. E quando estão floridas, existe uma sensação muito particular de abundância: como se a natureza tivesse decidido exagerar um pouquinho.

E eu adoro quando a natureza exagera.

Antônio Prado e a beleza que aparece quando a gente desacelera

Se Nova Petrópolis me conquista pelas flores e pela influência alemã, Antônio Prado tem outro tipo de encanto.

É uma cidade que parece guardar a memória da imigração italiana não apenas em seus pontos turísticos, mas na própria arquitetura e no cotidiano.

Antônio Prado possui um dos maiores conjuntos arquitetônicos tombados ligados à imigração italiana no Brasil, com 48 edificações protegidas pelo patrimônio nacional. O turismo estadual destaca ainda a presença do talian, além da gastronomia e de outros costumes herdados dos imigrantes.

E isso é muito interessante porque transforma a caminhada pelo centro em uma espécie de viagem dentro da viagem.

Você não está simplesmente olhando casas antigas.

Está olhando para uma história de pessoas que chegaram, construíram, trabalharam, cozinharam, plantaram, criaram famílias e deixaram marcas que continuam ali.

E eu acho que existe uma diferença enorme entre visitar um lugar histórico e sentir que o lugar tem história.

Antônio Prado me parece muito mais interessante nesse segundo sentido.

Existe uma delicadeza nos casarões.

Nas portas.

Nas janelas.

Nas ruas.

Na paisagem rural.

Nos pequenos negócios familiares.

Nos produtos coloniais.

O roteiro oficial dos Recantos Coloniais, por exemplo, reúne experiências rurais, gastronomia, produção de vinhos e paisagens do interior do município.

E talvez esse seja justamente o tipo de turismo que mais me encanta.

Aquele em que a gente não precisa correr de atração em atração.

Pode parar.

Conversar.

Comer.

Olhar.

Perguntar.

Descobrir.

E sair pensando que conheceu alguma coisa além de um ponto turístico.

Conheceu um jeito de viver.

Dois Irmãos: aquela cidade que parece pedir uma tarde sem pressa

Dois Irmãos talvez seja um dos exemplos mais bonitos de como algumas cidades gaúchas não precisam fazer muito barulho para serem especiais.

Localizada na Encosta da Serra e a pouco mais de 50 quilômetros de Porto Alegre, a cidade preserva características da colonização alemã, possui patrimônio arquitetônico relacionado a essa história e mantém roteiros ligados à paisagem e à gastronomia.

Mas uma das coisas que mais chama atenção é justamente o ritmo.

Dois Irmãos tem uma atmosfera de cidade em que você consegue imaginar uma tarde inteira acontecendo sem precisar de uma programação gigantesca.

E isso, para mim, é luxo.

A gente vive correndo.

Agenda cheia.

Celular vibrando.

Notificação.

Prazo.

Lista.

Compra.

Mensagem.

“Depois eu vejo.”

“Depois eu vou.”

“Depois eu descanso.”

E aí aparece uma cidade que parece dizer:

“Calma. Senta aqui primeiro.”

A tradição do café colonial também é muito forte no município, que é conhecido pelo turismo estadual como um dos lugares ligados à origem dessa tradição no Rio Grande do Sul.

E novamente chegamos à comida.

Porque parece que o Rio Grande do Sul decidiu que não basta oferecer uma paisagem bonita. Precisamos alimentá-la.

Talvez a melhor parte seja a comida

Existe uma coisa que me encanta na gastronomia da Serra Gaúcha: ela não tenta esconder de onde veio.

Ela conta história.

A influência alemã aparece de um jeito.

A italiana aparece de outro.

A cozinha colonial mistura memória, família, agricultura, tradição e adaptação.

E, ao longo do tempo, tudo isso foi ganhando novas formas.

Você pode encontrar um prato extremamente tradicional e, no restaurante ao lado, uma versão contemporânea de alguma coisa que nasceu justamente daquela tradição.

É bonito observar isso.

Porque cultura não é uma peça de museu.

Ela muda.

A receita passa de uma geração para outra.

Alguém substitui um ingrediente.

Outra pessoa inventa uma sobremesa.

Uma família abre um restaurante.

Uma cantina começa a produzir vinho.

Uma receita que antes era comida de casa vira atração turística.

E, quando a gente percebe, aquilo que nasceu de necessidade, costume ou memória virou identidade.

A Serra Gaúcha tem justamente essa característica de misturar comida e território.

A Região Uva e Vinho, por exemplo, é marcada pela presença da imigração italiana, pelas vinícolas, pelos vinhedos, pela gastronomia e pelos roteiros rurais que conectam paisagem e memória.

E eu acho que isso explica por que uma viagem para essa região muitas vezes parece tão completa.

Você não apenas vê.

Você prova.

Você cheira.

Você escuta.

Você toca.

Você conversa.

Você experimenta.

É uma viagem que acontece no corpo inteiro.

O Rio Grande do Sul que não aparece no cartão-postal

Talvez seja aqui que esteja a parte mais importante deste artigo.

Quando eu falo que gosto de Nova Petrópolis, Canela, Antônio Prado, Dois Irmãos e tantos outros lugares da serra, não estou dizendo que são os únicos lugares bonitos do Rio Grande do Sul.

Muito pelo contrário.

Nosso estado é enorme e tem paisagens completamente diferentes.

Tem litoral.

Tem campanha.

Tem fronteira.

Tem pampa.

Tem serra.

Tem cidades históricas.

Tem rios.

Tem lagos.

Tem áreas rurais que parecem pinturas.

Tem lugares que provavelmente eu ainda nem conheço.

E talvez esse seja justamente o charme.

A gente pode continuar descobrindo o próprio estado.

Existe uma ideia meio estranha de que viajar precisa necessariamente significar ir para longe.

Como se uma viagem só fosse realmente válida se envolvesse aeroporto, passaporte, outro idioma ou pelo menos uma quantidade suficientemente grande de horas dentro de um carro.

Eu não compro muito essa ideia.

Uma viagem pode começar a 40 quilômetros de casa.

Pode começar quando você pega uma estrada que nunca pegou.

Pode acontecer quando você entra em uma cidade pequena e decide caminhar sem pressa.

Pode acontecer quando você prova uma comida que nunca tinha experimentado.

Pode acontecer quando uma paisagem faz você parar o carro.

E pode acontecer, principalmente, quando você percebe que não precisava ir tão longe para se sentir longe.

Eu gosto dos lugares que me dão vontade de voltar

Existe uma diferença entre um lugar que impressiona e um lugar que faz a gente querer voltar.

O primeiro pode ser maravilhoso.

O segundo cria vínculo.

Talvez seja por isso que eu tenha tanto carinho por esses lugares do Rio Grande do Sul.

Eles não são apenas bonitos.

Eles têm personalidade.

Nova Petrópolis tem flores, jardins, tradição, arquitetura e aquela mistura deliciosa de cultura e gastronomia.

Canela tem natureza, frio, montanhas, parques e aquela atmosfera de serra que parece abraçar a gente.

Antônio Prado tem memória, imigração, casarões, interior e uma gastronomia que parece continuar contando histórias.

Dois Irmãos tem tranquilidade, paisagem, tradição e aquele convite quase explícito para sentar e tomar um café.

E todos eles têm uma coisa em comum:

eles sabem fazer a gente ficar.

Mesmo que seja só por algumas horas.

Talvez viajar seja um pouco isso.

Não apenas chegar a um lugar, mas permitir que o lugar deixe alguma coisa na gente.

Uma fotografia.

Uma receita.

Uma lembrança.

Uma vontade de voltar.

Uma história engraçada.

Uma comida que você tenta reproduzir em casa e descobre, depois de três tentativas, que definitivamente não ficou igual.

Uma paisagem que volta à cabeça meses depois.

Uma estrada que você lembra pelo cheiro.

Uma cidade que, quando alguém menciona o nome, imediatamente aparece na sua memória acompanhada de uma imagem.

É assim que os lugares entram na nossa vida.

E as hortênsias continuam sendo uma das minhas favoritas

Se eu tivesse que escolher uma imagem para representar o meu Rio Grande do Sul afetivo, provavelmente teria montanhas ao fundo e hortênsias em primeiro plano.

Talvez uma estrada.

Uma casinha antiga.

Uma janela.

Uma mesa com café.

E, se possível, uma comida que eu não precisasse dividir.

Brincadeira.

Ou não.

Mas existe algo nas hortênsias que me parece muito simbólico da própria Serra Gaúcha. Elas não estão ali tentando chamar atenção sozinhas. Elas simplesmente crescem e, quando percebemos, tomaram conta da paisagem.

Azul, rosa, lilás, branco.

Uma explosão delicada.

E talvez seja justamente isso que eu gosto nesses lugares: eles não precisam ser grandiosos o tempo inteiro.

Às vezes basta uma estrada bonita.

Uma árvore.

Uma flor.

Uma montanha.

Uma casa antiga.

Um café.

Uma conversa.

Um prato de comida.

E uma tarde sem pressa.

Viajar também é reconhecer de onde a gente veio

Talvez exista uma razão para eu gostar tanto de viajar pelo Rio Grande do Sul.

Porque conhecer esses lugares também é uma forma de conhecer melhor a minha própria história.

Eu olho para a arquitetura e encontro pedaços da história da imigração.

Olho para a comida e encontro costumes que atravessaram gerações.

Olho para as paisagens e encontro uma geografia que sempre esteve aqui, mesmo quando eu estava ocupada demais para prestar atenção.

E percebo que o lugar onde nascemos vai entrando na gente aos poucos.

No jeito de falar.

No jeito de receber alguém.

Na comida que consideramos “comida de verdade”.

Na maneira de reclamar do frio e, cinco minutos depois, dizer que adora o inverno.

Na necessidade quase espiritual de tomar café.

Na capacidade de transformar qualquer encontro em uma mesa cheia.

E talvez até naquele “bah” que aparece quando alguma coisa realmente impressiona.

Viajar pelo nosso próprio estado pode ser uma maneira de enxergar tudo isso de fora.

Como se, por alguns dias, a gente virasse turista da própria origem.

E eu gosto dessa ideia.

Porque o Rio Grande do Sul não é só um destino

Talvez seja essa a conclusão que eu tenha chegado depois de tantos passeios, estradas, cidades e paisagens.

O Rio Grande do Sul não é apenas um lugar para onde eu viajo.

É um lugar que faz parte da maneira como eu vejo o mundo.

Eu gosto de cidades que têm história.

Gosto de paisagens que parecem respirar.

Gosto de comida que tem memória.

Gosto de lugares pequenos que ainda preservam detalhes.

Gosto de sentar em um café sem saber exatamente quanto tempo vou ficar.

Gosto de estrada.

Gosto de montanha.

Gosto de frio — pelo menos até a conta de luz chegar.

Gosto das hortênsias.

E gosto dessa sensação de voltar para casa depois de um passeio e perceber que, embora eu tenha ido embora por algumas horas ou alguns dias, trouxe alguma coisa comigo.

Uma imagem.

Um sabor.

Uma lembrança.

Talvez seja isso que faça uma viagem valer a pena.

Não quantos quilômetros percorremos.

Não quantos pontos turísticos conseguimos marcar numa lista.

Não quantas fotografias publicamos.

Mas aquilo que permanece quando voltamos.

Porque alguns lugares simplesmente passam pela nossa frente.

Outros entram na nossa memória.

E existem aqueles poucos que, por alguma razão que nem sempre conseguimos explicar, passam a fazer parte da nossa história.

Para mim, alguns cantos do Rio Grande do Sul são assim.

Nova Petrópolis.

Canela.

Antônio Prado.

Dois Irmãos.

E tantos outros que ainda quero descobrir.

São lugares que me lembram que não preciso ir para o outro lado do mundo para sentir que estou viajando.

Às vezes, basta uma estrada.

Uma serra.

Uma hortênsia.

Um café.

Uma mesa cheia.

E aquela sensação boa de pensar:

“Bah... que lugar bonito.”

E querer voltar.

Escrito por: Cinthia Lacerda com colaboração de Augusto (IA)