Eu tentei ficar um dia sem reclamar e descobri uma coisa bem inconveniente

Você já percebeu o quanto a gente reclama sem nem perceber? Eu resolvi fazer um experimento: passar um dia inteiro tentando não reclamar. E o resultado foi… digamos que um pouco inconveniente. 😂 Porque reclamar nem sempre é simplesmente “ser negativo”. Às vezes é desabafo, às vezes é uma forma de mostrar que alguma coisa ultrapassou nosso limite. Mas também descobri que existem reclamações que aparecem no automático — pequenas irritações que talvez nem merecessem ocupar tanto espaço na nossa cabeça. E foi aí que a experiência ficou mais interessante: talvez a questão não seja aprender a nunca reclamar, mas perceber o que realmente precisa ser dito e o que poderia simplesmente ser deixado passar. Será que conseguimos passar um dia observando nossas próprias reclamações antes de colocá-las para fora? Eu tentei. E descobri uma coisa bem inconveniente sobre mim mesma. 😅

ATREVENDO-SE

Cinthia Lacerda

9/12/20269 min ler

Eu tentei ficar um dia sem reclamar e descobri uma coisa bem inconveniente

Eu resolvi fazer uma experiência: passar um dia inteiro sem reclamar.

Não parecia tão difícil quando tive a ideia. Afinal, quanto poderia existir de reclamação em apenas vinte e quatro horas? Eu poderia simplesmente prestar atenção no que falava, respirar fundo quando alguma coisa desse errado e escolher não verbalizar toda pequena irritação que aparecesse.

Parecia simples.

Até eu começar o dia.

Porque aparentemente o ser humano consegue reclamar antes mesmo de estar completamente acordado.

O despertador tocou e eu já pensei alguma coisa sobre o horário.

Levantei e alguma coisa não estava exatamente como eu queria.

Fui fazer alguma coisa e faltava outra.

Peguei o celular e havia uma mensagem que eu não queria responder naquele momento.

Depois veio o trânsito, o trabalho, uma coisa que não funcionou, outra que demorou mais do que deveria, alguém que fez alguma coisa de um jeito diferente daquele que eu faria e, em algum momento, percebi que estava passando boa parte do dia negociando comigo mesma:

“Isso conta como reclamação?”

E foi aí que o experimento começou a ficar interessante.

Porque eu descobri uma coisa bastante inconveniente sobre reclamar:

às vezes, eu nem percebo que estou fazendo isso.

O problema de tentar não reclamar

A primeira dificuldade foi descobrir o que exatamente significava “reclamar”.

Se eu digo “está frio”, estou reclamando?

Se digo “essa fila está demorando”, estou reclamando?

Se digo “estou cansada”, isso é uma reclamação?

Se digo “não gostei disso”, estou sendo negativa?

Se alguém pergunta como foi meu dia e eu respondo honestamente que foi cansativo, estou reclamando ou apenas descrevendo uma realidade?

Parece uma questão semântica, mas não é.

Porque existe uma diferença enorme entre expressar uma experiência e transformar qualquer experiência desagradável em uma oportunidade para alimentar irritação.

Dizer “estou cansada” pode ser apenas reconhecer um estado.

Dizer “estou cansada, ninguém me ajuda, tudo sobra para mim, essa casa nunca fica organizada e minha vida é uma desgraça” já é outra coisa.

O fato inicial pode ser verdadeiro.

Mas, a partir dele, construímos uma narrativa inteira.

E talvez seja justamente aí que a reclamação comece a ganhar força.

Uma coisa acontece.

Nós interpretamos.

Depois acrescentamos outra coisa.

Depois lembramos de uma situação parecida que aconteceu há três meses.

Depois puxamos outra.

Quando percebemos, começamos reclamando da louça e terminamos questionando todas as decisões que tomamos desde 2014.

O cérebro é criativo.

Principalmente quando recebe uma oportunidade para ficar indignado.

Reclamar pode ser quase automático

Durante o experimento, comecei a perceber pequenas reclamações que normalmente passariam completamente despercebidas.

O café não estava na temperatura que eu queria.

A internet demorou.

Uma tarefa levou mais tempo.

Uma pessoa respondeu de um jeito que considerei desnecessariamente complicado.

O barulho estava incomodando.

O objeto não estava onde eu lembrava de ter deixado.

Alguém esqueceu alguma coisa.

Alguma coisa caiu.

Alguma coisa sujou.

Alguma coisa atrasou.

E aqui apareceu uma constatação meio humilhante:

a vida não tinha ficado mais cheia de problemas naquele dia. Eu apenas estava prestando atenção neles de uma maneira diferente.

Normalmente, essas pequenas irritações entram e saem.

Você reclama.

Pronto.

Seguiu a vida.

Mas quando decidi observar o próprio ato de reclamar, comecei a perceber quantas vezes eu usava a reclamação como uma espécie de comentário automático sobre o mundo.

Era quase uma narradora interna:

“Olha isso.”

“Que coisa chata.”

“Por que isso está demorando?”

“Não acredito.”

“De novo?”

“Justo agora?”

É impressionante a quantidade de vezes que o cérebro parece sentir necessidade de fazer uma resenha negativa da realidade.

E nem sempre existe alguma utilidade nisso.

Mas reclamar é sempre ruim?

Aqui o experimento começou a ficar mais complicado.

Porque existe uma versão bastante popular dessa ideia de que devemos “parar de reclamar”.

Pense positivo.

Agradeça.

Não foque no problema.

Mude seus pensamentos.

Veja o lado bom.

Tudo isso pode ter seu valor.

Mas existe um risco quando levamos essa lógica longe demais: transformar qualquer desconforto em uma falha de pensamento.

Se estou cansada, preciso agradecer.

Se estou irritada, preciso pensar positivo.

Se alguma coisa está errada, preciso olhar para o lado bom.

Se alguém ultrapassou um limite, talvez eu devesse simplesmente não dar importância.

E não.

Às vezes, alguma coisa está simplesmente errada.

Às vezes, estamos cansados porque estamos fazendo coisa demais.

Às vezes, uma pessoa realmente ultrapassou um limite.

Às vezes, o trabalho está sobrecarregando.

Às vezes, o relacionamento precisa de uma conversa.

Às vezes, o dinheiro não fecha.

Às vezes, a casa está um caos porque ninguém está dando conta.

Às vezes, reclamar é o primeiro sinal de que alguma coisa precisa ser observada.

Se eu proibisse completamente a reclamação, poderia acabar proibindo também uma forma de perceber meus próprios limites.

E foi aí que o experimento ficou realmente inconveniente.

Porque eu percebi que nem toda reclamação é inútil.

Algumas são informação.

A diferença entre reclamar e comunicar

Imagine que alguém diga:

“Essa situação está me incomodando.”

Isso pode abrir uma conversa.

Agora imagine:

“Essa situação está me incomodando porque você sempre faz isso, nunca pensa em ninguém, tudo nessa casa sobra para mim e eu não aguento mais.”

Talvez exista uma questão real por trás das duas frases.

Mas a segunda já carrega um pacote inteiro de acusações.

A primeira comunica.

A segunda descarrega.

E talvez uma das coisas mais importantes que descobri nesse dia tenha sido essa diferença.

Às vezes não precisamos parar de reclamar.

Precisamos aprender a transformar reclamação em comunicação.

Em vez de apenas dizer que alguma coisa está ruim, perguntar:

“O que exatamente está me incomodando?”

“Isso é algo que posso mudar?”

“Preciso pedir alguma coisa?”

“Preciso estabelecer um limite?”

“Estou irritada com o problema atual ou estou acumulando outras coisas?”

“Existe alguma ação possível aqui?”

Essas perguntas mudam completamente a conversa.

Porque uma reclamação pode terminar em um suspiro.

Uma comunicação pode terminar em uma decisão.

E existe uma coisa ainda mais perigosa: reclamar por hábito

Talvez essa tenha sido a descoberta mais desconfortável do experimento.

Algumas reclamações não queriam resolver absolutamente nada.

Elas só queriam existir.

Eu não precisava mudar nada.

Não precisava tomar nenhuma decisão.

Não precisava conversar com ninguém.

Eu simplesmente queria registrar minha insatisfação.

Como se meu cérebro tivesse colocado um pequeno megafone na minha cabeça e decidido:

“Todos precisam saber que eu não gostei disso.”

Mas quem precisava saber?

Às vezes, ninguém.

E isso é muito diferente de uma reclamação que aponta para um problema real.

Se o café está frio e eu preciso que ele esteja quente, posso aquecer.

Se estou cansada e preciso descansar, posso tentar reorganizar alguma coisa.

Se alguém me desrespeitou, posso conversar.

Se estou sobrecarregada, posso pedir ajuda.

Mas se o café está frio, eu aqueço e continuo reclamando do café frio durante vinte minutos, então já não estou resolvendo o problema.

Estou apenas mantendo a irritação viva.

E isso é uma diferença enorme.

Reclamar também pode criar intimidade

Só que ainda tem outra coisa.

Nós reclamamos juntos.

Isso é muito humano.

Às vezes, duas pessoas se aproximam justamente porque descobrem que odeiam a mesma coisa.

“Você também acha esse trânsito horrível?”

“Você também acha essa burocracia absurda?”

“Você também odeia quando fazem isso?”

Pronto.

Temos uma amizade.

Talvez seja exagero, mas não muito.

Reclamar pode ser uma forma de conexão social.

Existe uma espécie de prazer em descobrir que outra pessoa teve a mesma experiência irritante que você.

É quase um:

“Obrigada. Eu não estou louca. Você também percebeu.”

Então talvez eliminar completamente a reclamação também pudesse eliminar uma parte das conversas espontâneas que fazem parte da vida.

O problema não está necessariamente em dizer:

“Bah, que trânsito.”

O problema começa quando o trânsito vira assunto suficiente para ocupar o resto do dia.

O perigo da reclamação em grupo

Ao mesmo tempo, existe um lado menos simpático dessa história.

Reclamações podem se multiplicar.

Uma pessoa reclama.

Outra concorda.

Uma terceira lembra de outra coisa.

A quarta traz um problema ainda maior.

Quando percebemos, começamos falando do preço do supermercado e terminamos discutindo a decadência da humanidade.

É quase uma modalidade esportiva.

E existe uma razão para isso acontecer.

Quando conversamos sobre algo negativo, outras pessoas frequentemente acrescentam experiências semelhantes. Isso reforça a percepção de que o problema é grande, frequente e inevitável.

Talvez seja.

Mas talvez também estejamos olhando para ele através de uma lente cada vez mais escura.

A reclamação compartilhada pode aliviar.

Mas também pode alimentar.

E existe uma diferença entre desabafar e ficar circulando eternamente dentro do mesmo problema.

Então eu deveria virar uma pessoa que nunca reclama?

Não.

Depois desse experimento, eu definitivamente não cheguei a essa conclusão.

Na verdade, cheguei quase ao contrário.

Eu acho que seria bastante artificial tentar viver sem reclamar absolutamente nada.

Somos humanos.

Temos dias ruins.

Temos dores.

Temos frustrações.

Temos imprevistos.

Temos contas.

Temos pessoas difíceis.

Temos trânsito.

Temos sono.

Temos momentos em que simplesmente queremos dizer:

“Hoje foi uma porcaria.”

E tudo bem.

O que comecei a questionar foi outra coisa:

quantas das minhas reclamações realmente precisam existir?

Essa pergunta é bem mais útil.

Porque talvez o objetivo não seja eliminar a reclamação.

Talvez seja reduzir o desperdício emocional.

O que aquela reclamação está tentando me dizer?

Depois daquele dia, comecei a olhar para as reclamações de outra maneira.

Quando alguma coisa me irrita, tento separar três possibilidades.

A primeira é: isso é apenas uma inconveniência momentânea.

O ônibus atrasou.

A internet caiu.

O café esfriou.

A fila está grande.

A chuva apareceu justamente quando eu não queria.

São coisas chatas.

Mas, em algum momento, elas acabam.

Talvez não mereçam meia hora da minha energia.

A segunda possibilidade é: isso é um problema que posso resolver.

Estou sobrecarregada.

Preciso pedir ajuda.

Alguma rotina não está funcionando.

Uma conversa precisa acontecer.

Uma tarefa precisa ser reorganizada.

Nesse caso, reclamar sem agir provavelmente não vai ajudar muito.

A terceira é mais delicada:

isso é uma situação que não posso resolver imediatamente, mas preciso reconhecer que está me fazendo mal.

E aqui a reclamação pode ser um sinal.

Não para permanecer nela.

Mas para escutá-la.

Talvez a gente precise reclamar melhor

Essa frase ficou comigo depois do experimento.

Talvez a solução não seja reclamar menos.

Talvez seja reclamar melhor.

Reclamar menos no automático.

Reclamar sem transformar uma situação isolada em diagnóstico sobre a própria vida.

Reclamar sem usar “sempre” e “nunca” para transformar um problema específico em condenação universal.

Reclamar e depois perguntar o que pode ser feito.

Reclamar sem fazer do outro o responsável por carregar toda a nossa irritação.

Reclamar sem transformar a própria identidade em “a pessoa que está sempre cansada, sempre sobrecarregada, sempre injustiçada”.

Porque existe uma diferença enorme entre:

“Estou tendo um dia difícil.”

e

“Minha vida é difícil.”

A primeira frase descreve um momento.

A segunda transforma o momento em identidade.

E talvez devêssemos ter um pouco mais de cuidado com as histórias que repetimos sobre nós mesmos.

O inconveniente foi descobrir que eu não precisava reclamar de tudo

E então chegamos àquela descoberta que prometi no título.

Eu tentei ficar um dia sem reclamar e descobri uma coisa bem inconveniente:

algumas coisas que me irritavam não precisavam de nenhuma reação.

Eu simplesmente estava acostumada a reagir.

O mundo fazia alguma coisa diferente do que eu queria e eu imediatamente oferecia minha indignação.

Como se reclamar fosse uma obrigação social.

Como se cada pequeno inconveniente precisasse receber uma opinião.

Como se a realidade tivesse que passar pela minha aprovação antes de continuar acontecendo.

E, obviamente, não tem.

O trânsito não sabe que eu estou atrasada.

A fila não sabe que eu tenho pressa.

A chuva não sabe que eu lavei o cabelo.

A internet não está pessoalmente tentando me irritar.

O café frio não é uma conspiração.

Às vezes, uma coisa chata é apenas uma coisa chata.

E eu não preciso transformar toda coisa chata em um evento emocional.

Foi libertador perceber isso.

Mas também foi irritante.

Porque agora eu não posso mais fingir que não percebi.

No fim, eu não quero um dia sem reclamações

Se eu repetisse o experimento, provavelmente faria uma pequena alteração.

Em vez de tentar passar um dia sem reclamar, tentaria passar um dia prestando atenção no motivo pelo qual estou reclamando.

Porque talvez essa seja a experiência mais interessante.

Quando eu reclamo, estou tentando resolver alguma coisa?

Estou tentando ser ouvida?

Estou cansada?

Estou frustrada?

Estou precisando de ajuda?

Estou apenas repetindo um hábito?

Estou procurando companhia para a minha irritação?

Ou estou tentando controlar uma realidade que simplesmente não vai obedecer?

Talvez essas perguntas sejam mais importantes do que o silêncio.

Porque existe uma diferença entre engolir tudo e aprender a escolher o que merece nossa energia.

E eu não quero virar uma pessoa que nunca reclama.

Quero ser uma pessoa que percebe quando está reclamando por necessidade e quando está reclamando apenas porque virou costume.

Quero poder dizer “isso está me incomodando” quando realmente estiver.

Quero poder mudar aquilo que estiver ao meu alcance.

Quero poder aceitar aquilo que não estiver.

E quero, principalmente, conseguir olhar para um pequeno desastre cotidiano e pensar:

“Tá. Isso foi uma porcaria.”

Respirar.

Resolver se for possível.

E seguir.

Porque talvez a maturidade não esteja em nunca mais reclamar.

Talvez esteja em não entregar para cada pequena irritação o direito de ocupar um espaço enorme dentro da nossa cabeça.

E essa, sinceramente, foi a parte mais inconveniente de todas.

Agora eu percebo quando estou reclamando.

E, às vezes, descubro que a coisa que mais está me incomodando…

sou eu mesma reclamando dela.

Escrito por: Cinthia Lacerda com colaboração de Augusto (IA)