Maternidade sem filtro: por que é tão difícil admitir que nem todos os dias são lindos? Ainda mais com gêmeos...
Nem todo dia da maternidade é lindo — e admitir isso não significa amar menos os nossos filhos. Entre o cansaço, a culpa, o caos e os momentos de puro amor, ser mãe de gêmeos pode tornar tudo ainda mais intenso. Um olhar sincero sobre a maternidade real, aquela que quase nunca aparece nas fotos perfeitas.
MATERNIDADE
Cinthia Lacerda
9/8/202611 min ler


Maternidade sem filtro: por que é tão difícil admitir que nem todos os dias são lindos? Ainda mais com gêmeos...
Existe uma cena da maternidade que quase todo mundo conhece, mesmo quem nunca teve filhos: a criança dormindo tranquilamente, com o rosto sereno, talvez abraçada a um bichinho de pelúcia, enquanto a mãe olha para ela com os olhos marejados e pensa em como aquele pequeno ser transformou sua vida. É bonito. É real. Aquele amor existe. Só que existe uma parte da maternidade que quase nunca aparece nessa fotografia: cinco minutos antes, aquela mesma mãe talvez estivesse no banheiro tentando respirar enquanto uma criança chorava, a outra chamava, alguém precisava de alguma coisa e ela já não lembrava mais se tinha tomado água naquele dia.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores contradições da maternidade: é possível amar profundamente uma criança e, ao mesmo tempo, não gostar de determinados momentos de ser mãe.
Parece uma frase simples. Mas diga isso em voz alta e veja o que acontece.
“Eu amo meus filhos, mas hoje eu estou exausta.”
“Eu amo ser mãe, mas queria passar algumas horas sem ninguém precisar de mim.”
“Eu amo meus filhos, mas hoje eu não achei nada bonito.”
“Eu estava contando os minutos para eles dormirem.”
“Hoje eu não tive paciência.”
“Hoje eu queria ficar sozinha.”
Por que algumas dessas frases parecem quase uma confissão de crime?
Talvez porque a maternidade tenha sido cercada durante muito tempo por uma espécie de obrigação de encantamento permanente. A mãe deveria ser grata, realizada, paciente, apaixonada, disponível, cuidadosa, forte, organizada e, se possível, sorridente. A criança cresce e a mãe deveria guardar cada fase como um tesouro, porque “passa rápido”. E passa mesmo. Só que o fato de passar rápido não significa que todos os minutos sejam agradáveis enquanto estão acontecendo.
Há uma diferença enorme entre reconhecer que uma fase é passageira e exigir de si mesma que você aproveite cada segundo dela.
O problema de admitir que nem todo dia é lindo
Talvez o mais estranho seja que ninguém espera isso de outras áreas da vida.
Ninguém olha para alguém trabalhando e diz: “Mas você não ama sua profissão? Então por que está cansada?”
Ninguém olha para um casal e conclui que, se existe amor, os dois deveriam estar felizes juntos todos os dias.
Ninguém olha para uma casa e diz que, porque aquele lugar é importante, ela nunca pode estar bagunçada.
Mas, quando falamos de filhos, parece que entramos em outro território. O amor passa a ser utilizado como argumento contra qualquer sentimento difícil.
Você está cansada? Mas olha que bênção.
Está irritada? Mas são só crianças.
Está com saudade de ter um tempo só seu? Você sabia que seria assim.
Está chorando? Aproveita porque passa rápido.
Está com vontade de fugir por algumas horas? Não fala isso que vão achar que você não ama seus filhos.
E talvez seja justamente essa última frase que faça tantas mães engolirem sentimentos perfeitamente humanos.
Porque uma coisa é querer fugir da responsabilidade de ser mãe. Outra, completamente diferente, é querer fugir por algumas horas da sobrecarga de estar sendo necessária o tempo inteiro.
A diferença parece pequena na frase, mas é gigantesca na experiência.
E aí você tem gêmeos...
Agora imagine que você tenha dois filhos da mesma idade, vivendo praticamente as mesmas fases ao mesmo tempo, mas sendo duas pessoas completamente diferentes.
Porque esse é um detalhe que às vezes parece escapar quando alguém olha para uma mãe de gêmeos e diz: “Ah, mas pelo menos eles fazem tudo juntos.”
Fazem?
Talvez.
Mas também choram juntos. Pedem colo juntos. Ficam doentes juntos. Podem acordar juntos. Podem descobrir que os dois querem exatamente o mesmo brinquedo exatamente no mesmo segundo. E, por algum motivo misterioso que provavelmente só o universo e as crianças entendem, às vezes um começa a chorar e o outro decide que aquele é um excelente momento para acompanhar.
É quase uma espécie de dueto.
Só que sem ensaio.
E sem intervalo.
Ser mãe de gêmeos tem uma particularidade interessante: você não está simplesmente cuidando de duas crianças. Muitas vezes, está tentando atender duas necessidades diferentes que acontecem simultaneamente.
Uma quer colo.
A outra quer andar.
Uma está com fome.
A outra acabou de derrubar a comida.
Uma está cansada.
A outra parece ter acabado de descobrir que dormir é uma afronta pessoal.
Uma quer atenção.
A outra percebe que você está dando atenção para a irmã e imediatamente conclui que precisa daquela mesma atenção.
E você está no meio disso tudo tentando fazer uma coisa aparentemente revolucionária:
terminar uma refeição quente.
Não precisa nem pedir uma viagem para a Europa.
Às vezes o sonho da mãe de gêmeos é comer o próprio almoço enquanto ele ainda está quente.
E olha que curioso: isso pode ser engraçado quando contado depois. Na hora, nem sempre é.
Essa é uma das coisas que eu gostaria que a maternidade pudesse admitir com mais tranquilidade: algumas situações são engraçadas na retrospectiva, mas absolutamente irritantes enquanto estão acontecendo.
Amar duas crianças não significa dividir você perfeitamente em duas
Existe ainda uma culpa muito específica na maternidade de gêmeos: a sensação de que precisamos oferecer exatamente a mesma quantidade de atenção para os dois.
Se um recebeu colo, o outro também precisa.
Se um ganhou alguma coisa, o outro também.
Se um está recebendo atenção, precisamos imediatamente compensar o outro.
Como se existisse uma espécie de balança invisível da maternidade e alguém estivesse anotando nossos movimentos.
Mas filhos não são planilhas.
E talvez eu diga isso com uma certa propriedade justamente porque adoro planilhas.
A vida real não fecha no Excel.
Há dias em que uma criança precisa mais da gente. Há momentos em que uma está mais sensível. Há fases em que uma exige mais atenção. E isso não significa que a outra esteja sendo amada menos.
Só significa que pessoas diferentes têm necessidades diferentes.
Talvez uma das maiores armadilhas da maternidade seja tentar produzir uma experiência perfeitamente equilibrada quando a própria vida é completamente desequilibrada.
Você pode amar os dois filhos com a mesma intensidade e, ainda assim, viver momentos muito diferentes com cada um.
Pode se sentir mais cansada por causa de uma determinada fase de um deles.
Pode ter mais facilidade para lidar com determinado comportamento de uma criança do que com o da outra.
Pode até se identificar mais com uma personalidade em determinado momento.
E isso não transforma você em uma mãe injusta.
Transforma você em uma pessoa.
O amor não elimina o cansaço
Talvez a gente precise falar mais sobre isso.
Amor não funciona como uma bateria externa.
Você não pensa “eu amo meus filhos” e automaticamente recupera energia.
Se funcionasse assim, seria maravilhoso.
A criança acordaria às cinco da manhã e você olharia para ela: “Que lindo! Estou descansada novamente!”
Mas não é assim.
Você pode amar profundamente e continuar cansada.
Pode estar emocionada com uma conquista do seu filho e, duas horas depois, estar contando os minutos para ele dormir.
Pode olhar para aquela carinha dormindo e sentir uma ternura enorme e, ao mesmo tempo, pensar: “Meu Deus, amanhã começa tudo de novo.”
Essas coisas não se anulam.
Elas coexistem.
Talvez seja justamente isso que torna a maternidade tão difícil de explicar para quem olha de fora. Ela não cabe em uma emoção só.
Existe amor.
Existe medo.
Existe orgulho.
Existe culpa.
Existe irritação.
Existe ternura.
Existe saudade da vida anterior.
Existe uma saudade estranha de uma versão de você que ainda tinha mais tempo.
Existe felicidade.
Existe solidão.
Existe vontade de colo.
E existe também aquela vontade absolutamente legítima de ninguém encostar em você por dez minutos.
Tudo isso pode morar na mesma pessoa.
No mesmo dia.
Às vezes na mesma hora.
“Mas você quis ser mãe”
Essa talvez seja uma das frases mais cruéis quando utilizada para invalidar o cansaço de alguém.
Sim.
Talvez você tenha querido.
Talvez tenha planejado.
Talvez tenha sonhado.
Talvez tenha esperado muito por aquilo.
E justamente por isso a maternidade pode ser ainda mais complexa.
Porque desejar uma experiência não significa desejar absolutamente todas as condições que vêm com ela.
Você pode querer muito uma coisa e descobrir que ela é muito mais difícil do que imaginava.
Aliás, isso acontece com praticamente tudo na vida.
Queremos comprar uma casa e descobrimos o IPTU.
Queremos empreender e descobrimos os boletos.
Queremos viajar e descobrimos o aeroporto.
Queremos um cachorro e descobrimos que ele não entende a palavra “não” quando decide comer uma meia.
Queremos filhos e descobrimos que o amor não vem acompanhado de um manual de instruções.
A maternidade não precisa ser um sonho perfeito para ser uma experiência profundamente desejada.
Existe também uma culpa por sentir falta de si mesma
Essa talvez seja uma das partes mais silenciosas.
Antes dos filhos, você era uma pessoa inteira.
Tinha gostos, planos, manias, horários, interesses, amigos, momentos de silêncio. Talvez pudesse tomar um banho sem ouvir alguém chamar seu nome. Talvez pudesse sentar para assistir alguma coisa e realmente assistir. Talvez pudesse sair de casa com uma bolsa pequena.
Depois dos filhos, especialmente nos primeiros anos, é muito fácil sentir que você virou uma função.
Mãe.
Mãe que alimenta.
Mãe que dá banho.
Mãe que organiza.
Mãe que lembra.
Mãe que compra.
Mãe que procura.
Mãe que acalma.
Mãe que sabe onde está aquele objeto que ninguém mais sabe onde está.
E, no meio disso, às vezes aparece uma pergunta meio desconfortável:
E eu?
Não é uma pergunta egoísta.
É uma pergunta humana.
Porque cuidar de alguém não deveria significar desaparecer completamente como indivíduo.
Só que existe uma diferença importante entre reconhecer isso e transformar o autocuidado em mais uma obrigação impossível.
Nem toda mãe precisa acordar às cinco da manhã para fazer yoga, beber água com limão, meditar, escrever no diário e ler vinte páginas de um livro antes que as crianças acordem.
Às vezes, autocuidado é tomar banho sozinha.
Às vezes é assistir a uma série ruim sem culpa.
Às vezes é ficar dez minutos no carro antes de entrar em casa.
Às vezes é comer alguma coisa escondida.
E, sinceramente, se ninguém descobriu ainda, existe uma modalidade avançada de autocuidado materno chamada comer alguma coisa sem precisar compartilhar.
A maternidade também tem dias em que você não se reconhece
Existem dias em que você se olha no espelho e pensa:
“Quem é essa mulher?”
Não necessariamente porque você deixou de gostar de si mesma.
Mas porque a maternidade pode mudar tanta coisa ao mesmo tempo que você demora para reconhecer a própria identidade dentro daquela nova vida.
Seu corpo muda.
Sua rotina muda.
Seu sono muda.
Seu relacionamento muda.
Sua relação com o trabalho muda.
Sua relação com o tempo muda.
Até o conceito de liberdade pode mudar.
Antes, “vou sair” significava simplesmente sair.
Depois dos filhos, “vou sair” pode envolver planejamento logístico digno de uma operação militar.
Quem fica com as crianças?
Que horas?
Tem comida?
Tem roupa?
Tem fralda?
Tem remédio?
E se acontecer alguma coisa?
E se eu demorar?
E se...
Às vezes, você não está cansada apenas porque fez muitas coisas.
Está cansada porque está pensando em muitas coisas o tempo inteiro.
E essa carga invisível também pesa.
Mas precisamos tomar cuidado com o outro extremo
Só que existe um contraponto importante.
Falar sobre maternidade real não deveria significar transformar a maternidade em um grande catálogo de sofrimento.
Porque existe uma tendência, principalmente nas redes sociais, de sair de um extremo e cair no outro.
Antes era tudo perfeito.
Agora parece que precisamos provar que tudo é difícil.
E não é assim também.
Existem momentos maravilhosos.
Existem gargalhadas que fazem a gente esquecer o resto do mundo.
Existem abraços que parecem reorganizar alguma coisa dentro da gente.
Existem pequenas frases que ficam guardadas para sempre.
Existe aquela sensação quase inexplicável de olhar para os filhos e pensar: “Como é que duas pessoas tão pequenas conseguiram ocupar um espaço tão grande na minha vida?”
Existe beleza.
Muita.
O problema nunca foi a existência da beleza.
O problema é acreditar que, para que essa beleza seja verdadeira, precisamos fingir que o restante não existe.
Uma coisa não apaga a outra.
A maternidade pode ser maravilhosa e exaustiva.
Pode ser engraçada e desesperadora.
Pode ser cheia de amor e cheia de saudade da antiga rotina.
Pode ser exatamente aquilo que você sonhou e, ainda assim, muito diferente do que imaginou.
Talvez a mãe perfeita seja justamente uma invenção que precisamos abandonar
Porque a mãe perfeita nunca está cansada.
Nunca perde a paciência.
Nunca se arrepende de ter falado mais alto.
Nunca quer ficar sozinha.
Nunca sente culpa.
Nunca compara.
Nunca se irrita.
Nunca precisa de ajuda.
Nunca pensa “eu não sei o que estou fazendo”.
E, curiosamente, essa mãe parece não existir.
A mãe real existe.
Ela erra.
Ela aprende.
Ela pede desculpas.
Ela tenta novamente.
Ela tem dias bons e ruins.
Ela às vezes resolve tudo e, às vezes, termina o dia olhando para a bagunça e pensando que amanhã vê isso.
Ela ama os filhos.
E também ama quando eles dormem.
Uma coisa não diminui a outra.
Talvez até exista uma certa libertação em admitir isso.
Porque quando paramos de exigir que a maternidade seja linda o tempo inteiro, conseguimos perceber a beleza que existe justamente no que é imperfeito.
A criança que derrama alguma coisa.
A risada no meio do caos.
O abraço inesperado.
O desenho torto.
A mãozinha procurando a nossa.
A conversa sem sentido.
O “mamãe” dito pela milésima vez naquele dia — e que, mesmo depois de nos deixar quase loucas, ainda provoca alguma coisa dentro da gente.
Não precisamos romantizar o caos para reconhecer que, às vezes, ele também guarda momentos preciosos.
E talvez seja isso que “maternidade sem filtro” realmente significa
Não significa mostrar apenas o lado difícil.
Também não significa esconder o lado difícil.
Significa permitir que os dois existam.
Significa poder dizer “hoje foi maravilhoso” sem sentir que está vendendo uma imagem perfeita.
E poder dizer “hoje foi horrível” sem acreditar que isso faz de você uma mãe ruim.
Significa entender que filhos não precisam de uma mãe que esteja emocionalmente impecável todos os dias.
Eles precisam de uma mãe humana.
Uma mãe que possa aprender.
Que possa errar.
Que possa reparar.
Que possa amar.
Que possa pedir ajuda.
Que possa dizer “hoje eu estou cansada”.
E, principalmente, que possa continuar sendo uma pessoa além da maternidade.
Porque talvez uma das maiores injustiças que fazemos com as mães seja exigir que elas estejam completamente realizadas pela maternidade para provar que amam seus filhos.
Não deveria ser necessário.
Eu posso amar profundamente duas crianças e ainda sentir falta de dormir até mais tarde.
Posso agradecer pela minha vida e desejar algumas horas de silêncio.
Posso me emocionar vendo meus filhos crescerem e, ao mesmo tempo, sentir saudade de quem eu era antes deles.
Posso olhar para duas crianças correndo pela casa e pensar que são a coisa mais linda do mundo.
E cinco minutos depois pensar:
“Alguém, por favor, me dá um café.”
Talvez a verdadeira maternidade esteja justamente nesse espaço entre essas duas frases.
Entre o amor gigantesco e o cansaço.
Entre a gratidão e a vontade de sumir por algumas horas.
Entre o abraço apertado e a necessidade de silêncio.
Entre o “eu faria tudo por vocês” e o “agora, por favor, deixem a mamãe ir ao banheiro sozinha”.
E talvez, principalmente para quem tem gêmeos, exista uma lição ainda maior: você não precisa dar conta de tudo perfeitamente para que seus filhos se sintam amados.
Eles não vão guardar na memória todos os dias em que a casa estava impecável.
Provavelmente não vão lembrar se você preparou a refeição mais bonita.
Não vão saber quantas vezes você se sentiu culpada por não conseguir fazer tudo.
Mas talvez se lembrem de uma sensação.
A sensação de que havia alguém ali.
Alguém que cuidava.
Alguém que abraçava.
Alguém que tentava.
Alguém que, mesmo cansada, continuava dizendo:
“Vem cá.”
E talvez isso seja muito mais importante do que qualquer fotografia perfeita da maternidade.
Porque filhos não precisam de uma mãe sem filtro.
Eles precisam de uma mãe de verdade.
E mães de verdade têm dias lindos.
Têm dias difíceis.
Têm dias absolutamente caóticos.
Têm dias em que choram.
Têm dias em que riem até doer a barriga.
Têm dias em que querem congelar o tempo.
E têm dias em que contam os minutos para ele passar.
Tudo isso pode ser maternidade.
Tudo isso pode ser amor.
E admitir isso não torna nenhuma mãe menos grata.
Talvez apenas torne a maternidade um pouco mais honesta.
E, no fim das contas, talvez seja justamente essa honestidade que permita que a gente aproveite melhor os dias lindos — porque não precisamos mais fingir que todos os outros também foram.
Escrito por: Cinthia Lacerda com colaboração de Augusto (IA)
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