Meu animal é meu filho? E quem decidiu que não pode ser?

Será que um animal pode ser filho? Para quem já dividiu a vida com um cachorro, gato ou qualquer outro companheiro de quatro patas, talvez essa pergunta nem pareça tão estranha. Neste artigo, a partir da minha relação com a Sashimi, reflito sobre os vínculos que construímos com os animais, o cuidado, a rotina, a memória e aquele amor que não precisa de sangue para ser verdadeiro. Afinal, família é apenas quem compartilha nossa genética — ou também quem compartilha nossa vida, nossa casa e uma parte enorme do nosso coração? Uma conversa sobre amor, pertencimento e o lugar que os animais ocupam em nossas histórias.

VIDA ANIMAL (PETS)

Cinthia Lacerda

10/5/20269 min ler

Meu animal é meu filho? E quem decidiu que não pode ser?

Eu sei que ela era uma gata.

Eu sei disso. Sei que a Sashimi tinha quatro patas, bigodes, pelos, uma cauda que parecia ter vontade própria e uma habilidade impressionante de aparecer exatamente onde não deveria. Sei que ela nunca foi à escola, nunca fez faculdade, nunca assinou um contrato de trabalho e jamais me chamou de “mãe” com palavras que eu pudesse entender.

Mas, ainda assim, quando penso nela, existe uma palavra que aparece dentro de mim com uma naturalidade quase desconcertante: filha.

E talvez algumas pessoas leiam isso e pensem: “Ah, mas não é a mesma coisa.”

Não, biologicamente não é.

Mas será que família é definida apenas pela biologia?

Essa é uma pergunta que tenho feito cada vez mais desde que comecei a escrever sobre a Sashimi. Porque contar a história dela me fez perceber que talvez eu nunca tenha tido dificuldade alguma em saber o que ela significava para mim. Quem teve dificuldade, às vezes, foi o mundo ao redor em aceitar que esse significado pudesse ser tão grande.

Existe uma curiosa necessidade humana de colocar etiquetas nas relações.

É filho.

É irmão.

É marido.

É amigo.

É namorado.

É animal de estimação.

Como se cada palavra tivesse uma gaveta própria e nós precisássemos escolher exatamente onde guardar cada pessoa — ou cada ser — da nossa vida.

Só que a vida real não funciona assim.

A vida real é bagunçada.

Ainda bem.

Porque algumas relações simplesmente ultrapassam a etiqueta que receberam.

“É só um animal”

Essa talvez seja uma das frases mais estranhas que alguém pode ouvir quando está sofrendo pela perda de um animal.

“Era só um cachorro.”

“Era só uma gata.”

“Tu pode pegar outro.”

Eu sei que, na maioria das vezes, quem fala isso não está necessariamente tentando ser cruel. Talvez seja apenas uma dificuldade genuína de compreender uma relação que não viveu.

Mas existe uma coisa importante aí: não é preciso compreender completamente o amor de outra pessoa para respeitá-lo.

Eu posso não entender por que alguém chorou durante três dias porque perdeu uma planta que cultivava há vinte anos. Posso achar exagerado. Posso nunca ter criado aquele vínculo.

Mas aquele vínculo não precisa fazer sentido para mim para ter sido verdadeiro para outra pessoa.

Com os animais acontece a mesma coisa.

Só que existe uma diferença: eles passam anos dentro da nossa casa.

Não são apenas uma companhia ocasional.

Eles acordam conosco.

Dormem conosco.

Nos esperam chegar.

Aprendem nossos horários.

Reconhecem nossos passos.

Percebem quando estamos tristes.

Criam seus próprios jeitos de pedir carinho.

Ficam doentes.

Envelhecem.

Mudam.

E nós mudamos junto.

Quando percebemos, aquela criatura que um dia chegou pequena, assustada ou curiosa já faz parte de uma quantidade absurda de memórias.

E então talvez fique difícil chamar de “apenas um animal” alguém que esteve presente em tantos capítulos da nossa vida.

A Sashimi conheceu várias versões de mim

A Sashimi entrou na minha vida quando eu ainda era muito diferente da mulher que sou hoje.

E talvez essa seja uma das partes mais bonitas de ter dividido tantos anos com ela.

Ela não conheceu apenas uma Cinthia.

Ela conheceu várias.

Conheceu uma mulher mais jovem, cheia de planos, dúvidas, ideias, descobertas e inseguranças. Conheceu meus períodos de estudo, minha faculdade, meus momentos de silêncio, meus hobbies, minhas fases de crochê, minhas mudanças de rotina e todas aquelas pequenas coisas que parecem insignificantes enquanto estamos vivendo, mas que depois se transformam em memória.

Ela estava lá.

Não precisava entender o que estava acontecendo.

Não precisava dar conselhos.

Não precisava sequer saber meu nome.

Ela simplesmente estava.

E talvez exista uma forma muito particular de intimidade nisso.

Algumas pessoas conhecem nossas grandes histórias.

Um animal conhece nossas pequenas histórias.

Ele sabe como você fica quando está cansado.

Sabe onde você costuma sentar.

Sabe em que horário você chega.

Sabe qual barulho significa comida.

Sabe qual lugar da casa você ocupa quando está triste.

Sabe que determinada gaveta faz um barulho diferente.

Sabe como você chama quando está brincando.

Sabe quando você está falando com ele daquele jeito bobo que ninguém mais vê.

E, sinceramente, talvez seja justamente aí que mora uma parte enorme do amor.

Porque amar alguém não é apenas compartilhar acontecimentos extraordinários.

É compartilhar a rotina.

É dividir o cotidiano.

É existir no mesmo espaço tantas vezes que a presença do outro deixa de parecer uma presença e passa a parecer parte da casa.

A Sashimi era parte da minha casa.

E, depois de tantos anos, era também parte de mim.

Talvez maternidade e paternidade não sejam apenas sobre gerar

Quando digo que a Sashimi era minha filha, não estou dizendo que uma gata e uma criança são biologicamente a mesma coisa.

Não são.

Não estou tentando apagar diferenças entre espécies, nem romantizar responsabilidades ou transformar uma relação em outra.

Estou falando de outra coisa.

Estou falando do lugar afetivo.

Porque existe uma diferença enorme entre gerar alguém e cuidar de alguém.

A biologia explica de onde uma pessoa veio.

Ela não explica, sozinha, o tamanho do vínculo que será construído depois.

Pais adotivos sabem disso.

Famílias formadas por afeto sabem disso.

Avós que criam netos sabem disso.

Pessoas que acolhem crianças que não nasceram delas sabem disso.

O amor familiar não cabe perfeitamente dentro da genética.

Então por que seria tão absurdo pensar que um animal também pode ocupar um lugar profundamente familiar?

Talvez porque fomos ensinados a pensar nos animais principalmente pela função.

Animal de estimação.

Companhia.

Guarda.

Criação.

Mas existe uma transformação silenciosa quando aquele animal deixa de ser “um animal que mora comigo” e passa a ser alguém cuja vida importa profundamente para mim.

A partir daí, a relação muda.

Você não cuida apenas porque precisa.

Você cuida porque ama.

E existe uma diferença gigantesca entre essas duas coisas.

O amor aparece nos detalhes

Amor não é apenas aquela cena cinematográfica em que alguém corre em câmera lenta para abraçar outra pessoa.

Na maior parte do tempo, amor é muito menos glamouroso.

É comprar a ração.

É limpar a caixa de areia.

É lembrar do remédio.

É perceber que ele está comendo menos.

É marcar consulta.

É acordar porque ouviu um barulho diferente.

É pesquisar se determinado comportamento é normal.

É adaptar a casa.

É gastar dinheiro que você não estava planejando gastar.

É cancelar alguma coisa porque ele está doente.

É aprender a interpretar um olhar.

É respeitar quando ele quer ficar sozinho.

É insistir no carinho quando ele pede.

É parar o que você está fazendo porque aquela criatura decidiu que agora é hora de receber atenção.

E também é rir.

Muito.

Porque os animais têm uma capacidade quase sobrenatural de transformar situações completamente comuns em histórias que vamos contar durante anos.

Quem tem animal em casa sabe.

Existe sempre “aquela história”.

Aquela coisa absurda que o cachorro fez.

Aquela mania do gato.

Aquela vez em que ele entrou onde não devia.

Aquela expressão.

Aquele susto.

Aquele apelido que começou de um jeito e terminou completamente diferente.

Aquela rotina que só vocês entendem.

É assim que uma vida compartilhada vai sendo construída.

Pequeno acontecimento por pequeno acontecimento.

E então chega o luto

Talvez seja justamente quando um animal morre que algumas pessoas percebem o tamanho da relação que existia.

Porque a ausência revela o espaço.

Enquanto alguém está presente, nós simplesmente convivemos com aquela presença.

Quando ela desaparece, percebemos quantos lugares aquela pessoa ocupava.

O pote continua ali.

A caminha continua ali.

O brinquedo continua ali.

O cantinho preferido continua ali.

A casa parece igual.

Mas não está.

Existe uma ausência que não aparece em fotografia.

E talvez seja por isso que o luto por um animal possa ser tão profundo.

Você não perdeu apenas um ser vivo.

Perdeu uma rotina.

Perdeu hábitos.

Perdeu sons.

Perdeu uma presença.

Perdeu alguém que fazia parte de uma versão da sua vida.

No meu caso, perder a Sashimi também significou perder uma testemunha de tantos anos da minha história.

Ela estava comigo antes de tantas coisas que hoje parecem permanentes.

Antes de tantas mudanças.

Antes de tantas responsabilidades.

Antes de eu me tornar quem sou.

E quando ela foi embora, uma parte daquela época foi embora junto.

Não porque as memórias desapareceram.

Mas porque não existe mais ninguém naquele lugar para compartilhá-las comigo.

“Você pode ter outro”

Essa frase também aparece muito.

E ela é curiosa.

Porque ninguém diria para uma mãe que perdeu um filho: “Você pode ter outro.”

Então por que algumas pessoas acham que isso consola quem perdeu um animal?

Um novo animal pode chegar.

E será amado.

Pode trazer novas histórias.

Pode criar um vínculo completamente diferente.

Pode ocupar outro espaço no coração.

Mas ele não substitui aquele que foi embora.

Porque amor não funciona como uma vaga de estacionamento.

Você não tira um carro e coloca outro no mesmo lugar esperando que tudo fique igual.

Cada ser é único.

Cada relação é única.

A Sashimi não pode ser substituída porque não existe outra Sashimi.

E isso não significa que eu nunca mais possa amar outro animal.

Pelo contrário.

Talvez seja justamente porque sabemos amar profundamente que conseguimos abrir espaço novamente.

Mas espaço novo não apaga espaço antigo.

Talvez seja isso que os animais nos ensinam sobre família

Família não é necessariamente quem se parece conosco.

Às vezes é quem nos acompanha.

Quem nos espera.

Quem percebe nossa ausência.

Quem transforma nossa casa em lar.

Quem participa das nossas rotinas.

Quem recebe nosso cuidado e, sem perceber, também cuida de nós.

Porque eles cuidam de maneiras diferentes.

Um animal não vai sentar ao nosso lado e dizer: “Vai ficar tudo bem.”

Mas pode simplesmente deitar perto.

E às vezes isso basta.

Talvez até mais do que um discurso.

Existe alguma coisa muito bonita na ausência de explicações.

O animal não pergunta por que você está triste.

Não quer saber quem estava certo.

Não pede justificativas.

Não exige produtividade.

Você pode passar o dia inteiro sendo uma pessoa complicada para o mundo e, quando chega em casa, alguém pode simplesmente encostar a cabeça na sua perna.

Pronto.

Você está em casa.

E se chamássemos de família?

Talvez o que mais me incomode nessa discussão seja a necessidade de escolher uma palavra que seja aceita pelos outros.

“Animal de estimação” é tecnicamente correto.

Mas algumas vezes parece pequeno demais para explicar o que existe ali.

“Companheiro” é bonito.

“Amigo” também.

Mas, para algumas pessoas, ainda não alcança.

Para mim, filha alcança.

Não porque eu ache que uma gata seja uma criança humana.

Mas porque essa palavra descreve o lugar que ela ocupava dentro de mim.

E acho que é importante deixar isso claro:

não existe obrigação de chamar um animal de filho.

Nem todo mundo sente dessa forma.

Algumas pessoas têm animais e os amam profundamente sem estabelecer esse tipo de relação.

Tudo bem.

O problema começa quando tentamos transformar a nossa maneira de amar na única maneira válida de amar.

Se para você seu cachorro é seu melhor amigo, está certo.

Se para outra pessoa é seu filho, está certo também.

Se alguém chama sua gata de irmã, sua calopsita de companheira ou seu cavalo de parceiro de vida, talvez tudo bem deixar que cada pessoa encontre a palavra que melhor explica o próprio vínculo.

Porque, no fim, a palavra é só uma tentativa de explicar uma coisa que acontece antes dela.

O sentimento.

A Sashimi foi minha filha

Eu poderia escrever sobre a Sashimi tentando encontrar uma definição mais “aceitável”.

Poderia dizer que ela foi minha companheira.

Minha gata.

Minha amiga.

Meu animal de estimação.

Todas essas coisas seriam verdadeiras.

Mas ainda faltaria alguma coisa.

Porque quando lembro dela, lembro também de tudo que fiz por ela e de tudo que ela representou na minha vida.

Lembro do cuidado.

Da preocupação.

Da rotina.

Das histórias.

Dos momentos difíceis.

Dos momentos engraçados.

Da presença.

Do envelhecimento.

Da despedida.

E, principalmente, lembro do amor.

Por isso, se alguém me perguntar um dia se a Sashimi era minha filha, talvez eu não tenha mais vontade de explicar.

Vou simplesmente responder:

“Era.”

Porque ela não precisava ter nascido de mim para ter nascido dentro da minha vida.

Ela não precisava falar para se comunicar comigo.

Não precisava ter o meu sangue para fazer parte da minha história.

Não precisava ser humana para ser família.

Ela foi uma gata.

E foi muito mais do que isso.

Foi uma pequena criatura que dividiu comigo uma parte enorme da minha existência.

Foi alguém que eu cuidei.

Alguém por quem me preocupei.

Alguém que me fez rir.

Alguém que me fez chorar.

Alguém cuja ausência ainda consegue apertar um lugar específico dentro do peito.

E talvez seja justamente isso que define um vínculo verdadeiro.

Não o nome que damos a ele.

Mas o espaço que ele ocupa quando aquela presença deixa de existir.

A Sashimi ocupou um espaço enorme.

E esse espaço continua sendo dela.

Porque talvez seja isso que acontece quando amamos de verdade: a pessoa — ou o animal — vai embora, mas a relação não desaparece completamente.

Ela muda de lugar.

Sai da rotina e vai para a memória.

Sai do colo e vai para o coração.

Sai da casa e passa a morar nas histórias que contamos.

E, enquanto eu puder falar sobre ela, escrever sobre ela e lembrar dela, a Sashimi continuará fazendo parte da minha vida.

Então, sim.

Ela era uma gata.

Mas, para mim, ela também era filha.

E quem decidiu que uma coisa precisava impedir a outra?

Escrito por: Cinthia Lacerda