Por que criar alguma coisa faz tão bem?

Escrever, cantar, desenhar, cozinhar, costurar ou simplesmente inventar alguma coisa: por que criar mexe tanto com a gente? Talvez exista algo especial em transformar uma ideia que estava apenas dentro da nossa cabeça em algo que passa a existir no mundo. Neste artigo, refletimos sobre criatividade, autoria, imperfeição e o prazer de fazer algo sem precisar ser perfeito, útil ou rentável. Afinal, será que tudo o que fazemos precisa virar trabalho ou gerar algum resultado? Talvez criar seja apenas uma das formas mais bonitas de dizer: “Eu imaginei. Eu tentei. Eu fiz.”

ARTESANATOS

Cinthia Lacerda

9/17/202615 min ler

Por que criar alguma coisa faz tão bem?

Existe uma coisa curiosa na experiência humana: nós não nos contentamos apenas em observar o mundo. Em algum momento, parece surgir dentro da gente uma necessidade de colocar alguma coisa nele também. Escrevemos uma frase num papel, cantamos uma música enquanto estamos sozinhos, desenhamos alguma coisa no canto de um caderno, inventamos uma receita com o que havia na geladeira, costuramos um tecido, montamos um objeto, fotografamos uma cena, criamos uma história ou simplesmente temos uma ideia e pensamos: “E se eu fizesse isso?”. Às vezes o resultado é bonito. Às vezes é completamente torto. Às vezes ninguém nunca vai ver. E, mesmo assim, existe uma satisfação difícil de explicar em perceber que aquilo que antes só existia dentro da nossa cabeça agora está ali, diante dos nossos olhos.

Talvez seja por isso que criar alguma coisa faça tão bem.

Não necessariamente porque toda criação seja perfeita, útil, rentável ou admirável. Aliás, talvez seja justamente o contrário. Existe alguma coisa profundamente humana em fazer algo sem saber exatamente onde aquilo vai chegar. Criar é uma das poucas experiências em que podemos começar sem ter todas as respostas e descobrir o caminho enquanto caminhamos. É diferente de simplesmente consumir alguma coisa que já está pronta. Quando assistimos a um filme, ouvimos uma música, lemos um livro ou compramos um objeto, estamos recebendo algo que outra pessoa colocou no mundo. Quando criamos, fazemos o movimento contrário: pegamos alguma coisa que estava em nós e damos a ela uma forma que pode ser vista, ouvida, tocada, sentida ou compartilhada.

E talvez essa passagem — do que existe dentro para aquilo que passa a existir fora — tenha muito mais importância do que costumamos perceber.

A ideia que estava apenas na cabeça

Pense em quantas coisas existem dentro de você neste exato momento que ninguém mais consegue ver.

Uma lembrança. Uma música. Uma história. Uma imagem. Uma vontade. Uma solução para um problema. Uma receita que você gostaria de experimentar. Uma decoração que imaginou para a sua casa. Uma roupa que gostaria de costurar. Uma frase que gostaria de escrever. Uma ideia tão estranha que você provavelmente nem contou para ninguém porque pensou que iam perguntar de onde tirou aquilo.

Enquanto essas coisas permanecem apenas na nossa cabeça, elas são possibilidades. Podem mudar, desaparecer, crescer ou ser substituídas por outras. Mas quando começamos a criar, alguma coisa acontece: precisamos tomar decisões.

Se vou escrever, preciso escolher palavras. Se vou desenhar, preciso escolher formas. Se vou cantar, preciso encontrar ritmo e melodia. Se vou cozinhar, preciso decidir ingredientes. Se vou costurar, preciso escolher tecido, linha, medidas. A ideia deixa de ser uma espécie de nuvem abstrata e começa a enfrentar a realidade.

E a realidade, convenhamos, é uma ótima professora.

Ela nos mostra que aquela receita que parecia maravilhosa na nossa cabeça talvez precise de mais sal. Que aquela peça que imaginamos perfeitamente talvez fique torta. Que aquela música precisa de outra nota. Que aquele texto que parecia genial às duas da manhã talvez precise de três parágrafos arrancados pela manhã.

Criar é negociar constantemente entre aquilo que imaginamos e aquilo que conseguimos fazer.

E existe algo muito interessante nisso: a criação não apenas coloca uma ideia no mundo; ela também devolve alguma coisa para quem criou.

Às vezes começamos a escrever para explicar alguma coisa e terminamos entendendo melhor o que estávamos sentindo. Começamos a desenhar sem saber exatamente o que queremos representar e, quando terminamos, percebemos que havia uma imagem dentro de nós que nem sabíamos que existia. Começamos a cozinhar porque queríamos fazer alguma coisa diferente e terminamos lembrando de alguém, de uma infância, de uma viagem ou de uma comida que fazia parte de outra fase da vida.

Criar pode ser uma maneira de descobrir o que estava escondido dentro da própria cabeça.

Criar não é a mesma coisa que produzir

Talvez essa distinção seja importante porque vivemos numa época em que quase tudo precisa justificar sua existência pela produtividade.

Se você gosta de cozinhar, logo aparece a pergunta: “Por que não vende?”. Se faz artesanato: “Já pensou em montar uma loja?”. Se escreve: “Por que não publica?”. Se canta: “Você deveria gravar”. Se desenha: “Dá para ganhar dinheiro com isso”. Se gosta de fotografia: “Você poderia trabalhar com eventos”.

É curioso como temos dificuldade de aceitar que alguém possa fazer alguma coisa simplesmente porque gosta.

Até nossos hobbies parecem precisar apresentar um plano de negócios.

E eu não estou dizendo que transformar uma habilidade em profissão seja ruim. Pode ser maravilhoso quando uma pessoa consegue trabalhar com aquilo que ama. O problema começa quando acreditamos que uma atividade só tem valor se puder ser monetizada.

Porque existe uma diferença enorme entre criar e produzir.

Produzir geralmente envolve uma finalidade. Existe um resultado esperado, um prazo, uma demanda, uma quantidade. Criar pode existir sem nenhuma dessas coisas. Você pode escrever três páginas e nunca publicar. Pode pintar uma tela e guardá-la. Pode fazer um bolo só porque estava com vontade. Pode costurar uma peça que ninguém vai comprar. Pode cantar no chuveiro com uma convicção que certamente não corresponde à qualidade técnica apresentada.

E tudo bem.

Talvez uma das coisas que mais nos façam bem na criação seja justamente experimentar uma atividade que não precisa justificar sua existência.

Nem tudo precisa virar conteúdo.

Nem tudo precisa virar renda.

Nem tudo precisa virar projeto.

Algumas coisas podem simplesmente ser nossas.

“Mas eu não sei fazer”

Essa frase aparece muito antes mesmo de começarmos.

“Eu não sei desenhar.”

“Não tenho voz para cantar.”

“Não sou criativa.”

“Não tenho habilidade manual.”

“Não sei escrever.”

“Não tenho talento.”

E existe uma pequena armadilha escondida nessas frases: elas transformam habilidade em pré-requisito para experimentar.

Como se primeiro precisássemos descobrir que somos boas em alguma coisa para depois termos autorização para fazê-la.

Mas como alguém fica boa em alguma coisa sem fazer?

A primeira tentativa de quase tudo é estranha. O primeiro desenho pode ser desproporcional. A primeira receita pode dar errado. A primeira costura pode ficar torta. A primeira música pode sair desafinada. O primeiro texto pode ser confuso. E, sinceramente, talvez seja justamente aí que esteja uma das partes mais importantes do processo.

A criação nos permite experimentar sem saber.

Existe uma liberdade enorme em fazer alguma coisa quando ainda não somos especialistas. Porque, nesse momento, não estamos necessariamente tentando provar competência. Estamos apenas descobrindo.

O problema é que crescemos aprendendo a esconder aquilo que fazemos mal. Na escola, geralmente aprendemos que errar significa que precisamos melhorar. No trabalho, erros podem ter consequências. Nas redes sociais, somos constantemente expostos aos resultados finais das pessoas, e raramente vemos as dezenas de tentativas que aconteceram antes daquela fotografia perfeita, daquele desenho maravilhoso ou daquela música bem produzida.

Então olhamos para o resultado dos outros e comparamos com o nosso começo.

É uma competição completamente injusta.

Talvez criar exija recuperar uma coisa que perdemos ao crescer: a capacidade de fazer alguma coisa sem precisar ser imediatamente boa nela.

Existe uma satisfação estranha em dizer: “Fui eu que fiz”

Talvez você já tenha experimentado isso.

Você termina alguma coisa e olha para aquilo durante alguns segundos. Não é uma obra-prima. Talvez nem esteja exatamente como imaginou. Mas existe um detalhe que nenhuma outra pessoa consegue reproduzir da mesma maneira.

Você fez.

Essa sensação de autoria é curiosa.

Pode ser uma coisa pequena. Uma decoração na parede. Um desenho. Uma peça de roupa. Um móvel reformado. Uma receita. Um texto. Uma música. Uma fotografia.

Aquilo passou pelas suas mãos, pelas suas escolhas, pelos seus erros e pelas suas decisões.

E existe uma diferença emocional entre dizer “eu comprei isso” e dizer “eu fiz isso”.

Não porque uma coisa seja melhor do que a outra, mas porque a segunda carrega uma história do processo.

Quando criamos alguma coisa, deixamos pequenas marcas nossas nela. Mesmo quando seguimos uma receita ou um molde, fazemos escolhas. Mudamos uma cor. Substituímos um ingrediente. Alteramos um detalhe. Adaptamos alguma coisa.

É como se a criação dissesse: “Essa coisa agora existe, mas existe desse jeito porque eu passei por ela.”

Talvez seja uma das razões pelas quais objetos feitos à mão podem carregar tanto significado. O valor não está apenas na matéria-prima. Está também no tempo, na atenção e na intenção colocados ali.

E isso nos leva a uma pergunta interessante: por que precisamos tanto sentir que alguma coisa é nossa?

Talvez porque autoria seja também uma forma de presença.

Criar é uma maneira de deixar uma marca

Quando falamos em “deixar uma marca no mundo”, normalmente pensamos em coisas enormes. Um livro publicado. Uma obra famosa. Uma empresa. Uma descoberta científica. Uma música conhecida por milhões de pessoas.

Mas talvez essa ideia seja grande demais.

Talvez deixar uma marca seja algo muito mais cotidiano.

É a receita que alguém aprende com você e continua fazendo anos depois. É uma música que você escreveu e que uma pessoa ouviu num momento importante. É uma fotografia que registrou uma fase da família. É um desenho feito por uma criança que os pais guardam durante décadas. É uma peça de roupa costurada por alguém que você ama. É uma história contada tantas vezes que passa a fazer parte da memória de uma família.

A criação não precisa alcançar milhares de pessoas para ter significado.

Às vezes, ela precisa alcançar apenas uma.

Ou talvez nem isso.

Talvez existam coisas que criamos exclusivamente para nós mesmas.

E isso também conta.

Porque existe algo muito poderoso em olhar para uma criação e perceber: “Antes isso não existia. Agora existe.”

É uma forma pequena, cotidiana e quase silenciosa de participar da construção do mundo.

Criar também é conversar sem necessariamente falar

Nem sempre sabemos explicar o que sentimos.

Às vezes sabemos apenas que existe alguma coisa acontecendo dentro de nós.

Uma música pode expressar isso melhor do que uma conversa. Um desenho pode colocar forma numa sensação que não encontramos palavras para descrever. Uma fotografia pode guardar uma percepção que seria difícil explicar. Uma receita pode carregar uma lembrança. Uma história pode falar sobre nós sem que precisemos dizer diretamente que estamos falando de nós.

Talvez seja por isso que a arte esteja presente em praticamente todas as culturas humanas conhecidas.

Muito antes de termos redes sociais, plataformas de vídeo ou ferramentas de inteligência artificial, seres humanos já desenhavam nas paredes, criavam instrumentos, cantavam, dançavam, contavam histórias, moldavam objetos e decoravam seus espaços.

A necessidade de criar não parece ser uma invenção moderna.

Talvez seja uma característica profundamente humana.

E talvez exista uma razão simples para isso: nós não apenas vivemos experiências. Nós precisamos dar forma às experiências.

Uma lembrança pode virar fotografia. Uma saudade pode virar música. Uma ideia pode virar texto. Uma emoção pode virar pintura. Um desejo pode virar projeto.

Criar é uma espécie de tradução.

Pegamos alguma coisa que existe em uma linguagem interna e tentamos transformá-la em uma linguagem que o mundo consiga enxergar.

Nem sempre conseguimos traduzir perfeitamente.

Mas talvez o próprio ato de tentar já seja importante.

E se ninguém visse?

Essa talvez seja uma das perguntas mais interessantes sobre criação.

Se ninguém fosse ver aquilo que você fez, você ainda faria?

A resposta pode dizer muito sobre a relação que temos com aquilo que criamos.

Se a resposta for sim, existe alguma coisa ali que não depende da aprovação externa. Você está criando porque o próprio processo tem valor para você.

Se a resposta for não, também não há nada necessariamente errado. Somos seres sociais e é natural querer reconhecimento. Mostrar algo que fizemos e receber um elogio pode ser muito gostoso. Compartilhar uma música, uma receita, um texto ou uma fotografia pode criar conexão.

O problema não está em gostar de reconhecimento.

O problema é quando o reconhecimento se torna a única justificativa para continuar criando.

Porque as redes sociais trouxeram uma mudança interessante para a nossa relação com a criação. Antes, muitas pessoas criavam coisas que ficavam dentro de casa. Hoje, praticamente tudo pode ser fotografado, filmado, publicado e medido.

Quantas curtidas?

Quantos comentários?

Quantas visualizações?

Quantos seguidores?

De repente, aquilo que começou como uma brincadeira pode virar uma avaliação pública.

E isso muda completamente a experiência.

Você pode começar a pensar não mais em “o que eu quero fazer?”, mas em “o que as pessoas vão gostar?”.

A criação começa a olhar para o público antes de olhar para quem cria.

E talvez, em alguns momentos, seja bom recuperar o direito de fazer alguma coisa que não precise performar para ninguém.

O prazer de criar e a frustração de não conseguir

Mas também não quero romantizar.

Criar pode ser maravilhoso, mas pode ser frustrante pra caramba.

Tem dias em que a ideia parece perfeita e a execução fica horrível. Você sabe exatamente o que queria fazer, mas suas mãos não conseguem acompanhar. A música não fica como imaginou. O desenho não tem a expressão que você queria. A receita não funciona. O texto empaca. O projeto parece não sair do lugar.

E aí vem aquela vontade clássica de largar tudo.

Talvez justamente por isso criar seja tão interessante. Porque nos coloca diante de uma experiência que não controlamos completamente.

A ideia é nossa.

O resultado, nem sempre.

E aprender a lidar com essa diferença pode ser uma habilidade importante para muitas outras áreas da vida.

Nem tudo que imaginamos será exatamente como conseguimos realizar. Isso não significa que a tentativa foi inútil.

Às vezes precisamos mudar a ideia. Às vezes precisamos insistir. Às vezes precisamos abandonar uma criação e começar outra. E, de vez em quando, descobrimos que o erro abriu um caminho muito melhor do que aquele que tínhamos planejado.

Quantas coisas interessantes surgem justamente quando alguma coisa dá errado?

Uma receita improvisada. Uma combinação de cores inesperada. Uma frase que apareceu durante a escrita. Uma solução que nasceu porque o plano original não funcionou.

Criar exige uma certa tolerância ao improviso.

E talvez isso também faça bem.

Criar é aceitar que a imperfeição faz parte

Existe uma beleza especial nas coisas que carregam sinais de quem as fez.

Uma pequena irregularidade. Uma pincelada diferente. Uma costura que não ficou perfeitamente alinhada. Uma letra escrita à mão. Uma fotografia com alguma imperfeição.

Num mundo em que conseguimos editar praticamente tudo, a imperfeição pode parecer um problema.

Podemos corrigir pele, iluminação, voz, cenário, enquadramento, texto e até o momento em que uma fotografia foi tirada. Podemos refazer uma frase dez vezes antes de publicar. Podemos usar ferramentas que eliminam quase qualquer erro.

Isso é maravilhoso em muitos sentidos.

Mas também pode criar a sensação de que aquilo que produzimos precisa nascer pronto.

Não precisa.

Uma criação humana não precisa esconder completamente o processo que a originou.

Às vezes, justamente aquilo que ficou imperfeito é o que torna uma coisa reconhecível como nossa.

Porque perfeição é uma ideia abstrata.

Presença é concreta.

Talvez criar seja uma forma de prestar atenção

Existe outro aspecto que me fascina: quando estamos realmente criando, precisamos prestar atenção.

Não dá para desenhar sem olhar. Não dá para costurar sem perceber o tecido. Não dá para cozinhar sem acompanhar o que está acontecendo. Não dá para escrever sem ouvir, de alguma maneira, o que estamos tentando dizer. Não dá para cantar sem escutar a própria voz.

A criação exige presença.

E isso talvez explique parte da sensação de satisfação que algumas pessoas encontram nessas atividades. Durante aquele período, a atenção deixa de estar espalhada em dezenas de estímulos e começa a se concentrar em uma coisa.

O mundo continua acontecendo.

As mensagens continuam chegando.

As contas continuam existindo.

O telefone continua ali.

Mas, por alguns minutos, existe apenas aquele pedaço de tecido, aquela folha, aquela panela, aquela melodia, aquele texto.

Não precisamos transformar isso em uma explicação milagrosa nem chamar toda atividade criativa de terapia. Pessoas diferentes encontram prazer e concentração em atividades diferentes, e criar não substitui cuidados profissionais quando eles são necessários.

Mas existe algo inegável na experiência de dedicar tempo a uma atividade que exige nossa atenção e nos permite participar ativamente do resultado.

Em vez de apenas receber estímulos, estamos produzindo uma resposta.

Estamos fazendo alguma coisa.

Talvez o mundo precise de mais gente fazendo coisas inúteis

E aqui entra uma ideia que eu gosto bastante.

Talvez a gente precise fazer mais coisas aparentemente inúteis.

Não inúteis no sentido de sem valor, mas inúteis no sentido de não terem uma finalidade imediatamente mensurável.

Fazer um desenho que não serve para nada.

Escrever uma história que ninguém pediu.

Cantar uma música que ninguém vai ouvir.

Cozinhar uma receita complicada quando seria muito mais fácil pedir comida.

Costurar alguma coisa que provavelmente sairia mais barato comprar pronta.

Montar uma decoração que só faz sentido para você.

Inventar uma coisa completamente desnecessária.

Existe uma liberdade enorme nisso.

Porque quando não precisamos justificar a finalidade, podemos brincar.

E brincar é uma coisa que os adultos parecem esquecer com uma facilidade impressionante.

Crianças fazem coisas porque querem descobrir o que acontece. Misturam cores. Inventam histórias. Constroem objetos estranhos. Desenham pessoas com seis dedos. Fazem uma cabana com três cadeiras e um cobertor e acreditam que aquilo é uma fortaleza.

Nenhuma delas está perguntando quanto aquilo vai render.

Nós perguntamos.

Talvez criar seja uma das maneiras de recuperar um pouco dessa curiosidade.

Não para voltar a ser criança, mas para lembrar que experimentar pode ser uma finalidade em si.

Criar também pode mudar quem cria

Existe uma diferença entre terminar uma criação e sair dela igual ao que éramos antes.

Às vezes começamos querendo fazer um objeto e terminamos aprendendo uma habilidade. Começamos escrevendo sobre determinado assunto e terminamos entendendo melhor nossa própria opinião. Começamos tentando pintar uma imagem e descobrimos uma combinação de cores que passamos a gostar. Começamos uma receita e descobrimos que gostamos de cozinhar.

A criação produz alguma coisa do lado de fora, mas também produz alguma coisa dentro.

Talvez essa seja uma das partes mais bonitas do processo.

Quando criamos, não estamos apenas perguntando “o que consigo fazer?”.

Estamos também descobrindo “do que eu gosto?”, “como eu penso?”, “o que me prende a atenção?”, “o que me incomoda?”, “o que eu gostaria de aprender?”, “o que acontece quando eu tento de novo?”.

E, às vezes, descobrimos versões nossas que estavam escondidas atrás das obrigações.

A pessoa que achava que não era criativa descobre que adora desenhar.

A pessoa que dizia não ter paciência descobre que consegue passar duas horas costurando.

A pessoa que achava que não sabia escrever começa a preencher páginas.

A pessoa que nunca tinha cantado para ninguém descobre que cantar sozinha na cozinha é uma das melhores partes da semana.

Não precisamos transformar essas descobertas em uma nova identidade.

Podemos simplesmente aproveitá-las.

O mundo já está cheio de coisas prontas

Talvez essa seja a parte que mais me faz pensar sobre o assunto.

Vivemos cercados de coisas prontas.

Filmes prontos. Músicas prontas. Comidas prontas. Fotografias prontas. Textos prontos. Casas prontas. Roupas prontas. Respostas prontas. Entretenimento disponível a qualquer hora.

E isso é fantástico.

Eu não gostaria de voltar a um mundo em que tudo precisava ser feito manualmente. Obrigada, tecnologia. Meu respeito.

Mas existe uma diferença entre ter acesso a muitas coisas prontas e passar a vida inteira apenas consumindo o que outras pessoas criaram.

Talvez a criação seja uma maneira de participar mais ativamente do mundo.

Não apenas assistir.

Não apenas ouvir.

Não apenas comprar.

Não apenas deslizar a tela.

Mas colocar alguma coisa em movimento.

Uma ideia.

Uma palavra.

Uma imagem.

Um sabor.

Um objeto.

Uma música.

Uma história.

Uma pequena invenção.

Qualquer coisa.

Não precisa ser revolucionária.

Precisa ser sua.

E talvez seja isso que “criar” realmente significa

No fim das contas, talvez criar não seja simplesmente produzir alguma coisa bonita.

Talvez seja dar forma àquilo que antes era apenas possibilidade.

É pegar uma ideia e experimentar.

É transformar uma sensação em alguma linguagem.

É descobrir uma habilidade.

É errar e tentar novamente.

É perceber que nem tudo precisa ficar perfeito.

É experimentar sem necessariamente transformar tudo em trabalho.

É permitir que alguma coisa exista porque você teve vontade de fazê-la existir.

E talvez seja por isso que criar alguma coisa mexa tanto com a gente.

Porque, durante alguns instantes, deixamos de ser apenas espectadores da nossa própria vida.

Participamos dela.

Pegamos alguma coisa que não existia e fazemos existir.

E isso pode ser uma música cantada baixinho enquanto ninguém escuta. Pode ser uma receita inventada numa terça-feira qualquer. Pode ser um desenho guardado dentro de uma gaveta. Pode ser uma peça de roupa costurada com uma linha torta. Pode ser uma fotografia que nunca vai para a internet. Pode ser um texto que começa com uma pergunta e termina levando a gente para um lugar que nem imaginávamos.

Pode ser até uma ideia completamente maluca que apareceu do nada e fez você pensar:

“Bah… e se eu fizesse isso?”

Talvez não seja necessário que o mundo inteiro veja.

Talvez não seja necessário que alguém compre.

Talvez não seja necessário que fique perfeito.

Talvez não seja necessário sequer que sirva para alguma coisa.

Às vezes, basta que tenha passado por você.

Porque existe uma diferença enorme entre simplesmente estar no mundo e participar daquilo que o mundo se torna.

Quando criamos, deixamos uma pequena parte da nossa imaginação escapar da cabeça e ganhar existência.

E talvez seja por isso que, depois de terminar alguma coisa, mesmo uma coisa simples, a gente olhe para aquilo com uma sensação difícil de explicar.

Não é apenas satisfação.

É reconhecimento.

A gente olha e pensa:

“Isso não estava aqui antes.”

E então vem a segunda percepção, talvez ainda mais bonita:

“Agora está.”

E, de alguma maneira, eu tive alguma coisa a ver com isso.

Talvez criar seja uma das formas mais simples que encontramos de lembrar que não estamos apenas passando pela vida.

Estamos também deixando pequenas coisas pelo caminho.

Algumas grandes.

Outras minúsculas.

Algumas que serão vistas por muita gente.

Outras que talvez só nós saibamos que existiram.

Mas todas carregando alguma coisa que antes estava apenas dentro de nós.

E isso, por si só, já parece uma boa razão para continuar criando.

Mesmo que ninguém esteja esperando.

Mesmo que não dê dinheiro.

Mesmo que não fique perfeito.

Mesmo que seja só porque, naquele momento, você teve vontade de colocar uma pequena parte de si no mundo.

Porque talvez criar seja, no fundo, uma das maneiras mais bonitas de dizer:

“Eu imaginei. Eu tentei. Eu fiz.”

E agora isso existe.

Escrito por: Cinthia Lacerda com colaboração de Augusto (IA)