Por que precisamos de vilões?

Nas histórias, quase sempre existe alguém para amar e alguém para odiar. Mas será que a vida real funciona assim? Pessoas podem fazer escolhas egoístas, cometer erros e até nos machucar sem que isso transforme tudo o que elas são em maldade. Neste artigo, Cinthia questiona a necessidade de transformar pessoas em vilões e propõe uma reflexão sobre empatia, julgamento e perdão. Afinal, podemos reconhecer que uma atitude foi errada sem condenar uma pessoa inteira. Talvez a função da arte não seja nos ensinar quem odiar, mas nos ensinar a enxergar. Porque, na vida, às vezes somos o mocinho de uma história e o vilão da história de outra pessoa. Sem vilões perfeitos. Sem mocinhos perfeitos. Só gente. ❤️

CULTURA

Cinthia Lacerda

10/1/202610 min ler

Por que precisamos de vilões?

Existe uma coisa curiosa nas histórias que contamos há séculos: quase sempre alguém precisa ocupar o lugar do vilão. Tem o mocinho, tem a mocinha, tem aquele personagem que torcemos para vencer e, do outro lado, alguém que precisamos aprender a odiar. A estrutura é tão conhecida que muitas vezes nem percebemos que ela está ali. A história começa, alguma coisa dá errado, alguém causa o conflito e pronto: nossa cabeça começa imediatamente a procurar o culpado.

Mas eu fico pensando: e se esse formato estiver ficando velho?

Não estou dizendo que histórias precisam deixar de ter conflitos, antagonistas ou personagens que fazem coisas terríveis. O conflito é parte da narrativa. O que me incomoda é outra coisa: a necessidade de transformar uma pessoa inteira em vilã.

Porque, quando olhamos para a vida real, é muito difícil encontrar alguém que seja cem por cento bom ou cem por cento mau. Pessoas são contraditórias. Podem ser generosas em uma situação e egoístas em outra. Podem amar profundamente e, ainda assim, machucar. Podem fazer uma escolha bonita pela manhã e uma escolha péssima à tarde. Podem errar, se arrepender, repetir o erro, mudar, voltar atrás ou simplesmente continuar sendo complicadas, como todos nós somos.

Talvez seja justamente aí que a ficção possa começar a mudar.

Uma série que brinca bastante com essa ideia é Era Uma Vez (Once Upon a Time), disponível no Disney+. A produção mistura os personagens dos contos de fadas com uma cidade contemporânea e vai revelando histórias anteriores, motivações e contradições por trás das figuras que conhecemos como heróis e vilões. Regina, conhecida como Rainha Má, é apresentada também como uma mulher marcada por perdas, desejos e escolhas; Rumplestiltskin, por sua vez, é um personagem cheio de interesses, medos e contradições. A série não apaga os atos dos personagens, mas permite que a gente enxergue que existe uma história antes deles se tornarem aquilo que aprendemos a chamar de vilão.

E isso me faz pensar em uma coisa que fazemos o tempo inteiro na nossa própria vida.

Nós também criamos vilões.

Imagine que você trabalha em uma empresa e existe uma promoção que, até então, parecia destinada a você. Você se preparou, esperou, talvez até tenha recebido sinais de que a oportunidade seria sua. Só que, nos últimos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, a empresa escolhe outra pessoa.

Sua colega.

Pronto.

Dependendo da maneira como você recebe essa notícia, nasce uma narrativa.

“Ela pegou o meu lugar.”

“Ela fez alguma coisa para conseguir.”

“Ela passou por cima de mim.”

“Ela acabou com a minha oportunidade.”

E talvez ela realmente tenha feito alguma coisa. Talvez tenha usado alguma estratégia egoísta, talvez tenha tentado se destacar de uma maneira que você considera injusta. É possível.

Mas também existe outra possibilidade: talvez o coordenador tenha analisado as duas pessoas e concluído, naquele momento, que ela tinha um pouco mais de experiência para aquela função. Talvez tenha sido uma decisão administrativa. Talvez existissem critérios que você nem conhecia. Talvez a situação simplesmente tenha sido diferente da história que sua dor contou para você.

E mesmo se ela tiver agido de maneira egoísta, ainda existe uma diferença enorme entre dizer “ela tomou uma atitude egoísta” e dizer “ela é uma pessoa má”.

Percebe?

Uma coisa é julgar um ato.

Outra é condenar uma pessoa inteira.

Quando estamos machucados, essa diferença fica muito difícil de enxergar. A dor quer uma explicação. E, mais do que isso, ela quer um culpado. Porque é muito mais fácil organizar uma história quando existe alguém para colocar do outro lado.

Se eu perdi uma oportunidade, é confortável pensar que alguém roubou essa oportunidade de mim.

Se minha relação terminou, é confortável pensar que o outro destruiu tudo.

Se um projeto deu errado, é confortável encontrar quem atrapalhou.

Se uma fase da minha vida foi difícil, é tentador procurar uma pessoa, uma circunstância ou um acontecimento que possa carregar toda a culpa.

Só que a vida raramente funciona assim.

As coisas costumam acontecer por uma combinação enorme de decisões, circunstâncias, acasos, limitações, escolhas nossas e escolhas de outras pessoas. E aceitar essa complexidade pode ser muito mais difícil do que apontar para alguém e dizer:

“Foi ele.”

Talvez seja por isso que os vilões sejam tão eficientes nas histórias.

Eles simplificam o mundo.

Quando existe um vilão, eu sei contra quem preciso lutar. Sei quem está errado. Sei por quem devo torcer. Sei quem precisa perder para que eu possa sentir que a justiça foi feita.

E isso também explica por que determinadas histórias são tão emocionalmente satisfatórias.

A gente passa horas assistindo a uma novela ou série com raiva de determinado personagem. Torce para que ele seja desmascarado. Espera pela vingança. Comemora quando ele finalmente recebe aquilo que, dentro da história, consideramos merecer.

Mas e se a gente estivesse olhando tudo apenas por um lado?

E se a pessoa que chamamos de vilã tivesse uma história que nunca foi contada?

Isso não significa que ela esteja certa.

Essa diferença é fundamental.

Entender não é justificar.

Ter empatia não é absolver.

Olhar pelo ponto de vista de alguém não significa apagar a dor de quem sofreu.

Se alguém mentiu para mim, eu posso tentar entender por que mentiu e, ainda assim, considerar a mentira errada. Se alguém me prejudicou deliberadamente, posso reconhecer o prejuízo e estabelecer limites sem precisar acreditar que aquela pessoa nasceu má. Se alguém tomou uma decisão egoísta, posso chamar aquela decisão de egoísta sem transformar cada aspecto daquela pessoa em uma prova de maldade.

Talvez esse seja um dos exercícios mais difíceis de maturidade: aprender a separar a pessoa daquilo que ela fez.

Porque nós mesmos gostaríamos de ser vistos dessa maneira.

Quando fazemos uma coisa ruim, normalmente pensamos no contexto. Lembramos o que estávamos sentindo. Explicamos o que aconteceu antes. Contamos nossas intenções. Dizemos que não era bem aquilo que queríamos fazer. Lembramos das vezes em que fizemos o bem.

Para nós, existe contexto.

Para o outro, muitas vezes existe apenas julgamento.

É curioso como conseguimos ser tão generosos com a nossa própria complexidade e tão econômicos com a complexidade dos outros.

Talvez a empatia comece justamente quando fazemos uma pergunta que não é confortável:

“E se eu estivesse olhando essa história pelos olhos dela?”

Voltemos à colega da promoção.

Se eu olhar apenas pela minha dor, ela é a mulher que roubou aquilo que era meu.

Mas, se eu tentar olhar pelo lugar dela, talvez eu descubra uma mulher que estava há anos esperando uma oportunidade. Talvez ela também tivesse contas para pagar. Talvez quisesse um salário melhor para cuidar da família. Talvez acreditasse sinceramente que estava preparada para o cargo. Talvez tivesse trabalhado muito para chegar até ali.

Talvez ela tenha agido de maneira egoísta.

Talvez não.

Eu não sei.

E esse “eu não sei” é muito importante.

Porque ele abre espaço para a realidade entrar.

Talvez ela tenha me prejudicado. Talvez não.

Talvez o gerente tenha errado. Talvez tenha acertado.

Talvez aquela promoção realmente fosse injusta. Talvez eu simplesmente não tivesse todas as informações.

Quando admitimos que não sabemos tudo, deixamos de ser tão rápidos em construir personagens.

E talvez isso seja algo que a cultura poderia começar a explorar de outra maneira.

Por que toda história precisa terminar com a descoberta de quem é o culpado?

Por que precisamos necessariamente escolher um lado?

Será que não existem histórias em que o mais interessante seja descobrir como duas pessoas chegaram a um conflito, em vez de simplesmente descobrir qual delas é o monstro?

Talvez o cinema, as séries, os livros e as novelas possam continuar tendo antagonistas, mas começar a abandonar a ideia de que o antagonista precisa ser uma pessoa essencialmente má.

Talvez possamos ter histórias em que alguém faça algo terrível e ainda assim seja humano.

Histórias em que o público fique dividido.

Em que não saiba exatamente por quem torcer.

Em que compreenda uma escolha sem concordar com ela.

Em que consiga sentir raiva de um personagem e, alguns minutos depois, sentir pena.

Em que o final não seja simplesmente “o bem venceu o mal”, mas:

“Agora entendemos um pouco melhor como chegamos até aqui.”

Era Uma Vez já brinca com algumas dessas possibilidades. A série parte de personagens clássicos de contos de fadas, mas mistura suas identidades, passados e escolhas, mostrando que figuras como Regina e Rumplestiltskin carregam histórias que vão muito além da etiqueta de “vilão”. A própria Disney apresenta a série como uma reinvenção dos personagens dos contos de fadas, explorando suas vidas antes e depois da maldição e colocando em jogo questões como redenção, escolhas e a possibilidade de cada personagem ser melhor.

Talvez esse seja um caminho interessante para a ficção.

Não acabar com os vilões.

Mas acabar com a necessidade de acreditar que alguém precisa ser completamente vilão para que outra pessoa seja completamente vítima.

Porque, na vida real, nós também fazemos isso.

E talvez seja aqui que essa conversa deixe de ser apenas sobre filmes e séries.

Quantas pessoas nós já transformamos em vilões da nossa própria história?

Aquele ex.

Aquela amiga.

Aquele chefe.

Aquele familiar.

Aquela pessoa que nos decepcionou.

Aquela colega de trabalho.

Talvez algumas delas realmente tenham feito coisas graves. Talvez algumas tenham nos machucado profundamente. Não estou sugerindo que devemos fingir que nada aconteceu, apagar limites ou transformar injustiça em “lição de vida”.

Estou falando de outra coisa.

Talvez não precisemos carregar essas pessoas dentro da nossa cabeça como personagens permanentes.

Porque existe um momento em que continuar procurando um vilão deixa de nos proteger e começa a nos prender.

Se alguém fez alguma coisa injusta comigo, essa pessoa pode ter responsabilidade pelo que fez. As consequências das escolhas dela pertencem a ela. Eu não preciso passar o resto da minha vida tentando ser juiz, promotor e carrasco daquela história.

Eu posso reconhecer o que aconteceu.

Posso sentir raiva.

Posso colocar limites.

Posso me afastar.

Posso buscar reparação quando for possível e necessário.

E ainda assim posso escolher não transformar aquela pessoa no centro da minha existência.

Talvez isso seja uma forma muito mais profunda de liberdade.

Porque enquanto eu preciso que alguém seja o vilão, continuo precisando daquela pessoa para explicar a minha história.

Quando eu consigo dizer “isso aconteceu comigo, foi injusto, doeu, mas eu não vou deixar que isso defina o restante da minha vida”, alguma coisa muda.

A história deixa de ser sobre o que aquela pessoa fez.

E volta a ser sobre o que eu vou fazer daqui para frente.

Talvez seja por isso que essa conversa também encontre o perdão.

Perdoar não precisa significar dizer que alguém não fez nada de errado. Não significa permitir que a pessoa continue nos machucando. Não significa esquecer. Talvez, em alguns casos, nem signifique querer aquela pessoa novamente por perto.

Talvez perdoar seja apenas parar de alimentar a necessidade de transformar alguém em um monstro para conseguir seguir em frente.

É olhar para uma pessoa e pensar:

“Eu não concordo com o que você fez. Aquilo me machucou. Eu não aceito que aconteça novamente. Mas eu também não preciso acreditar que você é cem por cento ruim para reconhecer que aquilo foi errado.”

E talvez essa seja uma das maiores mudanças que poderíamos fazer na maneira como contamos histórias.

Em vez de perguntar:

“Quem é o vilão?”

Começar a perguntar:

“O que aconteceu para essa pessoa chegar até aqui?”

“Que escolhas ela fez?”

“O que ela estava tentando conseguir?”

“Quem ela machucou?”

“Quem ela amava?”

“O que ela perdeu?”

“O que ela poderia ter feito diferente?”

E, principalmente:

“Eu consigo compreender uma pessoa sem concordar com ela?”

Talvez sim.

Talvez essa seja justamente a maturidade que falta em muitas das histórias que contamos — e em muitas das histórias que contamos sobre nós mesmos.

Porque ninguém é apenas o pior erro que cometeu.

Ninguém é apenas a pior coisa que fez conosco.

E nós também não somos.

Somos feitos de escolhas boas e ruins, medos e desejos, acertos e contradições. Às vezes somos generosos. Às vezes somos egoístas. Às vezes temos coragem. Às vezes agimos por medo. Às vezes machucamos alguém sem perceber. Às vezes sabemos exatamente o que estamos fazendo.

Isso não elimina responsabilidade.

Mas talvez devolva humanidade.

E talvez esteja na hora de a nossa cultura aprender a contar histórias em que humanidade não precise significar inocência.

Podemos julgar atos sem desumanizar pessoas.

Podemos reconhecer vítimas sem precisar fabricar monstros.

Podemos estabelecer limites sem alimentar ódio.

Podemos discordar sem transformar o outro em uma caricatura.

E podemos olhar para uma história que parecia simples e descobrir que ela era muito mais complicada.

Talvez os contos de fadas tenham nos ensinado durante muito tempo que toda história precisa de um herói e de um vilão.

Mas talvez a próxima evolução dessas histórias seja perceber que a vida não funciona assim.

Na vida, às vezes, somos o mocinho de uma história e o vilão da história de outra pessoa.

Às vezes, fazemos algo que machuca alguém e nem sabemos que ocupamos esse lugar na memória dela.

Às vezes, alguém que nos machucou também está carregando uma história que nós nunca conhecemos.

Isso não torna tudo aceitável.

Só torna tudo mais humano.

E talvez essa seja uma pergunta que valha a pena levar para fora da tela, para dentro das nossas próprias relações:

Se eu parasse de procurar o vilão da minha história e começasse a procurar as causas, as escolhas e as circunstâncias que trouxeram cada pessoa até aqui, eu continuaria enxergando tudo exatamente da mesma maneira?

Talvez algumas pessoas continuassem merecendo distância.

Talvez algumas atitudes continuassem sendo imperdoáveis para nós.

Talvez algumas relações precisassem terminar.

Mas talvez, em outras histórias, a gente descobrisse que estava odiando um personagem que nunca conheceu de verdade.

E talvez seja justamente aí que a vida fique um pouco menos parecida com um conto de fadas.

E um pouco mais parecida com aquilo que ela realmente é:

uma enorme coleção de pessoas imperfeitas, tentando acertar, errando, escolhendo, machucando, amando, aprendendo e tentando encontrar seu próprio final feliz.

Sem vilões perfeitos.

Sem mocinhos perfeitos.

Só gente.

Escito por: Cinthia Lacerda com colaboração de Augusto (IA)