Por que viajar mexe tanto com a nossa cabeça?

Viajar não é apenas conhecer lugares novos. É sair da rotina, mudar o ritmo, perceber coisas que já não percebíamos e, às vezes, enxergar a nossa própria vida de um jeito diferente. Mas e quando a gente ama viajar e, ao mesmo tempo, não vê a hora de voltar para casa? Neste artigo, refletimos sobre o que acontece dentro da nossa cabeça quando estamos longe — e por que até quem ama o próprio sofá pode descobrir algo interessante quando decide olhar o mundo de outro lugar.

VIAGENS E MUNDO

Cinthia Lacerda

9/9/202610 min ler

Por que viajar mexe tanto com a nossa cabeça?

Existe uma frase que aparece com uma frequência quase religiosa quando alguém fala sobre viajar: “Viajar é a única coisa que você compra e fica mais rico.” Bonita, né? Daquelas frases que ficam perfeitas em uma foto de aeroporto, com uma mala ao lado, um café na mão e alguém olhando para o horizonte como se tivesse acabado de descobrir o sentido da existência. Só que eu confesso uma coisa que talvez não combine muito com esse imaginário: eu gosto de viajar, mas eu amo voltar para casa.

E não é uma declaração pequena.

Eu sou uma pessoa bastante caseira. Gosto da minha cama, das minhas coisas no lugar em que eu sei que estão, dos meus objetos, da minha rotina, daquele conforto quase invisível de saber exatamente onde está a caneca que eu gosto de usar. Gosto de estar na minha casa sem precisar pensar no horário do café da manhã, no que colocar na mala, em qual caminho pegar, onde estacionar ou se o travesseiro do hotel vai colaborar comigo naquela noite.

Então, quando alguém fala que gostaria de passar meses viajando pelo mundo, minha primeira reação interna nem sempre é “que sonho!”.

Às vezes é mais parecida com:

“Meses?”

Talvez eu consiga três semanas.

Dependendo do hotel, duas.

E olha que já estou sendo otimista.

Mas existe alguma coisa curiosa nas viagens que vai muito além de gostar ou não de sair de casa. Viajar mexe com a nossa cabeça de uma maneira bastante particular porque, por alguns dias, nós somos retirados do ambiente em que nossa mente está acostumada a funcionar. Mudamos de rua, de paisagem, de horários, de referências, de cheiros, de sons, de pessoas e até de pequenas regras que normalmente seguimos sem perceber.

E talvez seja justamente por isso que uma viagem de poucos dias possa produzir efeitos que uma rotina inteira não consegue produzir.

Não necessariamente porque viajar nos transforma em pessoas melhores.

Mas porque, por algum tempo, deixamos de ser tão automaticamente nós mesmos.

A nossa cabeça gosta muito do conhecido

Existe uma razão pela qual voltar para casa depois de uma viagem pode ser tão gostoso.

Não é apenas a cama.

É a previsibilidade.

Nós sabemos onde estão as coisas. Sabemos como funciona a casa. Conhecemos os caminhos. Temos nossos horários, nossas pequenas manias e nossos objetos familiares. Não precisamos gastar energia decidindo coisas que normalmente já estão automatizadas.

É quase como se o cérebro pudesse trabalhar no modo econômico.

Você abre a gaveta e sabe o que vai encontrar.

Abre a geladeira e sabe onde estão as coisas.

Entra no banheiro e não precisa descobrir como funciona o chuveiro.

Senta no sofá e não precisa pensar se ele é confortável.

Parece banal, mas não é.

Grande parte da nossa vida acontece justamente nesse piloto automático. E isso não é necessariamente ruim. Pelo contrário. Se tivéssemos que prestar atenção conscientemente em absolutamente tudo o que fazemos, provavelmente ficaríamos exaustos antes do almoço.

O problema é que a familiaridade também pode nos deixar menos atentos.

A mesma rua que um dia nos encantou pode se tornar apenas “o caminho para o trabalho”.

A praça pela qual passamos todos os dias deixa de ser uma paisagem e vira um ponto de referência.

A casa que amamos pode se tornar tão conhecida que paramos de percebê-la.

E aí aparece a viagem.

De repente, tudo volta a exigir atenção.

“Olha aquela construção.”

“Que árvore é aquela?”

“Por que as casas são diferentes aqui?”

“Que cheiro é esse?”

“Será que essa rua leva para lá?”

“Por que todo mundo está fazendo isso?”

“Como funciona esse transporte?”

Até coisas simples ganham importância.

É cansativo.

E também é fascinante.

Viajar é uma espécie de interrupção

Talvez uma das maiores forças psicológicas de uma viagem esteja justamente na interrupção da rotina.

Durante alguns dias, você não está apenas mudando de lugar. Está interrompendo uma sequência de comportamentos que se repetia quase automaticamente.

E isso pode ser muito poderoso.

Imagine uma pessoa que trabalha, volta para casa, resolve coisas, cuida dos filhos, organiza a vida, dorme e começa novamente. Não existe nada errado nisso. A vida é feita dessas repetições.

Mas quando essa pessoa viaja, alguma coisa quebra.

O café da manhã acontece em outro lugar.

O almoço tem outro sabor.

A paisagem muda.

O horário muda.

A conversa muda.

Até o silêncio pode ser diferente.

E quando o cérebro recebe uma quantidade maior de novidades, ele precisa prestar mais atenção.

Talvez seja por isso que algumas viagens parecem produzir uma sensação de “acordar”.

Não porque estávamos dormindo literalmente, mas porque estávamos tão acostumados às nossas referências que deixamos de perceber o mundo ao redor.

É como olhar para a própria vida através de uma janela que alguém acabou de limpar.

O mundo continua sendo o mesmo.

Mas você passa a enxergá-lo de outro jeito.

E tem uma coisa ainda mais curiosa: longe da nossa rotina, pensamos diferente sobre nós mesmos

Existe uma pergunta que aparece com muita força quando saímos do ambiente habitual:

Quem eu sou quando ninguém está esperando que eu seja exatamente quem eu sempre fui?

Em casa, temos papéis muito definidos.

Somos mãe.

Pai.

Filha.

Marido.

Esposa.

Profissional.

Vizinha.

Amiga.

A pessoa que resolve determinada coisa.

A pessoa que sempre faz determinada coisa.

Aquela que acorda cedo.

Aquela que gosta de organização.

Aquela que é responsável.

Aquela que não sabe dizer não.

Aquela que está sempre disponível.

As pessoas ao nosso redor também possuem uma expectativa sobre nós.

E nós possuímos expectativas sobre nós mesmos.

Quando viajamos, algumas dessas referências desaparecem temporariamente.

Ninguém naquele restaurante sabe que você é a pessoa que passa o dia inteiro resolvendo problemas.

Ninguém naquela rua sabe que você tem uma lista de coisas para resolver em casa.

Ninguém naquele hotel sabe quantas responsabilidades estão esperando você voltar.

Por alguns dias, você pode simplesmente ser uma pessoa andando por uma cidade.

E isso pode ser estranhamente libertador.

Mas aí entra o meu problema com aquela ideia de “largaria tudo e viajaria”

Eu acho bonito.

De verdade.

Admiro quem consegue colocar uma mochila nas costas, comprar uma passagem só de ida e sair por aí.

Mas eu provavelmente estaria três dias depois pesquisando imóveis para comprar naquela cidade.

Porque eu sou assim.

Eu gosto de descobrir lugares, mas também gosto de ter um lugar para voltar.

Talvez seja justamente por isso que eu ache estranho quando viajar é tratado como uma espécie de obrigação emocional.

Como se todo mundo precisasse amar viajar.

Como se ficar em casa fosse sinônimo de acomodação.

Como se desejar uma rotina fosse falta de coragem.

Como se quem gosta de casa não tivesse curiosidade pelo mundo.

E não é verdade.

Uma pessoa pode ser profundamente curiosa e ainda assim ser caseira.

Pode querer conhecer outros lugares e continuar achando maravilhoso voltar para o próprio sofá.

Pode gostar de experimentar comidas diferentes e, depois de alguns dias, sentir uma saudade quase emocionante do arroz e feijão de casa.

Pode amar uma paisagem e pensar:

“Que lugar maravilhoso.”

E logo depois:

“Tá. Agora vamos voltar?”

Talvez exista uma romantização exagerada da ideia de que liberdade significa estar sempre em movimento.

Para algumas pessoas, liberdade é pegar a estrada.

Para outras, liberdade é poder ficar.

E as duas coisas podem ser verdade.

Só que viajar também nos tira do conforto — e isso mexe com a cabeça

Nem tudo em uma viagem é encantador.

Às vezes você se perde.

Às vezes pega chuva.

Às vezes o hotel não é aquilo que parecia nas fotos.

Às vezes a comida é ruim.

Às vezes você fica cansado demais.

Às vezes dá saudade.

Às vezes você percebe que aquele lugar que parecia maravilhoso nas redes sociais não causou absolutamente nada em você.

E existe uma lição interessante nisso.

Quando saímos da nossa rotina, também perdemos algumas das facilidades que nos protegem.

Em casa, sabemos onde buscar ajuda.

Sabemos onde comprar determinada coisa.

Conhecemos os caminhos.

Temos nossos recursos.

Em outro lugar, precisamos improvisar.

E improvisar exige flexibilidade.

Talvez por isso algumas pessoas voltem de uma viagem com a sensação de que ficaram mais confiantes. Não necessariamente porque fizeram algo extraordinário, mas porque descobriram que conseguem resolver pequenos problemas em ambientes desconhecidos.

Você se perdeu e encontrou o caminho.

Não conseguiu se comunicar perfeitamente e mesmo assim resolveu.

Pegou um transporte que nunca tinha usado.

Experimentou alguma coisa que normalmente não experimentaria.

Teve que decidir rápido.

Essas pequenas experiências podem produzir uma sensação poderosa:

“Eu consigo me virar.”

E isso pode ultrapassar a viagem.

Existe também a questão dos estímulos

Uma viagem pode ser mentalmente cansativa justamente porque existe informação demais.

Novas ruas.

Novas pessoas.

Novos sons.

Novas placas.

Novas comidas.

Novos cheiros.

Novos horários.

Novas decisões.

Mesmo quando estamos nos divertindo, nosso cérebro está trabalhando.

Por isso é perfeitamente possível voltar de férias precisando de férias.

E eu acho essa uma das maiores ironias da vida adulta.

Você trabalha para ter férias.

Organiza as férias.

Paga as férias.

Viaja.

Passeia.

Conhece lugares.

Tira fotos.

Volta.

E precisa de alguns dias para descansar da própria viagem.

Mas talvez isso também explique por que viagens curtas podem ser tão interessantes para pessoas como eu.

Talvez não seja preciso passar seis meses atravessando continentes para experimentar a sensação de sair do automático.

Às vezes alguns dias são suficientes.

Uma cidade diferente.

Uma estrada.

Uma praia.

Um lugar histórico.

Um hotelzinho.

Uma viagem em família.

Até uma escapada de fim de semana pode provocar aquele pequeno deslocamento mental.

E quando viajamos com outras pessoas, existe outro fenômeno

Viajar também revela relações.

Muito.

Porque uma coisa é conviver com alguém dentro da rotina conhecida.

Outra é ficar alguns dias com essa pessoa em um ambiente diferente, tomando decisões o tempo inteiro.

“Vamos para onde?”

“Que horas?”

“Você quer comer?”

“Eu não quero isso.”

“Então vamos ali.”

“Mas fica longe.”

“Quanto tempo falta?”

“Você viu onde estacionamos?”

É praticamente um experimento social.

E talvez seja por isso que algumas viagens aproximem tanto as pessoas enquanto outras provoquem pequenos terremotos relacionais.

Viajar exige negociação.

E negociar revela muita coisa.

Revela paciência.

Revela flexibilidade.

Revela como cada pessoa lida com imprevistos.

Revela quem precisa planejar tudo.

Quem gosta de improvisar.

Quem fica irritado quando está com fome.

Quem diz “tanto faz” e depois reclama de todas as opções.

Quem acorda cedo feliz.

Quem considera acordar cedo nas férias uma violência contra os direitos humanos.

Eu não vou dizer em qual grupo eu me encaixo.

Mas talvez você consiga imaginar.

E existe a saudade

Essa é uma das partes mais bonitas e menos comentadas das viagens.

Porque sentir saudade também é uma forma de descobrir o que importa.

Quando estamos longe, percebemos pequenas coisas que não valorizávamos tanto.

O cheiro da nossa casa.

Nossa cama.

Um determinado café.

Uma conversa.

Uma pessoa.

Um animal.

Uma rotina.

Até uma coisa que normalmente nos irrita pode ganhar um certo charme quando estamos longe.

Você passa alguns dias desejando distância de tudo aquilo e, depois, percebe que está sentindo falta.

É curioso como o afastamento reorganiza prioridades.

Às vezes, precisamos sair para perceber o que realmente gostamos de ter por perto.

E talvez esse seja um dos motivos pelos quais eu, particularmente, gosto mais de viajar do que talvez pareça.

Não porque eu queira viver longe.

Mas porque algumas viagens me fazem voltar para casa gostando ainda mais dela.

Voltar também faz parte da viagem

Existe uma tendência de tratar o retorno como o fim da experiência.

A viagem terminou.

Acabou.

Agora volta para a vida normal.

Mas talvez o retorno seja justamente quando percebemos o que aquela experiência provocou.

Você entra em casa.

Coloca a mala no chão.

Abre a janela.

Toma banho.

Volta para a própria cama.

E, por alguns minutos, tudo parece estranhamente familiar.

Só que você não está exatamente igual.

Não precisa ter descoberto uma grande verdade sobre a vida.

Pode ter sido apenas uma conversa.

Uma paisagem.

Uma comida.

Uma pessoa.

Uma rua.

Uma situação engraçada.

Um momento em que você percebeu alguma coisa sobre si mesma.

Talvez tenha descoberto que gosta mais de tranquilidade do que imaginava.

Ou que gosta de movimento.

Que precisa de mais tempo sozinha.

Que gostaria de viajar mais.

Ou, como no meu caso, que viajar é ótimo, mas voltar para casa continua sendo uma parte fundamental do passeio.

E talvez isso também seja uma descoberta.

Será que precisamos viajar para mudar?

Eu não acho.

E talvez essa seja uma das coisas que mais gosto de pensar quando falamos sobre esse assunto.

Viajar pode nos transformar.

Mas não é obrigatório que transforme.

Não existe uma quantidade mínima de quilômetros percorridos para alguém se tornar uma pessoa mais interessante.

Você não precisa conhecer vinte países.

Não precisa tirar foto em aeroporto.

Não precisa ter uma lista de destinos.

Não precisa gostar de avião.

Não precisa querer morar fora.

Não precisa passar um mês mochilando.

E também não precisa se justificar porque prefere ficar em casa.

O mundo é grande, sim.

Mas a vida também acontece dentro de uma casa.

Existe descoberta na estrada.

Existe descoberta numa conversa.

Existe descoberta em um livro.

Existe descoberta em uma mudança de rotina.

Existe descoberta até quando olhamos novamente para um lugar que conhecemos há anos e percebemos alguma coisa que nunca tínhamos reparado.

Talvez o verdadeiro efeito de viajar não esteja simplesmente em ir para longe.

Talvez esteja em sair, por alguns instantes, da maneira habitual de enxergar as coisas.

E isso pode acontecer a quilômetros de distância ou a poucos quilômetros de casa.

Talvez viajar seja menos sobre lugares e mais sobre perspectivas

No fim, acho que é isso que torna as viagens tão interessantes.

Nós pensamos que estamos viajando para conhecer um lugar.

Mas, muitas vezes, acabamos conhecendo uma versão diferente de nós mesmos.

Uma versão que precisa improvisar.

Que observa mais.

Que se permite experimentar.

Que sente saudade.

Que percebe o que realmente valoriza.

Que descobre limites.

Que talvez descubra desejos novos.

Ou que simplesmente confirma algumas coisas que já sabia.

E, para mim, existe algo especialmente bonito nisso.

Eu não preciso voltar de uma viagem decidida a abandonar tudo e morar numa praia.

Posso voltar feliz porque conheci aquela praia.

Posso voltar para a minha casa.

Para a minha cama.

Para minhas coisas.

Para minha rotina.

E ainda assim trazer alguma coisa comigo.

Uma lembrança.

Uma ideia.

Uma história.

Uma fotografia.

Uma sensação.

Uma nova pergunta.

Talvez seja por isso que viajar mexa tanto com a nossa cabeça.

Porque, por alguns dias, o mundo muda de lugar.

E quando o mundo muda de lugar, mesmo que temporariamente, nós somos obrigados a olhar para ele de outro jeito.

E às vezes, nessa mudança de perspectiva, descobrimos alguma coisa sobre nós.

Outras vezes, descobrimos que queremos mudar.

E, em algumas delas, descobrimos uma coisa ainda mais simples:

que gostamos muito de conhecer o mundo, mas gostamos mesmo é de ter para onde voltar.

E talvez não exista nenhuma contradição nisso.

Talvez o desejo de conhecer o mundo e o amor pela própria casa não sejam forças opostas.

Talvez sejam justamente duas formas diferentes de curiosidade.

Uma nos faz perguntar:

“O que existe lá fora?”

A outra nos faz perguntar:

“O que existe aqui dentro que eu ainda não percebi?”

E, entre uma pergunta e outra, talvez esteja uma das melhores coisas que uma viagem pode fazer por nós: não necessariamente nos convencer a ir mais longe, mas nos fazer voltar para casa olhando para a nossa própria vida com um pouco mais de atenção.

Escrito por: Cinthia Lacerda com colaboração de Augusto (IA)