Toda casa tem um canto que é mais nosso

Toda casa tem aquele lugar que parece mais nosso do que os outros. Pode ser a cozinha, a varanda, o sofá ou, como no meu caso, o quarto. Não necessariamente o mais bonito ou organizado, mas aquele onde colocamos mais intenção e onde conseguimos simplesmente respirar e ser nós mesmos. Afinal, transformar uma casa em lar talvez tenha menos a ver com decoração perfeita e muito mais com pertencimento. Você tem um cantinho assim?

CASA DA BRUXA

Cinthia Lacerda

9/26/202612 min ler

Toda casa tem um canto que é mais nosso

Talvez o lugar mais especial da nossa casa não seja o mais bonito, o mais caro ou o mais organizado. Talvez seja simplesmente aquele lugar onde a gente sente que pode baixar a guarda.

Toda casa tem um canto que é mais nosso. Às vezes a gente sabe exatamente qual é. Às vezes nunca parou para pensar nisso. E talvez, se eu perguntasse agora qual é o lugar preferido da sua casa, você respondesse quase automaticamente: “meu quarto”, “minha cozinha”, “o sofá da sala”, “a varanda”, “a minha mesa”. É curioso como algumas partes da casa parecem ter uma espécie de gravidade própria. A gente acaba sempre voltando para elas. Não necessariamente porque são os ambientes mais bonitos ou mais bem decorados, mas porque existe alguma coisa ali que nos faz sentir pertencimento. No meu caso, esse lugar é o meu quarto. E olha que eu poderia inventar uma história bonita dizendo que ele está sempre impecável, organizado, perfumado e pronto para aparecer em uma revista de decoração. Só que não seria verdade. 😂 Uma casa onde pessoas realmente vivem dificilmente permanece perfeita por muito tempo. Tem roupa esperando para ser guardada, coisas que foram deixadas em cima de algum móvel porque “depois eu vejo isso”, objetos que aparecem misteriosamente onde não deveriam estar e aquela baguncinha que parece se reproduzir durante a noite. A vida acontece dentro de uma casa. E talvez seja justamente por isso que eu goste tanto da ideia de ter um canto que seja especialmente nosso.

O meu quarto é o lugar da casa em que eu mais gosto de colocar energia. É onde presto mais atenção nos detalhes, onde gosto de pensar no cheiro, na iluminação, nos objetos que quero por perto, na sensação que o ambiente me transmite. É um lugar que, de alguma maneira, parece conversar comigo. E não estou falando apenas de decoração. É muito mais sobre a sensação de entrar em um ambiente e reconhecer a si mesma ali. Talvez você tenha alguma coisa parecida na sua casa. Pode ser uma poltrona onde você sempre senta para tomar café, uma bancada onde gosta de trabalhar, uma cozinha onde prepara as receitas que ama, uma varanda onde fica olhando o movimento da rua, uma estante cheia de livros, um ateliê, um sofá específico ou até mesmo aquele pedacinho da cama onde você sempre se ajeita do mesmo jeito. Às vezes, para outra pessoa, aquele lugar não tem nada de especial. E essa é justamente a graça. O nosso canto não precisa fazer sentido para mais ninguém.

A casa inteira é nossa, mas nem todos os lugares têm o mesmo significado

Quando a gente fala que uma casa é nossa, parece que estamos falando de uma coisa bastante objetiva: é onde moramos, onde estão nossas coisas, onde dormimos, fazemos refeições, recebemos pessoas e seguimos a rotina. Mas existe uma diferença enorme entre simplesmente morar em um lugar e sentir que aquele lugar pertence à nossa história. Uma casa pode ter todos os móveis necessários, pode ser bonita, espaçosa e organizada, e ainda assim demorar algum tempo para adquirir aquela sensação de lar. Isso acontece porque lar não é exatamente uma construção física. Ele vai sendo criado aos poucos, conforme a nossa vida vai deixando marcas naquele espaço.

É por isso que eu acho tão interessante observar como cada pessoa escolhe ocupar a própria casa. Tem gente que transforma a cozinha no coração do lar. A pessoa compra utensílios, escolhe potes, organiza temperos, gosta de cozinhar, coloca uma mesa bonita e parece realmente feliz naquele ambiente. Tem quem tenha uma sala onde tudo acontece: televisão ligada, conversa, criança brincando, animal de estimação dormindo no sofá, gente entrando e saindo. Tem quem ame a varanda e faça daquele pequeno espaço um refúgio. E tem quem, como eu, encontre no quarto uma espécie de território particular. Não significa que eu não goste dos outros cômodos. Significa apenas que existe um lugar onde minha conexão com a casa é diferente.

Talvez isso aconteça porque precisamos de algum lugar onde não estejamos desempenhando um papel. Durante o dia, somos tantas coisas ao mesmo tempo. Somos profissionais, mães, pais, filhos, companheiros, responsáveis por tarefas, pessoas que precisam resolver problemas, responder mensagens, lembrar compromissos, pagar contas, organizar a vida e lidar com uma lista de coisas que parece crescer justamente quando a gente consegue riscar alguma delas. Quando finalmente chegamos em casa, teoricamente deveríamos simplesmente descansar. Mas nem sempre conseguimos. A casa também tem tarefas. Tem louça, roupa, limpeza, organização, comida, manutenção e uma infinidade de pequenas coisas que ninguém percebe quando estão feitas, mas percebe imediatamente quando não estão. Talvez por isso seja tão importante ter um canto em que a gente não precise estar “fazendo” alguma coisa.

Uma casa bonita não é necessariamente uma casa que acolhe

Eu gosto de casas bonitas. Gosto de decoração, de cores, de objetos interessantes, de ambientes bem pensados e daquela sensação deliciosa de entrar em um lugar e perceber que alguém teve cuidado com ele. Mas existe uma diferença entre uma casa bonita e uma casa que acolhe. Uma casa pode ser impecável e ainda parecer que ninguém realmente mora ali. Pode ter tudo combinando, móveis lindos, objetos caros, iluminação planejada e aquela estética perfeita de fotografia, mas faltar alguma coisa que não se compra em loja: personalidade.

Por outro lado, existe aquela casa em que talvez nada combine perfeitamente. A almofada tem uma cor inesperada, o móvel já tem alguns anos, existem fotografias espalhadas, lembranças de viagens, objetos que vieram da casa dos pais ou dos avós, brinquedos, livros, plantas e pequenas coisas que parecem aleatórias para quem olha de fora. Mas você entra e imediatamente percebe: alguém vive aqui. Alguém tem histórias aqui. Alguém escolheu essas coisas. Alguém riu, chorou, cozinhou, dormiu, trabalhou, sonhou e provavelmente já perdeu a paciência com alguma coisa nesse lugar. Para mim, isso é muito mais interessante do que uma casa que parece intocável.

Talvez porque uma casa realmente nossa não precise ser cenário. Ela precisa ser abrigo. E abrigo não significa necessariamente um lugar onde tudo está perfeito; significa um lugar onde podemos baixar a guarda. É aquele espaço em que não precisamos pedir desculpas por existir do jeito que somos. Podemos colocar uma música que só nós gostamos, acender uma vela, deixar um livro aberto, usar uma manta velha, vestir o pijama mais confortável do mundo e simplesmente ficar. Não precisamos produzir uma imagem para ninguém. E talvez essa seja uma das maiores luxúrias que uma casa pode oferecer: a possibilidade de não precisar impressionar.

O meu quarto é o meu pequeno território

No meu caso, esse lugar é o quarto. É onde eu coloco mais energia e, de certa maneira, onde sinto que consigo reunir algumas das coisas que gosto. O quarto não é apenas o lugar onde eu durmo. É onde eu me recolho, onde penso, onde descanso, onde tenho momentos de silêncio e onde existe uma intimidade que os outros cômodos da casa não têm. É uma espécie de fronteira entre o mundo lá fora e aquele pequeno universo particular que existe dentro de mim.

E talvez seja justamente por isso que eu seja mais exigente com esse ambiente. Quando penso em deixar a casa mais aconchegante, o quarto aparece rapidamente na lista. Se penso em iluminação, penso nele. Se penso em cheiro, penso nele. Se encontro alguma coisa que acho bonita e que combina comigo, imagino como ficaria ali. Não porque eu queira transformar o quarto em um cenário perfeito, mas porque quero que ele me devolva alguma coisa quando entro.

Isso me fez pensar em uma coisa: talvez a gente não consiga colocar a mesma quantidade de energia em todos os lugares da nossa vida. E está tudo bem. A gente vive em uma época em que existe uma pressão enorme para fazer tudo direito. A casa precisa estar organizada, o trabalho precisa estar em dia, a família precisa estar bem, a aparência precisa estar cuidada, a alimentação precisa ser equilibrada, os filhos precisam receber atenção, os projetos precisam sair do papel e, se possível, ainda deveríamos encontrar tempo para fazer exercício, ler, viajar, encontrar amigos e manter uma vida social minimamente interessante. Só que nós somos uma pessoa só. Em algum momento, alguma coisa vai ficar para depois.

Talvez seja por isso que eu tenha parado de enxergar a necessidade de deixar todos os espaços igualmente perfeitos. Se eu tenho pouco tempo, quero que pelo menos o lugar onde descanso me faça bem. Se não consigo reorganizar a casa inteira, quero conseguir cuidar daquele canto que me devolve um pouco de tranquilidade. Não é desistir da casa. É escolher onde colocar minha energia.

E se o seu canto favorito não for o mais organizado?

Existe uma certa culpa associada à bagunça que eu acho curiosa. Parece que, se nossa casa não está impecável, estamos falhando em alguma coisa. É claro que organização facilita a vida e que uma casa limpa é muito mais agradável. Não estou fazendo aqui uma defesa da sujeira nem dizendo que devemos simplesmente deixar tudo espalhado e chamar de personalidade. 😂 Mas existe uma diferença entre uma casa que precisa de uma faxina e uma casa que não tem alma.

Às vezes, o nosso canto preferido pode estar no meio de uma semana caótica. Pode ter uma pilha de coisas esperando atenção. Pode ter uma gaveta que você sabe que deveria organizar há meses. Pode existir um objeto em cima da mesa que deveria estar guardado. E ainda assim aquele lugar pode continuar sendo especial. Porque o significado dele não depende da perfeição.

Aliás, talvez exista alguma liberdade em aceitar isso. A gente pode gostar de uma casa organizada sem transformar organização em requisito para se sentir bem. Podemos querer um ambiente bonito sem acreditar que ele precisa estar pronto para uma fotografia o tempo inteiro. Podemos gostar de decoração sem transformar nossa casa em uma obrigação estética. Uma casa é uma coisa viva. Ela muda conforme a vida muda.

Tem dias em que ela parece organizada. Tem dias em que parece que alguém apertou o botão “caos”. Tem períodos em que a gente tem disposição para mexer em tudo e outros em que o máximo que consegue fazer é arrumar a cama. E talvez esteja tudo bem. O lar não deixa de ser lar porque houve uma semana difícil.

Os pequenos objetos que transformam espaço em memória

Existe outra coisa que faz um canto da casa ficar especial: as histórias que colocamos dentro dele. Às vezes não percebemos, mas muitos dos objetos que nos cercam funcionam como pequenas cápsulas de memória. Uma fotografia pode nos transportar para uma tarde específica. Um perfume pode lembrar uma pessoa. Uma música pode trazer de volta uma época inteira. Um objeto comprado em uma viagem pode carregar muito mais significado do que seu valor financeiro.

É por isso que eu gosto de ambientes com personalidade. Eles contam histórias sem precisar explicar nada. Uma casa cheia de objetos escolhidos com intenção funciona quase como uma autobiografia silenciosa. Quem olha talvez não entenda tudo, mas quem mora ali sabe.

E isso vale especialmente para aquele canto que escolhemos como nosso. Ele pode reunir pequenas coisas que, isoladamente, parecem banais. Juntas, formam uma espécie de mapa afetivo. É o livro que você relê. A fotografia que nunca cansou de olhar. A lembrança de alguém. A peça artesanal que você mesma fez. A planta que sobreviveu a três tentativas anteriores. O objeto que você comprou sem saber exatamente por quê e hoje não consegue imaginar o ambiente sem ele.

Talvez seja essa a verdadeira função de um espaço pessoal: não apenas abrigar coisas, mas abrigar versões de nós mesmas.

Talvez a gente precise parar de decorar para os outros

Essa é uma pergunta que volta e meia me aparece quando penso em casa: para quem estamos arrumando tudo?

É claro que recebemos pessoas. É claro que queremos que nossos convidados se sintam bem. É claro que é gostoso ter uma casa bonita para mostrar. Mas será que, às vezes, não estamos colocando tanta energia em criar uma casa que outras pessoas vão admirar que esquecemos de criar uma casa em que nós realmente gostamos de viver?

A sala pode estar maravilhosa para receber visitas, mas existe algum lugar ali que faz você querer sentar sozinha? A mesa pode estar linda para um jantar, mas existe algum canto onde você gosta de tomar seu café sem pressa? A casa pode estar impecável para uma fotografia, mas existe algum ambiente que parece abraçar você quando o dia foi ruim?

Talvez essa seja uma mudança pequena, mas importante: pensar na casa a partir de quem mora nela, e não apenas de quem vai visitá-la.

Isso não significa ignorar estética. Significa acrescentar uma camada que é muito mais profunda: a experiência de quem vive ali. Porque, no fim das contas, somos nós que acordamos naquela casa em uma segunda-feira comum. Somos nós que chegamos cansados. Somos nós que atravessamos os dias bons e ruins. Somos nós que precisamos encontrar algum conforto quando o mundo parece barulhento demais.

A casa deveria trabalhar um pouco a nosso favor.

Um canto só seu não precisa ser um cômodo inteiro

E talvez, enquanto você lê tudo isso, esteja pensando: “Tá, mas eu não tenho um quarto só meu.” Ou: “Minha casa é pequena.” Ou: “Tenho filhos.” Ou: “Divido a casa com outras pessoas.” Ou simplesmente: “Não tenho espaço.”

Tudo bem.

Quando falo em um canto nosso, não estou falando necessariamente de ter um cômodo exclusivo. Pode ser uma pequena parte de alguma coisa. Uma cadeira. Uma mesa. Um criado-mudo. Uma prateleira. Uma caixa. Uma bancada. Um pedaço da varanda. Um lugar específico no sofá. Um cantinho para ler. Uma gaveta onde ficam suas coisas favoritas. Um espaço para criar.

O tamanho não importa tanto quanto a intenção.

Pode ser um lugar de dois metros quadrados ou uma pequena superfície de quarenta centímetros. O que importa é que, quando você olha para aquilo, reconheça alguma coisa sua. Talvez seja justamente essa a parte mais bonita: perceber que não precisamos esperar ter a casa dos sonhos para começar a criar pequenos espaços que nos façam bem.

Às vezes, o lar começa em um canto.

E se você não tiver um canto assim, talvez seja hora de criar um

Depois de pensar tanto sobre o meu quarto, fiquei imaginando quantas pessoas têm um lugar assim sem perceber e quantas simplesmente não têm. E talvez essa seja uma oportunidade interessante para fazer uma experiência.

Não precisa comprar nada.

Não precisa reformar.

Não precisa gastar dinheiro.

Olhe para a sua casa e pergunte: “Onde eu gosto de ficar?”

Depois pergunte: “Por quê?”

É o silêncio?

A luz?

O cheiro?

A vista?

O conforto?

As coisas que estão ali?

As lembranças?

A sensação de privacidade?

Talvez você descubra que aquele lugar já existe e só precisa receber um pouco mais de atenção. Talvez perceba que gosta muito de determinada cadeira e nunca tinha pensado nela como seu canto. Talvez descubra que a cozinha é onde você realmente se sente bem. Talvez seja a cama. Talvez a varanda. Talvez aquele pequeno espaço perto da janela.

E, se não existir, você pode começar a criar.

Pode tirar uma coisa de cima de uma mesa e colocar outra que tenha significado. Pode mudar a iluminação. Pode colocar uma planta. Pode deixar um livro por perto. Pode escolher uma manta. Pode colocar uma fotografia. Pode criar um espaço para escrever, desenhar, costurar, ouvir música ou simplesmente não fazer nada.

Porque “não fazer nada” também é uma atividade legítima.

Aliás, talvez seja uma das mais importantes.

Afinal, onde você mora dentro da sua própria casa?

Essa pergunta parece estranha, porque obviamente sabemos onde moramos. Mas estou falando de outra coisa.

Dentro de toda a estrutura da casa, dentro de todos os ambientes, dentro de todas as responsabilidades que acontecem ali, onde você se encontra?

Onde está o lugar em que você não precisa ser mãe, esposa, profissional, filha, responsável, organizadora, cozinheira, cuidadora ou qualquer outra coisa que a vida tenha colocado nas suas mãos?

Onde está simplesmente você?

Talvez seja o seu quarto.

Talvez seja a cozinha.

Talvez seja o jardim.

Talvez seja a mesa onde você cria.

Talvez seja uma poltrona perto da janela.

Talvez seja um cantinho tão pequeno que ninguém mais percebe.

O meu é o quarto.

E talvez seja justamente por isso que eu coloque tanta energia nele. Porque, no meio de tudo que existe para fazer, de todas as coisas que precisam ser organizadas e de todos os lugares que precisam da nossa atenção, existe uma parte da casa que me lembra que eu também faço parte dela.

Eu posso até não conseguir deixar tudo perfeito.

Posso olhar ao redor e encontrar uma lista enorme de coisas que ainda precisam ser feitas.

Mas, quando entro no meu quarto e sinto que aquele espaço tem a minha cara, existe uma pequena sensação de “está tudo bem”.

E acho que é disso que uma casa deveria ser capaz.

Não de resolver nossa vida.

Não de impedir os problemas.

Não de transformar todos os dias ruins em dias bons.

Mas de oferecer um lugar onde possamos respirar depois de enfrentá-los.

No fim, talvez uma casa não seja realmente feita de paredes, portas, móveis e objetos. Talvez ela seja feita das pequenas sensações que esses elementos conseguem provocar. É o cheiro que lembra uma manhã. A cama que acolhe depois de um dia cansativo. A cadeira onde você sempre senta. A janela por onde entra determinada luz. O objeto que ninguém entende por que é tão importante. A fotografia que faz sorrir. O silêncio que só existe ali.

E talvez seja por isso que toda casa tenha um canto que é mais nosso.

Não porque ele seja melhor que os outros.

Mas porque, de alguma maneira, ele nos devolve para nós mesmas.

O meu é o meu quarto.

E o seu?

Talvez hoje seja um bom dia para descobrir.

Ou, quem sabe, para criar.

Escrito por: Cinthia Lacerda com colaboração de Augusto (IA)