Amar também é acolher o que a gente não consegue entender
A maternidade não vem com manual de instruções, e cada criança nos ensina algo novo sobre amor, paciência e autoconhecimento. Entre choros, birras, cansaço, momentos de carinho e pequenas alegrias, descobrimos que criar filhos também significa aprender sobre nós mesmas. Neste artigo, compartilho uma experiência real com minhas filhas gêmeas e reflito sobre os desafios de acolher as emoções das crianças, estabelecer limites, lidar com as diferenças entre os pais e enfrentar os julgamentos alheios. Afinal, ser mãe não significa ser perfeita, ter todas as respostas ou dar conta de tudo sozinha. Significa aprender diariamente a equilibrar afeto, responsabilidade e empatia, reconhecendo que cada pessoa tem suas próprias dificuldades e que todos estamos em constante aprendizado.
MATERNIDADE
Cinthia Lacerda
10/13/202621 min ler


Amar também é acolher o que a gente não consegue entender
Existe uma ideia bastante curiosa sobre a maternidade que parece perseguir as mulheres desde que elas descobrem que estão grávidas: a de que, quando um filho nasce, nasce junto uma mãe que sabe exatamente o que fazer. Como se, depois de nove meses de gestação, algumas dores, muitas expectativas e um bebê nos braços, recebêssemos também um manual de instruções completo, com respostas para todas as situações possíveis. O problema é que esse manual não veio junto com as fraldas, ninguém explicou onde buscá-lo e, para piorar, cada criança parece ter recebido uma versão diferente do sistema operacional. A gente aprende na prática, improvisa, erra, tenta novamente e, quando finalmente acredita que entendeu alguma coisa, a criança muda de fase e parece que precisamos começar tudo outra vez.
Eu tenho duas meninas gêmeas, a Maria Eduarda e a Maria Luíza, e posso garantir que a maternidade já me ensinou muito sobre a diferença entre conhecer uma criança e acreditar que sabemos tudo sobre ela. Embora tenham nascido no mesmo dia, as duas possuem temperamentos diferentes, reagem às situações de maneiras distintas e expressam suas necessidades de formas próprias. A Duda costuma demonstrar suas emoções com mais intensidade, enquanto a Lulu geralmente parece mais tranquila. Isso não significa que uma sinta mais do que a outra, que uma seja mais difícil ou que a outra seja mais fácil de criar. Significa apenas que são duas pessoinhas diferentes, com suas próprias maneiras de experimentar o mundo. E nós, adultos, precisamos aprender a enxergar essas diferenças sem transformar uma criança em problema e a outra em exemplo de comportamento.
Um passeio no shopping e muitas lições sobre maternidade
No domingo, dia 11 de outubro, resolvemos aproveitar o Dia das Crianças e levar as meninas ao shopping. A Duda estava gripadinha desde sexta-feira, dia 9, mas vinha apresentando melhora. Teve uma febre baixa no sábado, que não voltou, e a tosse também parecia estar diminuindo. Na noite anterior, eu havia feito uma oração pedindo aos meus mentores espirituais que cuidassem das meninas. Dentro da minha espiritualidade, aquele gesto me trouxe conforto, e senti gratidão por perceber que ela parecia estar melhor. Como mãe, porém, sei que a fé e os cuidados concretos precisam caminhar juntos. Por isso, continuava observando os sintomas e o comportamento dela.
Saímos de casa por volta das onze e quinze e chegamos ao Iguatemi, em Porto Alegre, ao meio-dia. Fomos almoçar, mas a Duda não estava muito interessada na programação gastronômica. Não quis comer direito, nem mesmo as batatinhas fritas de que gosta tanto. A Lulu estava bem, enquanto a irmã chorava por praticamente qualquer coisinha. E quando digo qualquer coisinha, não estou usando aquela expressão que os adultos empregam para diminuir os sentimentos das crianças. Era uma sequência de choros, desconfortos e dificuldades para aproveitar o passeio. A gente tentava uma coisa, não funcionava; tentava outra, também não. E eu comecei a perceber que talvez aquele não fosse um dia tão simples para ela quanto havíamos imaginado.
Depois do almoço, levamos as meninas até o playground, mas o preço da entrada estava muito alto e resolvemos não entrar. Ficamos olhando por fora, e a Duda chorou bastante. Mais tarde, passamos na loja Super Legal Brinquedos, pensando em comprar alguma coisinha para elas. Havia brinquedos por todos os lados, alguns com preços capazes de fazer qualquer adulto reconsiderar suas prioridades financeiras, e acabamos não comprando nada. Curiosamente, as meninas brincaram com alguns dos brinquedos disponíveis na loja e foram embora sem fazer birra porque não levariam nada para casa. Isso me fez pensar em como, às vezes, nós, adultos, esperamos que uma criança tenha uma maturidade que nem sempre conseguimos demonstrar. E também em como não precisamos comprar alguma coisa a cada passeio para provar que amamos nossos filhos.
Já passava de uma hora da tarde quando resolvemos tomar um sorvetinho antes de voltar para casa. Foi o primeiro sorvete da vida das meninas, e elas adoraram! Aquele momento foi uma graça, mesmo com a Duda ainda bastante chorosa. O Ronaldo ficou com ela no colo, enquanto eu cuidava da Lulu, e aproveitamos o que restava do passeio. Saímos do shopping por volta das treze e quarenta. No caminho de volta, as duas dormiram no carro, depois de uma manhã cheia de estímulos e de um esforço que, provavelmente, havia sido muito maior para a Duda do que eu conseguia perceber naquele momento.
O passeio não saiu exatamente como planejamos. Não entramos no playground, não compramos brinquedos, o almoço foi complicado e uma das meninas passou boa parte do tempo chorando. Mas tivemos nosso primeiro sorvete em família, algumas risadas e mais uma experiência para guardar. Nem todo passeio precisa virar uma memória perfeita, dessas que parecem prontas para um álbum de fotografias. Às vezes, a vida real é uma mistura de momentos deliciosos, frustrações, imprevistos e uma criança que resolve chorar justamente quando a gente gostaria de tirar uma foto bonita.
Quando a criança ainda não sabe explicar o que sente
Existe uma coisa que procuro lembrar quando a Duda está muito irritada: ela ainda é um bebê. Ela não consegue explicar com clareza o que está sentindo, não sabe dizer que está cansada, que alguma coisa incomoda, que está com dor ou que já não aguenta mais tantos estímulos. Nem sempre consegue identificar a própria necessidade, muito menos encontrar uma maneira de comunicá-la. Nós, adultos, às vezes passamos décadas tentando compreender nossas emoções, e esperamos que uma criança pequena consiga fazer isso sem dificuldade? Convenhamos, seria uma exigência um tanto injusta.
Quando a Duda chora, se joga no chão, esperneia ou fica irritada, meu primeiro impulso é tentar entender o que pode estar acontecendo. Isso não significa que eu sempre saiba a resposta. Também não significa que todo comportamento seja aceitável ou que eu deva permitir qualquer coisa. Significa apenas que tento olhar além daquilo que aparece na superfície. Uma criança pode estar frustrada porque não conseguiu o que queria, mas também pode estar exausta, assustada, desconfortável ou sentindo alguma coisa que ainda não consegue comunicar. O choro é uma forma de expressão, não um relatório detalhado com a descrição do problema e as instruções para resolvê-lo.
Nós, adultos, temos o hábito de interpretar o comportamento alheio a partir do efeito que ele provoca em nós. Se uma criança chora muito, podemos pensar que está fazendo manha. Se insiste em alguma coisa, concluímos que está nos desafiando. Se grita, acreditamos que está tentando nos manipular. Às vezes, pode existir uma tentativa de testar limites, mas, especialmente nos primeiros anos de vida, o desenvolvimento emocional ainda está acontecendo. A criança está descobrindo que deseja coisas, que nem sempre pode obtê-las, que o mundo não funciona exatamente como gostaria e que existem sensações dentro dela que não desaparecem só porque alguém mandou parar de chorar.
A diferença entre um adulto e uma criança não está apenas no tamanho do corpo ou na quantidade de anos vividos. Está também na capacidade de compreender o que acontece, antecipar consequências, controlar impulsos e encontrar alternativas para lidar com a frustração. Quando esquecemos disso, corremos o risco de exigir que nossos filhos se comportem como pequenos adultos justamente nos momentos em que mais precisam da nossa ajuda para aprender.
Isso não quer dizer que precisamos transformar cada choro numa investigação interminável, como se fôssemos detetives particulares contratados por uma empresa especializada em mistérios infantis. Quer dizer que vale a pena observar, oferecer conforto, estabelecer limites e considerar as possibilidades antes de concluir que a criança está simplesmente tentando nos incomodar.
Naquele domingo, por exemplo, a Duda estava gripada, havia comido pouco, passado a manhã fora de casa e chegado perto do horário do cochilo. Era possível que o cansaço e o desconforto estivessem contribuindo para sua irritação. Mais tarde, em casa, ela continuou chorando intensamente e apresentou diarreia. Como conheço o comportamento habitual da minha filha, comecei a suspeitar que pudesse estar sentindo dor. Não posso afirmar que essa era a causa, mas a mudança no comportamento me fez prestar ainda mais atenção ao que estava acontecendo.
Cuidar também é reconhecer que não sabemos tudo. Quando uma criança está doente, apresenta sintomas persistentes ou chora de maneira intensa e incomum, não precisamos resolver o mistério sozinhos. Observar os sinais e procurar orientação pediátrica quando necessário faz parte do cuidado. O amor de mãe pode nos tornar atentas às mudanças, mas não nos transforma em profissionais capazes de diagnosticar tudo pelo olhar.
Acolher não significa deixar fazer tudo
Uma das coisas que mais me chama a atenção na criação dos filhos é como algumas pessoas confundem acolhimento com permissividade. Se uma mãe conversa com a criança em vez de gritar, é permissiva. Se espera que ela se acalme antes de corrigir um comportamento, é permissiva. Se tenta descobrir por que está chorando, é permissiva. Parece que, para algumas pessoas, a única prova de autoridade que realmente funciona é ver uma criança parar de fazer alguma coisa imediatamente, de preferência com uma expressão de quem acabou de receber uma advertência do departamento de recursos humanos.
Eu discordo dessa ideia de que educar precisa significar endurecer o coração. Acredito que podemos ser firmes sem ser cruéis, estabelecer limites sem humilhar e interromper um comportamento sem transformar o sofrimento da criança numa disputa de poder. Acolher o sentimento não significa concordar com tudo o que a criança faz. Significa reconhecer que ela pode estar frustrada, irritada ou triste e, ainda assim, precisa aprender que existem comportamentos que não são seguros ou respeitosos.
Se a Duda me arranha, por exemplo, preciso impedir que continue. Posso segurar delicadamente suas mãos, afastá-las do meu rosto e dizer que não vou deixar que me machuque. Se ela se joga no chão num lugar perigoso, preciso protegê-la. Se a Lulu fica em pé numa cadeira, a prioridade é impedir uma queda, colocando-a sentada ou retirando-a dali. Não é necessário esperar que uma criança compreenda todos os argumentos para agir em situações de risco.
A disciplina também não precisa depender de palmadas. Embora muitos de nós tenhamos crescido ouvindo que bater era uma forma normal de educar, hoje sabemos que é possível ensinar limites sem recorrer à punição física. Uma criança pequena aprende melhor quando o adulto interrompe o comportamento perigoso, demonstra o que espera dela e repete essa orientação com consistência. A palmada pode assustar ou interromper momentaneamente uma ação, mas não ensina, por si só, a habilidade que a criança precisa desenvolver. Em situações de risco, a proteção física imediata é mais segura e educativa do que usar a dor como recurso disciplinar.
Isso não significa que os pais que estão revendo práticas antigas precisem se considerar pessoas horríveis. Significa que podemos reconhecer o que aprendemos na infância, refletir sobre o que fazemos hoje e escolher ferramentas melhores. A maternidade não precisa ser uma repetição automática de tudo o que recebemos dos nossos próprios pais. Podemos conservar o que nos fez bem, questionar o que nos machucou e construir novas maneiras de cuidar.
Ser firme não é vencer uma queda de braço contra uma criança que ainda está aprendendo a controlar os próprios impulsos. Ser firme é manter o limite mesmo quando ela chora, esperneia ou demonstra desagrado. E ser acolhedora é continuar oferecendo segurança e afeto enquanto esse limite existe.
A paciência que ninguém vê
Naquele domingo, a Duda exigiu bastante de mim. No shopping, houve momentos em que ela se jogou no chão, chorou, esperneou e me arranhou. As pessoas olhavam, algumas comentavam, e eu simplesmente não estava preocupada com a opinião de quem passava. Meu objetivo era descobrir o que estava acontecendo com a minha filha e ajudá-la a ficar bem. Eu conversava com ela, tentava acolhê-la e procurava alternativas, sem dar uma palmada por causa do comportamento.
Não vou dizer que a situação era fácil ou que eu estava vivendo um estado permanente de serenidade iluminada. Eu também sou humana. Estava tentando conduzir um passeio com duas crianças pequenas, uma delas doente, enquanto lidava com o cansaço e com a dificuldade de entender o que ela precisava. A diferença é que procurei não transformar a minha própria exaustão numa agressão contra ela. E, sinceramente, até eu me surpreendo às vezes com o controle emocional que consigo manter nessas situações.
Consigo perceber que a irritação de uma criança não é necessariamente uma ofensa pessoal contra mim. Se a Duda chora, isso não significa que eu seja uma mãe ruim. Se ela se frustra porque não consegue alguma coisa, não significa que esteja desafiando minha autoridade de propósito. Se ela não quer comer, não preciso interpretar isso como uma provocação. Posso ficar cansada, posso não gostar do que está acontecendo e posso precisar de uma pausa, mas não preciso transformar cada dificuldade numa batalha para provar quem manda.
Essa separação entre o que é meu e o que é do outro faz diferença. Eu posso sentir irritação diante de um comportamento sem concluir que a criança está tentando me desrespeitar. Posso perceber que alguém está sofrendo sem assumir que preciso resolver tudo imediatamente. Posso acolher uma emoção sem precisar senti-la da mesma maneira. É uma forma de empatia que exige atenção, porque o sofrimento alheio nem sempre aparece de um jeito agradável.
Mas existe um detalhe importante: manter o controle emocional não significa nunca sentir raiva, impaciência ou vontade de sair correndo para uma ilha deserta, de preferência sem sinal de internet e sem brinquedos espalhados pelo chão. Significa reconhecer o que estamos sentindo e tentar escolher como agir, em vez de permitir que a emoção decida tudo por nós. E, quando percebemos que estamos perto do limite, pedir ajuda ou nos afastar por alguns instantes, desde que a criança fique segura com outro adulto responsável, também pode ser uma atitude cuidadosa.
A maternidade exige paciência, mas não deveria exigir que uma mulher escondesse o próprio cansaço até desaparecer dentro das necessidades da família. Precisamos aprender a acolher nossos filhos sem abandonar a nós mesmas no processo.
Quando um dos pais consegue acolher e o outro se irrita
Em casa, depois do passeio, as meninas foram descansar. A Lulu dormiu com mais facilidade, mas a Duda teve dificuldade. Eu estava muito cansada e fui deitar um pouco, enquanto o Ronaldo ficou acordado cuidando delas. Mais tarde, acordei e descobri que a Duda havia adormecido perto das quatro da tarde. Quando ouvimos o choro, fui até ela. Ela estava muito irritada, chorava bastante e parecia não encontrar conforto em nada.
Tentamos algumas coisas. Preparei outro leite, mas ela não quis. Não queria o bico, não queria assistir a um desenho e também recusou alimentos de que normalmente gosta. O Ronaldo já estava cansado e com menos paciência para lidar com aquele choro. Naquele momento, senti que alguém precisava conseguir manter a calma, e geralmente sou eu quem assume esse papel.
O Ronaldo é meu parceiro, e não considero que ele seja um vilão por ter mais dificuldade em lidar com determinadas situações emocionais. Ele participa da nossa vida familiar, tem suas qualidades e também possui limitações que precisa aprender a reconhecer. Uma coisa não anula a outra. Podemos amar alguém, reconhecer o quanto essa pessoa contribui para a família e, ao mesmo tempo, perceber que há aspectos da convivência que precisam melhorar.
O que me preocupa não é que um pai ou uma mãe sinta irritação diante do choro. Isso acontece. O que importa é o que fazemos com essa irritação. Quando um adulto percebe que está perdendo a paciência, pode pedir que o outro assuma por alguns minutos, desde que haja alguém disponível e seguro para cuidar da criança. Pode respirar, se afastar brevemente e voltar quando estiver mais regulado. Pode aprender a identificar os próprios gatilhos e desenvolver outras formas de responder. O que não deveria acontecer é a criança se tornar responsável por suportar a agressividade de um adulto porque ainda não sabe expressar suas necessidades de maneira mais organizada.
Também é importante lembrar que a responsabilidade pelo equilíbrio emocional da família não pode ficar sempre concentrada na mesma pessoa. Se sou eu quem consegue manter a calma com mais frequência, isso não significa que devo assumir automaticamente todos os momentos difíceis. Posso acolher minhas filhas, mas também preciso descansar. Posso compreender as limitações do meu marido, mas ele precisa trabalhar para lidar melhor com elas. Empatia não é fazer todo o trabalho emocional da casa enquanto os outros apenas se beneficiam dos resultados.
Às vezes, quem parece mais calmo acaba recebendo a função informal de administrar as emoções de todo mundo. Essa pessoa percebe quando alguém está irritado, tenta evitar conflitos, acolhe quem está triste e encontra soluções quando as coisas saem do controle. De tanto conseguir fazer isso, pode acabar sendo vista como alguém que sempre dá conta. Só que conseguir lidar com uma situação não significa ter obrigação de lidar com todas.
Uma família saudável não precisa ter duas pessoas com temperamentos idênticos. Precisa ter espaço para reconhecer as diferenças, conversar sobre as dificuldades e dividir a responsabilidade de cuidar. Não se trata de decidir quem está certo em todas as situações, mas de aprender a responder melhor às necessidades de cada integrante da família.
Duas filhas, duas maneiras de sentir
Existe outro detalhe nessa história que considero importante: a Lulu também faz birras. Só que, como a Duda manifesta suas emoções com mais intensidade, às vezes parece que a irmã quase não faz. É uma percepção compreensível, mas que merece atenção. Quando uma criança exige mais de nós, ela pode ocupar tanto espaço na nossa preocupação que deixamos de perceber as necessidades mais silenciosas da outra.
Isso acontece em muitas famílias. Um filho tem dificuldades na escola e recebe mais acompanhamento; o outro vai bem e acaba ficando com menos atenção. Um precisa de mais ajuda para dormir, enquanto o outro adormece sozinho. Um expressa a frustração aos gritos, enquanto o outro se recolhe. Sem perceber, os adultos podem começar a acreditar que o filho mais tranquilo precisa de menos acolhimento, quando talvez ele apenas demonstre suas necessidades de outra maneira.
A Lulu não é menos importante porque costuma chorar menos. A Duda não é mais difícil de amar porque chora mais. As duas merecem ser observadas individualmente, sem que uma seja usada como parâmetro para julgar a outra. Isso também significa evitar rótulos que parecem inofensivos, mas podem acompanhar as crianças por muito tempo: a boazinha, a brava, a chorona, a fácil, a difícil.
Crianças pequenas estão em desenvolvimento. O comportamento de hoje não define quem serão amanhã, e a maneira como reagem às situações pode mudar conforme crescem, aprendem a falar, desenvolvem novas habilidades e encontram formas diferentes de comunicar o que sentem. Nosso papel não é determinar qual personalidade merece mais paciência. É oferecer condições para que cada uma desenvolva suas capacidades, respeitando suas particularidades e estabelecendo limites que garantam segurança para todas.
Ser mãe de duas crianças da mesma idade me faz lembrar diariamente que igualdade não significa fazer tudo exatamente da mesma maneira. Às vezes, uma precisa de colo enquanto a outra precisa de espaço. Uma precisa de mais tempo para se acalmar; a outra precisa de ajuda para interromper uma ação perigosa. O importante é não transformar essas diferenças numa disputa por quem recebe mais amor.
O que fazer quando nada parece funcionar
Depois de tentar várias alternativas sem sucesso, comecei a considerar que a Duda poderia estar sentindo dor. Conheço minha filha e percebi que aquele comportamento estava diferente do que eu esperava. Ela também estava com diarreia, então procurei lidar com a possibilidade de um desconforto físico. Depois dos cuidados que considerei necessários, fiquei com ela no colo, oferecendo carinho e aconchego.
Aos poucos, ela se acalmou e se aninhou em mim. Ficamos abraçadinhas, assistindo a um desenho. Cerca de uma hora depois, ela parecia melhor e aceitou comer um biscoitinho de polvilho e um pãozinho. Foi um alívio vê-la mais tranquila depois de uma tarde tão difícil.
Não quero transformar essa experiência numa fórmula segundo a qual toda criança irritada precisa apenas de colo, porque a realidade não funciona assim. Às vezes, o que a criança precisa é dormir; em outras ocasiões, precisa comer, mudar de ambiente, receber ajuda para lidar com uma frustração ou ser examinada por um profissional de saúde. Há momentos em que o colo ajuda imediatamente e outros em que nem o colo parece resolver. O desafio está em observar, tentar compreender e reconhecer quando precisamos de ajuda.
Quando uma criança está muito alterada, podemos diminuir os estímulos, falar com calma, oferecer proximidade sem forçá-la a aceitar o toque e garantir que esteja num ambiente seguro. Se estiver batendo ou arranhando, podemos impedir delicadamente que machuque alguém. Se não quiser conversar, não precisamos exigir explicações que ela ainda não consegue dar. E, se houver sinais de doença ou dor, precisamos considerar essa possibilidade em vez de atribuir tudo a uma questão comportamental.
O mais difícil, muitas vezes, é aceitar que nem sempre conseguiremos interromper o choro imediatamente. Nós nos acostumamos a procurar soluções e queremos ver resultados. Quando nada funciona, surge a sensação de impotência, como se estivéssemos falhando numa tarefa que deveria ser simples. Mas acompanhar alguém durante um momento difícil não é a mesma coisa que conseguir fazê-lo desaparecer.
Existem situações em que a melhor coisa que podemos oferecer é presença, segurança e tempo. Não porque sejamos capazes de resolver tudo com amor, mas porque a criança ainda está aprendendo a atravessar experiências que não consegue administrar sozinha.
A opinião dos outros não conhece a nossa história
Durante o passeio no shopping, algumas pessoas olharam para a Duda chorando. É natural que uma cena assim chame a atenção. O problema começa quando alguém acredita que consegue compreender toda uma situação a partir de alguns segundos de observação.
Quem passava por nós não sabia que a Duda estava gripada havia alguns dias. Não conhecia o comportamento habitual dela, não tinha acompanhado nossa manhã e não sabia o que estávamos tentando fazer para ajudá-la. Via apenas uma criança chorando e uma mãe tentando lidar com aquilo. Ainda assim, é muito fácil imaginar que algumas pessoas tenham formado suas próprias opiniões sobre a minha maneira de agir.
Durante muito tempo, muitas mulheres aprenderam que precisavam demonstrar competência materna diante dos outros. A criança deveria estar limpa, alimentada e comportada; a mãe deveria estar arrumada, paciente e sorridente. Se o filho chorasse em público, a responsabilidade seria dela. Se fizesse birra, alguém poderia concluir que faltava disciplina. Se a mãe demonstrasse irritação, seria julgada por não ter paciência. Se não demonstrasse, poderia ser acusada de não impor limites.
É uma espécie de prova pública na qual a mulher nunca sabe exatamente quais são as regras, mas parece estar sempre sendo avaliada.
Eu não estava preocupada com isso naquele domingo. Minha prioridade era a Duda, não a opinião de quem passava. E acredito que aprender a separar essas coisas seja importante: podemos ouvir conselhos, considerar críticas e rever nossas atitudes sem entregar a pessoas desconhecidas o poder de decidir se somos boas mães.
Isso não significa ignorar qualquer observação externa. Às vezes, alguém percebe algo que não notamos, oferece uma sugestão útil ou nos ajuda a enxergar uma situação por outro ângulo. O importante é distinguir uma contribuição respeitosa de um julgamento precipitado. Nem toda opinião merece ser incorporada à nossa vida, assim como nem toda crítica deve ser descartada apenas porque incomoda.
A maternidade já tem desafios suficientes sem precisarmos transformar cada saída de casa num concurso de aprovação social. Podemos educar nossos filhos com responsabilidade e, ainda assim, ter uma criança chorando no supermercado, no shopping, na sala de espera ou no meio de uma visita. Crianças não são funcionárias encarregadas de preservar a reputação dos pais. São pessoas em desenvolvimento, e parte desse desenvolvimento acontece justamente nos momentos em que suas emoções ficam difíceis de administrar.
A maternidade também nos ensina sobre nós mesmos
Quando penso naquele domingo, percebo que a experiência não me ensinou apenas alguma coisa sobre a Duda. Ela também me fez observar a maneira como eu reajo às necessidades dos outros. Tenho uma tendência a tentar compreender o que as pessoas estão sentindo, a imaginar como seria estar no lugar delas e a procurar explicações para comportamentos que, à primeira vista, parecem difíceis de entender.
Essa característica me ajuda a lidar com minhas filhas, mas também me obriga a prestar atenção num risco: compreender os outros não significa assumir a responsabilidade por tudo o que fazem. Posso entender que o Ronaldo tem dificuldade para lidar com determinadas emoções sem concluir que preciso resolver essa dificuldade por ele. Posso reconhecer que alguém está sofrendo sem aceitar que desconte esse sofrimento em mim. Posso oferecer apoio sem carregar sozinha uma responsabilidade que deveria ser compartilhada.
A empatia precisa caminhar junto com os limites. Caso contrário, corremos o risco de confundir amor com disponibilidade permanente, compreensão com tolerância ilimitada e parceria com a obrigação de compensar tudo o que falta no outro. Isso vale para a maternidade, para o casamento, para as amizades e para praticamente todas as relações humanas.
Nossos filhos também nos mostram partes de nós que talvez não conhecêssemos tão bem. A convivência diária coloca nossa paciência à prova, revela nossas inseguranças e nos obriga a lidar com situações que não podemos controlar completamente. Podemos descobrir que somos mais pacientes do que imaginávamos, mas também perceber que temos dificuldades que precisam ser trabalhadas. O importante é não transformar essa descoberta numa competição para ver quem evoluiu mais.
Eu não sou uma mãe perfeita. Não acredito que exista uma mãe perfeita. Sou uma mulher tentando compreender duas crianças que estão descobrindo o mundo, enquanto também descubro como quero participar desse processo. Em alguns momentos, consigo manter a calma com facilidade; em outros, posso precisar de ajuda, descanso ou uma nova perspectiva. Não considero isso um fracasso. Considero parte de estar viva e de continuar aprendendo.
Também não acredito que o Ronaldo seja um vilão porque reage de maneira diferente da minha. Somos pessoas com histórias, temperamentos e limites próprios. O que importa é reconhecer quando nossas dificuldades afetam quem está ao nosso redor e buscar maneiras mais saudáveis de lidar com elas. O mesmo vale para mim. Ter facilidade para acolher não me torna automaticamente certa em todas as situações, assim como ter dificuldade para lidar com o choro não condena alguém a nunca aprender.
A família não precisa ser formada por pessoas emocionalmente prontas. Precisa ser um espaço em que possamos reconhecer nossas limitações, assumir nossas responsabilidades e tentar fazer melhor na próxima vez.
Ninguém é perfeito, e ninguém precisa ser o vilão
Existe uma tendência de transformar conflitos familiares em histórias com personagens muito bem definidos: alguém é o paciente, alguém é o impaciente; alguém é o sensível, alguém é o insensível; alguém está certo, alguém está errado. Essa divisão pode até facilitar uma discussão na internet, mas raramente explica a complexidade da vida real.
Na vida real, uma pessoa pode ser um parceiro maravilhoso e ter dificuldade para regular as próprias emoções. Uma mãe pode ser muito paciente e ainda precisar rever algumas práticas. Uma criança pode ser carinhosa, curiosa e divertida e, ao mesmo tempo, ter momentos em que chora intensamente, arranha ou se joga no chão. Essas características não precisam se anular. As pessoas são maiores do que seus piores momentos, mas continuam responsáveis pelo modo como tratam umas às outras.
Isso não significa relativizar tudo ou fingir que comportamentos prejudiciais não importam. Pelo contrário. Quando reconhecemos que ninguém é um personagem inteiramente bom ou ruim, conseguimos olhar com mais clareza para aquilo que precisa mudar. Em vez de concluir que alguém é incapaz de amar porque perdeu a paciência, podemos conversar sobre como lidar com a irritação sem machucar uma criança. Em vez de afirmar que uma mãe é permissiva porque acolhe o choro, podemos observar se ela estabelece limites seguros e consistentes. Em vez de chamar uma criança de manipuladora porque insiste numa coisa, podemos considerar o que ela já consegue compreender e o que ainda precisa aprender.
A responsabilidade não desaparece quando existe empatia. Ela se torna mais concreta. Podemos compreender por que alguém agiu de determinada maneira sem considerar aquela atitude adequada. Podemos reconhecer nossas próprias intenções sem ignorar os efeitos das nossas ações. Podemos amar alguém e, ainda assim, dizer que uma atitude precisa mudar.
Talvez uma das lições mais importantes da maternidade seja justamente essa: não precisamos escolher entre acolher e ensinar, entre compreender e estabelecer limites, entre reconhecer as dificuldades de alguém e esperar que essa pessoa trabalhe nelas. O amor não exige que fechemos os olhos para os problemas. Ele pode ser justamente o motivo pelo qual decidimos enfrentá-los.
No fim daquele domingo, depois de tantas tentativas, a Duda estava mais tranquila no meu colo. A Lulu também estava bem, e eu precisava voltar ao trabalho. A vida não parou porque tivemos uma tarde difícil. Ainda havia coisas para fazer, responsabilidades esperando e uma rotina que continuaria no dia seguinte. Mas ficou comigo a lembrança de que, por trás de um comportamento que parece difícil, pode existir uma necessidade que ainda não conseguimos identificar.
Não sei se acertei em todas as decisões daquele dia. Provavelmente, como acontece com qualquer pessoa que está aprendendo, há coisas que eu faria de outra maneira se pudesse voltar no tempo. Mas sei que tentei observar minhas filhas, respeitar o que estavam sentindo e encontrar uma forma de cuidar delas sem transformar o momento difícil numa disputa.
E talvez seja isso que precisamos permitir a nós mesmas: a possibilidade de aprender sem exigir perfeição, de corrigir nossas atitudes sem nos condenar e de reconhecer o esforço que fazemos sem acreditar que já sabemos tudo.
Porque criar filhos não é apenas ensinar alguém a viver. É aprender, todos os dias, a conviver com outra pessoa sem esquecer que ela está em formação — e que nós também estamos.
Ninguém é perfeito. Ninguém precisa ser o vilão de todas as histórias. Estamos todos em constante aprendizado.
E, se existe alguma coragem especial na maternidade, talvez ela esteja justamente aí: amar nossos filhos o suficiente para acolhê-los quando ainda não sabem explicar o que sentem, estabelecer limites para ajudá-los a crescer e ter humildade para reconhecer que nós, adultos, também precisamos continuar aprendendo a fazer tudo isso.
Sem manual de instruções, sem garantias e, se possível, com um sorvetinho no caminho. Porque a vida já é complicada demais para a gente abrir mão das pequenas alegrias.
Escrito por: Cinthia Lacerda
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