Quando o sono não vinha: o que a maternidade me ensinou sobre aquilo que eu não podia controlar

Durante meses, o sono das minhas filhas foi uma das maiores dificuldades da maternidade. Procurei respostas, tentei entender o que estava fazendo de errado e muitas vezes me senti sozinha. Até descobrir que algumas fases não precisam ser vencidas — precisam ser atravessadas.

MATERNIDADE

Cinthia Lacerda

9/4/202611 min ler

Quando o sono não vinha: o que a maternidade me ensinou sobre aquilo que eu não podia controlar

Existe uma parte da maternidade sobre a qual se fala muito, mas que, de alguma maneira, continua sendo difícil de explicar para quem ainda não viveu: o cansaço que vai muito além de estar cansada.

Não é simplesmente ter sono porque você dormiu poucas horas. É acordar no meio da madrugada e precisar lembrar que existe um dia inteiro esperando por você. É levantar quando o corpo implora para continuar deitado. É cuidar de uma criança enquanto a sua cabeça parece funcionar em câmera lenta. É tentar trabalhar, conversar, resolver problemas, preparar alguma coisa para comer, cuidar da casa, responder mensagens e continuar sendo uma pessoa minimamente funcional quando, por dentro, tudo o que você gostaria era de apagar a luz e dormir por algumas horas seguidas.

Foi nesse lugar que eu me encontrei durante uma das fases mais difíceis da maternidade para mim: o período em que minhas filhas não dormiam a noite toda.

Hoje, olhando para trás, consigo falar sobre isso com mais tranquilidade. Consigo até perceber algumas coisas que, naquela época, eu não conseguia enxergar. Mas existe uma diferença enorme entre contar uma história depois que ela passou e viver aquela mesma história enquanto você ainda não sabe quando ela vai terminar.

E talvez seja justamente por isso que eu queira escrever sobre isso.

Não porque eu tenha descoberto uma fórmula para fazer uma criança dormir.

Eu não descobri.

Não porque exista aqui um método infalível que eu possa entregar para outra mãe.

Também não existe.

Quero escrever porque, quando eu estava vivendo aquilo, uma das coisas que mais me incomodava era a sensação de que eu estava sozinha. Eu procurava respostas em vários lugares, buscava relatos de outras mães, tentava encontrar alguma dica que pudesse finalmente resolver o problema e, muitas vezes, terminava ainda mais frustrada.

Eu queria alguém que dissesse: “Calma. Talvez você não esteja fazendo nada errado.”

E talvez seja essa a conversa que eu gostaria de ter tido naquela época.

Quando você começa a achar que está fazendo tudo errado

Existe uma característica muito curiosa da maternidade contemporânea: temos acesso a uma quantidade gigantesca de informação e, mesmo assim, muitas vezes nos sentimos completamente perdidas.

Se uma criança não dorme, existem milhares de páginas falando sobre sono. Se não come, existem milhares de conteúdos sobre alimentação. Se chora, alguém tem uma explicação. Se acorda durante a noite, existe uma rotina para testar. Se não quer ficar no berço, existe uma estratégia. Se dorme demais, existe outra.

A informação, que deveria nos ajudar, às vezes acaba criando uma sensação muito mais difícil: a de que sempre existe alguma coisa que estamos fazendo errado.

Foi assim comigo.

Eu procurava respostas porque precisava desesperadamente acreditar que havia uma resposta.

Será que era o horário?

Será que era a rotina?

Será que elas dormiam demais durante o dia?

Será que estavam com fome?

Será que eu deveria mudar alguma coisa antes de colocá-las para dormir?

Será que eu estava criando um hábito ruim?

Será que eu estava acostumando mal?

Será que outras mães conseguiam fazer aquilo e eu simplesmente não conseguia?

E existe uma pergunta ainda mais cruel escondida atrás de todas essas outras:

“O que eu estou fazendo de errado?”

Talvez muitas mães conheçam essa pergunta.

Ela aparece de formas diferentes ao longo da criação dos filhos. Às vezes está relacionada ao sono. À alimentação. À escola. À disciplina. Ao comportamento. À maneira como a criança reage. Ao desenvolvimento. À nossa própria capacidade de dar conta de tudo.

A maternidade parece ter uma quantidade infinita de pequenas provas nas quais sentimos que deveríamos saber a resposta certa.

Só que criança não é uma equação.

Não existe um conjunto de variáveis que você controla e, no final, produz exatamente o resultado esperado.

E eu precisei aprender isso da maneira mais cansativa possível.

Eu procurei alguém que tivesse a resposta

Eu lembro de procurar em vários lugares.

Queria encontrar uma mãe que tivesse passado exatamente pela mesma situação e pudesse me dizer o que fazer. Queria descobrir aquela pequena informação que ninguém tinha me contado.

Talvez fosse uma rotina específica.

Talvez fosse uma mudança no ambiente.

Talvez fosse simplesmente uma questão de horário.

Eu estava disposta a tentar.

Porque quando você está acordando várias vezes durante a noite, a sua capacidade de acreditar em soluções milagrosas aumenta bastante. Não porque você seja ingênua, mas porque está exausta.

E o desespero muda a maneira como a gente procura respostas.

Você começa procurando orientação.

Depois começa procurando uma solução.

Depois começa procurando qualquer coisa que possa funcionar.

E quando nada funciona, pode surgir uma sensação muito solitária de fracasso.

Foi isso que mais me marcou naquela época. Não era apenas o fato de estar cansada. Era não encontrar uma resposta que fizesse sentido para a minha realidade.

Eu via informações dizendo o que deveria acontecer, como deveria ser, quais hábitos deveriam ser criados, quais comportamentos poderiam ser evitados. Mas a vida real não vinha com um botão de “aplicar”.

Eu tinha duas crianças.

Duas personalidades.

Duas necessidades.

Duas pequenas pessoas passando por uma fase de desenvolvimento que não necessariamente obedecia ao que dizia um texto na internet.

E, no meio disso tudo, existia uma mãe tentando descobrir como simplesmente conseguir dormir.

A comparação pode ser uma armadilha

A comparação na maternidade é especialmente cruel porque quase sempre comparamos o nosso bastidor com o palco de outra pessoa.

Você escuta que o filho de alguém começou a dormir a noite inteira com seis meses.

Outra mãe conta que estabeleceu uma rotina e resolveu tudo.

Alguém diz que determinada técnica funcionou perfeitamente.

Outra pessoa afirma que bastaram alguns dias.

E você olha para a sua própria realidade e pensa:

“Por que comigo não está funcionando?”

Só que existe uma pergunta que deveríamos fazer antes de transformar a experiência de outra família em régua para medir a nossa:

Será que as condições eram realmente as mesmas?

Provavelmente não.

Nem as crianças são iguais. Nem as famílias. Nem as rotinas. Nem as circunstâncias. Nem o temperamento. Nem a forma como cada criança responde às mudanças.

E isso não significa que informação seja inútil. Muito pelo contrário. Buscar conhecimento, conversar com profissionais e compreender o desenvolvimento infantil pode ser extremamente importante.

O problema começa quando transformamos toda informação em uma cobrança.

Quando uma sugestão deixa de ser uma possibilidade e passa a parecer uma obrigação.

Quando “isso pode ajudar” vira, dentro da nossa cabeça, “se isso não funcionar, a culpa é minha”.

Eu demorei para perceber essa diferença.

Talvez a maior dificuldade não fosse fazer minhas filhas dormirem

Hoje eu penso que a maior dificuldade daquela fase não era exatamente o sono.

Era a minha relação com aquilo que eu não conseguia controlar.

Eu queria resolver.

E isso é muito natural.

Quando alguma coisa está fazendo nosso filho sofrer — ou está fazendo a própria mãe chegar ao limite — a primeira reação é tentar encontrar uma solução.

Só que existem situações em que solucionar e acompanhar são coisas diferentes.

Você pode fazer a sua parte sem ter o poder de determinar o resultado.

Essa é uma ideia muito difícil de aceitar quando estamos falando dos nossos filhos.

Porque queremos acreditar que, se fizermos tudo corretamente, conseguiremos protegê-los de todas as dificuldades.

Mas não conseguimos.

A maternidade não nos transforma em controladoras do desenvolvimento de outra pessoa. Ela nos transforma em responsáveis por cuidar, observar, orientar, proteger e oferecer presença.

O resto, muitas vezes, também depende do tempo.

E foi justamente isso que aconteceu comigo.

Eu tentei.

Eu procurei.

Eu observei.

Eu mudei coisas.

Eu pensei sobre aquilo.

Eu procurei respostas.

Mas chegou um momento em que eu precisei simplesmente atravessar aquela fase.

Elas começaram a dormir a noite toda com um ano e dois meses

Minhas filhas começaram a dormir a noite toda quando tinham aproximadamente um ano e dois meses.

E essa informação pode parecer banal para quem está lendo.

Mas para mim, naquele momento, foi enorme.

Porque eu passei muito tempo esperando por aquilo.

E não aconteceu porque eu finalmente descobri a técnica secreta.

Não aconteceu porque eu encontrei uma combinação perfeita de horários.

Não aconteceu porque, depois de tantas tentativas, finalmente acertei o método.

Aconteceu porque elas cresceram.

O tempo passou.

O desenvolvimento delas mudou.

E aquela necessidade que existia antes deixou de existir da mesma maneira.

Essa conclusão foi muito mais importante para mim do que qualquer dica de sono poderia ter sido.

Porque me mostrou que, embora eu pudesse participar daquele processo, eu não era dona dele.

Eu podia criar condições.

Podia oferecer segurança.

Podia estabelecer uma rotina.

Podia acolher.

Mas eu não podia simplesmente apertar um botão e decidir que, naquela noite, minhas filhas estavam prontas para dormir a noite inteira.

E existe uma diferença muito grande entre não ter controle e não ter influência.

Nós temos influência sobre muitas coisas na vida dos nossos filhos.

Mas influência não é controle.

E talvez aceitar essa diferença seja uma das tarefas mais difíceis de aprender na maternidade.

Esperar também pode ser uma forma de cuidar

A palavra “esperar” nem sempre soa bonita.

Principalmente quando estamos cansados.

Quando alguém diz “é só uma fase”, pode até ser verdade, mas isso não significa que seja fácil viver aquela fase.

Eu não quero romantizar o cansaço.

Não quero dizer que noites mal dormidas são lindas porque passam.

Não quero transformar exaustão em prova de amor.

Mãe nenhuma precisa estar destruída para provar que ama o filho.

Se existe ajuda disponível, ela deve ser buscada. Se existe alguma questão que preocupa, merece ser investigada. Se o cansaço está ultrapassando os limites do suportável, isso também merece atenção.

Esperar não significa ignorar.

Esperar significa, algumas vezes, reconhecer que você já está fazendo o que consegue fazer naquele momento e que o restante não depende exclusivamente de você.

E isso pode ser profundamente frustrante.

Mas também pode ser libertador.

Porque quando você entende que não precisa controlar tudo, uma parte daquela culpa começa a perder força.

O que eu gostaria de ter ouvido naquela época

Se eu pudesse voltar para aquela mãe que estava pesquisando sobre sono no meio da madrugada, eu não entregaria uma lista de técnicas.

Eu sentaria ao lado dela.

Talvez oferecesse um café.

E diria:

“Você não está sozinha.”

Diria também que estar cansada não significa que ela não ama os filhos.

Que sentir irritação depois de uma noite interrompida não faz dela uma mãe ruim.

Que procurar respostas não é sinal de incompetência.

Que não encontrar uma solução imediata não significa que ela esteja falhando.

E principalmente que ela não precisa transformar cada dificuldade dos filhos em um julgamento sobre si mesma.

Porque existe uma diferença enorme entre pensar “isso está difícil” e pensar “eu sou incapaz de lidar com isso”.

A primeira frase descreve uma situação.

A segunda transforma a situação em identidade.

E nós, mães, precisamos tomar cuidado com isso.

Uma noite difícil é uma noite difícil.

Uma fase complicada é uma fase complicada.

Uma criança que não dorme não é uma prova de que sua mãe não sabe ser mãe.

Talvez pareça óbvio quando escrito assim.

Mas, no meio de uma madrugada às três da manhã, nem sempre é tão óbvio.

Algumas fases não precisam ser vencidas

Hoje, quando penso naquela época, existe uma frase que resume muito do que aprendi:

algumas fases não precisam ser vencidas. Elas precisam ser atravessadas.

Isso não significa permanecer passivamente em qualquer situação difícil. Não significa deixar de procurar ajuda ou de buscar soluções quando elas existem.

Significa entender que há processos que não obedecem à nossa pressa.

Crianças crescem.

Mudam.

Aprendem.

Desenvolvem novas habilidades.

Abandonam hábitos.

Criam outros.

E nós vamos acompanhando essas transformações enquanto tentamos, ao mesmo tempo, lembrar que também somos pessoas.

Talvez essa seja uma das partes mais bonitas — e mais difíceis — de ser mãe.

Você prepara o terreno, mas não determina exatamente quando a flor vai abrir.

Você ensina, mas não controla exatamente quando o aprendizado vai acontecer.

Você acolhe, mas não consegue impedir todas as dores.

Você oferece amor, mas não pode viver a vida pelo seu filho.

E isso pode ser assustador.

Mas também é a prova de que estamos criando pessoas, e não projetos.

Para a mãe que está acordando de madrugada

Se você está lendo isso enquanto o seu filho finalmente dorme — e você está olhando para o relógio pensando que daqui a pouco ele pode acordar de novo — eu queria que você soubesse que existe alguém do outro lado dizendo: eu sei como isso pode ser difícil.

Eu sei como é procurar uma resposta.

Sei como é olhar para outras famílias e imaginar que todo mundo descobriu alguma coisa que você ainda não descobriu.

Sei como é sentir que deveria existir uma solução simples para um problema que está acabando com as suas forças.

E eu também sei, hoje, que aquela fase terminou.

Não sei quando a sua vai terminar.

Não seria honesto prometer isso.

Cada criança tem seu próprio processo, e situações que fogem do esperado merecem ser conversadas com profissionais que possam avaliar aquela criança especificamente.

Mas posso te contar o que aconteceu comigo.

Eu esperei.

E um dia, sem que eu percebesse exatamente quando a mudança aconteceu, minhas filhas começaram a dormir a noite toda.

A madrugada deixou de ser uma sequência interminável de despertares.

E aquilo que parecia fazer parte da minha vida para sempre ficou para trás.

Talvez você ainda esteja no meio dessa travessia.

Talvez ainda esteja procurando respostas.

Talvez hoje seja uma daquelas noites em que você vai acordar de novo e pensar: “Quando isso vai acabar?”

Eu não tenho como te responder.

Mas posso te lembrar de uma coisa que eu mesma precisei aprender:

você não precisa ter controle sobre tudo para estar fazendo o seu melhor.

Às vezes, cuidar também é continuar.

Continuar mesmo sem saber exatamente quando vai melhorar.

Continuar procurando ajuda quando precisar.

Continuar oferecendo colo.

Continuar tentando.

E, principalmente, continuar lembrando que uma fase difícil não define a mãe que você é.

Um dia, você pode olhar para trás e perceber que aquilo que parecia eterno era apenas um capítulo.

E talvez você nem consiga lembrar qual foi a noite em que tudo mudou.

Mas vai saber que você atravessou.

E isso, por si só, já diz muita coisa.

Escrito por: Cinthia Lacerda com colaboração de Augusto (IA)

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